Resident Evil 7 é melhor game já feito na série [análise]

Por Leandro Souza RSS | em 23.02.2017 às 15h33 - atualizado em 23.02.2017 às 15h52

Resident Evil 7

Sim, você leu certo o título deste texto. E não me leve a mal: eu levei um bom tempo para ter certeza antes de fazer essa afirmação - aliás, já faz cerca de um mês que o game chegou às lojas, muitos fãs já conferiram o título e uma boa parte deles podem não concordar com minha opinião. Resident Evil já é uma série com mais vinte anos de idade e diversos jogos clássicos em sua história. Entretanto, eu realmente acredito que chegamos a um novo patamar com Resident Evil 7.

Mas antes disso, vamos com um pequeno histórico.

Resident Evil 2 foi um dos games que eu mais joguei na vida. Perdi as contas de quantas vezes eu joguei a saga de Leon Kennedy e Claire Redfield durante o incidente em Raccoon City, no que provavelmente é um dos capítulos mais emblemáticos da franquia. O primeiro RE é um clássico incontestável, mas RE2 expandiu o conceito da série, indo além de um conto concentrado a uma "casa mal assombrada", levando para um mundo maior e com muito mais possibilidades.

A partir daí, a série só cresceu, rendendo bons títulos (Nemesis e Code Veronica, por exemplo), mas mantendo sua fórmula firme - exploração, tensão, monstros, conspirações, bioterrorismo. Então a Capcom chutou o balde e veio Resident Evil 4, a verdadeira faca de dois gumes da série. Para cada ideia fantástica que RE4 e seu equilíbrio fino de ação e medo trouxe, a série foi contaminada de uma maneira nociva, rendendo diversos jogos completamente desviados do que a franquia representou em seu início. Não estou dizendo que não gostei de Resident Evil 5, por exemplo, mas foi uma coisa muito, muito diferente. Sobre RE6, aquela coisa estranha que até hoje não sei o que pensar, prefiro não comentar.

Mas enfim, 2017 tá aí e Resident Evil voltou às suas raízes da forma mais simples possível, depois de viajar o mundo e além para expandir seu universo. O medo retorna a um único ambiente e se ancora em uma jogabilidade clássica, bons personagens e uma história muito bem contada - tá, e sim, ele muda a perspectiva de câmera para uma visão em primeira pessoa. Ao meu ver, em RE7 o ciclo da série se fecha - e por isso, mesmo, recomeça.

Um novo começo

Resident Evil 7 não se preocupa em logo se posicionar dentro do conhecido universo da série, um cânone construído ao longo de duas décadas e que até pode se tornar confuso para jogadores não familiarizados com outros games - em Resident Evil 6, por exemplo, o excesso de história prévia era algo de espantar o gamer casual. Ele começa simples, contando a história de Ethan Winters, um homem em busca de sua esposa desaparecida há três anos. Nessa busca, ele entra em uma decrépita casa nos pântanos da Louisiana e cruza seu caminho com os Bakers, uma família, no mínimo, excêntrica.

Assim com os melhores games da franquia, o sétimo capítulo começa a partir de uma premissa simples, que aos poucos vai se abrindo e se tornando mais envolvente. E sim, eventualmente o game se situa, de fato, dentro do universo Resident Evil, agregando elementos de terror biológico, monstrengos horrorosos e outras conspirações. Mesmo assim, essa espécie de "novo começo" soa não apenas como algo novo para a série, mas também para o gênero.

O jogo toma seu tempo para envolver o gamer, convidando-o a explorar o ambiente, percorrer os corredores da casa, procurar itens e ler documentos. Algo já apresentado nas demos do título, itens como gravações em fitas cassete dão um toque diferente à narrativa do título e cumprem de forma criativa o objetivo de enriquecer a trama. Assim a história de Resident Evil 7 é contada, tratando o seu ambiente como se ela fosse um personagem - algo que não se via, praticamente, desde o PRIMEIRO Resident.

Tal qual a mansão de Resident Evil 1 e a delegacia de Raccoon City em RE2, a propriedade da família Baker no novo game exala personalidade, com seus corredores pouco iluminados, móveis decrépitos, ruídos suspeitos, e uma perene sensação de ameaça. Abrir uma porta novamente é um momento de suspense, e até mesmo a sombra de seu próprio personagem contra a parede pode ser o suficiente para fazer seu coração disparar. Os encontros com os a família de psicopatas também são notáveis, meticulosamente desenhados para dar mais personalidade aos antagonistas de Ethan.  Os Bakers, visivelmente baseados em outras famílias clássicas de filmes de terror como O Massacre da Serra Elétrica e Quadrilha de Sádicos, são alguns dos melhores vilões que a série já teve - e definitivamente são os melhores desde Sadler e Salazar em RE4.

Na parte gráfica, o game da Capcom entrega resultados satisfatórios em geral, apesar de uma ou outra textura em baixa resolução em alguns momentos em suas versões para PS4 normal e Xbox One (no PC e PS4 Pro o game dá uma melhorada). Mas a iluminação dinâmica dos ambientes cumpre seu serviço com louvor, criando sombras e a atmosfera para criar o grau certo de perigo e deixar o jogador sempre nervoso - afinal de contas, isso sim é Resident Evil.

Eu falei para vocês do som do jogo? Esse sim é o verdadeiro destaque do título, com uma sutileza capaz de deixar os cabelos em pé. Barulhos de passos, trilhas incidentais cuidadosamente inseridas, malditos barulhos de CANOS com problemas. A Capcom teve um cuidado impressionante no design sonoro de RE7, que vai dos trechos de silêncio nervoso que antecedem aquele susto FDP, até as partes onde o bicho pega, como nos momentos em que Jack Baker, o patriarca da família psicopata, persegue Ethan: nestes segmentos, o som é chave para a sobrevivência.

