O que empreendedores devem evitar ao captar seu 1º investimento?

Por Colaborador externo | 16.12.2016 às 16:45

A chegada de um novo ano traz consigo a esperança de que tudo será diferente, o desejo de mudar e realizar aquilo, que por algum motivo, ficou para trás. No mundo dos negócios não é, e nem deveria ser de outra maneira, sobretudo quando lembramos que, pelos menos os últimos 18 meses, foram de severa crise econômica no país. É justo e saudável ter ânimo para superar o que não foi bom e correr atrás do prejuízo.

Falando do mundo das startups, ele está em ebulição, justamente porque muitas dessas empresas, recheadas de tecnologias disruptivas, surgem como soluções de diversos problemas comuns em nosso dia a dia. E por oferecerem um modelo de negócio escalável, atraem, por si só, investimentos oriundos de grupos de investidores-anjo ou fundos de capital de risco, criando uma dinâmica inédita no Brasil. Só para se ter uma dimensão, em 2015 os anjos investiram R$ 784 milhões em startups brasileiras, 14% a mais do que no ano anterior. Portanto, se até algum tempo atrás qualquer dinheiro era bom, desde que entrasse no caixa da empresa, essa realidade começa a mudar.

O empreendedor que está buscando investimento para alavancar sua empresa, precisa ter em mente que o investimento em startups é uma via de mão de dupla. Ou seja, não é só o investidor que escolhe a startup; a startup também deve escolher o investidor.

Para o empreendedor que está em fase de captação de investimento, Allan Costa, que vê os negócios das duas perspectivas, uma vez que o executivo é empreendedor, investidor-anjo, mentor de startups e por mais de cinco anos foi diretor superintendente do Sebrae PR, relaciona algumas dicas a respeito do que o empreendedor precisa evitar no momento de buscar recursos:

1. Cuidado com o investidor-renda-fixa

Como a mídia anuncia a toda hora o surgimento de uma startup milionária (se esquecendo que para cada milionária existem dezenas, possivelmente centenas, que morreram sem nunca ter sido), investir em startups se tornou objeto de desejo. Isso atiça a curiosidade de investidores tradicionais, ou aquele investidor que eu chamo de “investidor-renda-fixa”, aquele acostumado com ativos convencionais, como imóveis ou fundos de renda fixa, com retorno altamente previsível. Se esse investidor não se dispôs a entender a dinâmica do mercado de startups antes de entrar nele, isso vai te gerar uma fonte inesgotável de problemas. Basicamente, você vai ganhar um sócio que vai ficar no teu pé o tempo todo querendo saber quando e de que forma o dinheiro dele retorna, afinal, essa é a referência dele. E como sabemos, nessa fase, tudo que você NÃO precisa é de alguém te tirando o foco do negócio. Pense mil vezes antes de aceitar investimento dessa pessoa.

2. Fuja do investidor-tubarão

O investidor-tubarão é aquele ensandecido, cuja frase preferida é algo como “quero 50% do seu negócio”. No mercado de startups isso simplesmente não existe. A lógica é simples: um negócio de alto potencial passa por várias rodadas de investimento ao longo da vida, até se tornar um negócio efetivamente grande. A cada rodada de investimento, tipicamente, os fundadores (e os investidores das rodadas anteriores), são diluídos, ou, em outras palavras, têm reduzida sua participação na empresa para acomodar os novos investidores. Qualquer investidor sério sabe que o que vai fazer o negócio acontecer é o tesão do empreendedor pelo negócio. E, se esse mesmo empreendedor abre mão de 50% da sua empresa logo na primeira rodada, quanto você acha que vai sobrar lá pela terceira ou quarta? E, com um percentual tão pequeno em mãos, que interesse será que vai rolar nesse empresário para fazer desse o negócio da sua vida? Pois é! Só pense em topar algo assim com cláusulas bem amarradas no contrato de não diluição em futuras rodadas. Do contrário, dê adeus ao seu sonho.

3. Desconfie do investidor-estrela

Um dos principais fatores para ter um investidor-anjo – senão o principal – é a mentoria que virá junto com o dinheiro, também chamado de smart money. O investidor, além do recurso financeiro necessário, deverá aportar conhecimento, relacionamento, contatos e experiência, tudo em prol de acelerar o seu crescimento. Mas, como tudo na vida, isso demanda tempo. Ter um investidor famoso, conhecido no mercado, é excelente. Mas antes de aceitar, assegure-se de negociar com clareza quais as expectativas em termos de disponibilidade e possibilidades de interação para ter certeza de que esse investidor vai ter tempo pra você.

4. Mantenha distância do investidor-vovó-querida

Todo mundo conhece aquela vovó querida: ela acha tudo lindo, elogia qualquer coisa que o netinho lindo faça, mesmo que seja uma bobagem sem nexo. Acredite, você não precisa de gente pra te elogiar. Para isso você já tem sua mãe, sua namorada, seu namorado, e até mesmo sua vovózinha. O que você precisa é de crítica, pancada, aperto. Claro que sempre de forma construtiva, mas é esse tipo de atitude que você deve esperar – e cobrar – do seu investidor-anjo.

5. Corra do Dumb Money

Já falamos sobre o smart money. Esse é o principal aporte de um investidor-anjo. E aí, antes de escolher quem vai investir na sua startup, faça a si mesmo algumas perguntas: qual a experiência prévia desse investidor? Em que startups ele já investiu ou quais startups ele já construiu? Quais seus casos de sucesso? Quais as conexões que ele tem que fazem sentido para o meu negócio? Se você não encontrar nas respostas a essas perguntas pontos claros de conexão, você pode estar recebendo o dinheiro mais estúpido da sua vida, o que vai fazer você desperdiçar uma excelente chance de agregar ativos intangíveis determinantes para o sucesso da sua empresa.

6. Evite ser o NDA-freak

Acontece toda hora: o empreendedor precisa do recurso, tem um projeto bacana, mas antes de qualquer coisa, quer falar sobre os termos de confidencialidade do negócio. Se esse for o seu caso, repense sua atitude. Primeiro, é muito pouco provável que você seja tão estupendamente genial a ponto de ter tido a melhor ideia do planeta, aquela que ninguém nunca teve, e que vai mudar o curso da humanidade. Segundo, o que vai tornar seu negócio algo de valor é sua capacidade de transformar a startup em algo real e que cresce – o popular “fazer acontecer”. Portanto, essa sua ideia genial, acredite, não vale absolutamente nada. Invista o tempo que você gastaria pensando no seu “NDA” em criar uma bela estratégia de dominação do mercado e em traduzir essa estratégia em um pitch atrativo e inteligente.

7. Contenha sua egotrip

Como investir em startup está na moda, vejo todo dia empreendedores e empreendedoras sonhando em ter uma startup pra chamar de sua, tomando essa decisão pela razão errada. Se você está entrando nessa pensando no glamour, na capa de revista, na matéria do portal da Internet e no tapete vermelho das premiações, esqueça o investimento-anjo. Investidor tem faro pra esse tipo de coisa, e foge disso como o diabo foge da cruz. Mais uma vez, um dos fatores determinantes para tornar sua empresa um sucesso é o tempo que você dedica a ela. E de onde você vai tirar esse tempo se viver enfiado em eventos, palestras, premiações e coisas do gênero? Empreender é ralação. Empreenda com essa consciência, ou, talvez, seja hora de rever suas escolhas.