Um pequeno adendo: jogar Resident Evil 7 no Playstation VR - o game pode ser jogado do início ao fim em modo de realidade virtual no headset da Sony - é algo capaz de fazer o jogador se BORRAR NAS CALÇAS. Digo isso com propriedade.

Adeus bonequinhos

Um dos maiores pontos de discórdia entre os fãs ardorosos da franquia foi a decisão da Capcom em mudar a clássica visão em terceira pessoa de praticamente todos os jogos da série para um ponto de vista em primeira pessoa, algo que foi visto como uma clara "chupação" do formato empregado em sucessos recentes do gênero como Outlast e Amnesia: The Dark Descent. Cópia ou não, a publisher tomou a decisão mais acertada possível.

Aliás, ao abandonar o estilo de câmera "over the shoulder" que foi adotada a partir de Resident Evil 4 - e que fez o game parecer um MALDITO GEARS OF WAR no quinto game da série - RE7 se aproxima mais do modelo clássico de visão da série, quando tinha os ângulos estáticos de câmera pelo qual o personagem percorria. Ao limitar sensivelmente o ângulo de visão do jogador - no caso do novo jogo, ele é restrito ao ponto de vista do protagonista - o horror se cria muito mais a partir das coisas que não se podem ver. No RE original, por exemplo, virar um corredor era algo assustador - no novo game, passar ao lado de uma porta e olhar para o lado evoca uma sensação parecida.

Acusar a Capcom de não ser criativa ao "apelar" para a visão em primeira pessoa para o seu novo Resident Evil é fácil. Mas também não é nada difícil admitir que a empresa usou este novo ponto de vista a serviço de uma jogabilidade totalmente clássica. É uma mudança, uma evolução e um resgate da tradição da série, tudo ao mesmo tempo.

Jogabilidade 100% Resident Evil

Se em sua parte temática e visual o novo Resident buscou novos caminhos, no quesito jogabilidade o sétimo capítulo da franquia não poderia ser mais tradicional. Para quem sentia falta dos puzzles e gerenciamento de itens, RE7 resgata estes elementos. Se nos dois últimos títulos das série, armas e munição eram mato (já que até os inimigos soltavam itens), no novo game cada bala conta e às vezes é até preferível nem entrar em combate para economizar balas.

Os quebra-cabeças e itens curiosos como chaves, emblemas e quadros também retornam em grande estilo à franquia. Com isso, o game também perde a vergonha de lançar mão de um recurso pouco usado em games atuais: o backtracking. Em Resident 7, voltar a salas e regiões já exploradas anteriormente para abrir uma porta que antes estava trancada ganha um novo peso, assim como acrescenta um elemento diferente de perigo, já que praticamente nenhum ambiente (mesmo os que você já explorou) são seguros. Enfim, não é nada novo para quem já jogou os RE clássicos do Playstation 1, mas era algo que estava faltando nos games da série há um bom tempo.

Nas sequências de maior ação, as mecânicas de tiro do game são corretas, mas não apresentam nada de novo e apenas cumprem o papel necessário. De qualquer forma, este não se trata de um shooter em primeira pessoa (e também não é um game de ação como RE5, por exemplo), mas nos momentos em que é preciso dar uns tiros, Resident Evil 7 não decepciona, o que ja é ótimo.

Mais do que um retorno à forma

Quando foi anunciado na E3 do ano passado, Resident Evil 7 empolgou muitos na mesma medida em que despertou dúvidas, já que ele prometia um retorno às raízes mas também apresentava mudanças significativas em sua jogabilidade e temática. Mas isso é o que acontece quando se resolve assumir riscos. Todavia, ao ver o resultado final do jogo, as novidades apresentadas no game da Capcom atingem um objetivo certeiro, que é de se assumir como um Resident Evil clássico.

Assim como Resident Evil 2, com sua expansão do universo da série, e RE4, que redefiniu a temática e jogabilidade da franquia (para o bem e o mal) o sétimo game da série adquire um status de respeito, como um divisor de águas. Entretanto, os novos caminhos apontados pelo título são promissores, o que pode atrair novos gamers, fãs fiéis e aqueles que esperavam por um Resident mais "roots". O sétimo capítulo da franquia reúne, em um único pacote, um novo começo e um retorno à forma. Assim como o "Norvana", taí o Resident Evil para unir todas as tribos.

Porque eu demorei para publicar este review? Simples: já joguei este game seis vezes, coletei todos os itens possíveis, terminei a história em todos os níveis de dificuldade e o "platinei". Acho que não tenho outra nota para dar a este game do que NOTA 10.

*A cópia de Resident Evil 7 para Playstation 4 utilizada nesta análise foi gentilmente cedida pela Capcom/Warner Bros Games. O game está disponível para PC, PS4 e Xbox One.

Assine nosso canal e saiba mais sobre tecnologia!
Leia a Seguir

Comentários

Newsletter Canaltech

Receba nossas notícias por e-mail e fique
por dentro do mundo da tecnologia!

Baixe já nosso app Fechar

Novidade

Extensão Canaltech

Agora você pode ficar por dentro de todas as notícias, vídeos e podcasts produzidos pelo Canaltech.

Receba notificações e pesquise em nosso site diretamente de sua barra de ferramentas.

Adicionar ao Chrome