Como preservar o desempenho das empresas em meio ao coronavírus?

Por Ricardo Corrêa | 23 de Março de 2020 às 08h30
Unsplash

Com tanta informação disponível diariamente sobre o novo coronavírus (COVID-19), um tema pouco abordado até o momento fica para o desempenho das empresas neste período de resguardo pela saúde das pessoas. A ideia não é trazer verdades absolutas, mas expor algumas medidas que considero interessantes de serem aplicadas no contexto atual.


Elas começaram na Ramper nesta semana e acredito que podem ser úteis para outros líderes de startups. Parto do princípio que nem todos tiveram tempo de pensar com profundidade sobre o assunto por conta da quantidade de demandas do dia a dia. Por isso, compartilho abaixo algumas observações. Confira:

Acompanhamento do trabalho remoto

Uma medida que tomamos na Ramper foi criar uma cadência de acompanhamento diário com cada um dos departamentos. O propósito desse compromisso não é monitorar o trabalho das pessoas - isso também se faz necessário, principalmente se a equipe ainda não têm o hábito de fazer home office e/ou não se dá muito bem com isso. A ação serve principalmente para garantir que os colaboradores tenham todas as informações necessárias para trabalhar, checar se os obstáculos são compreendidos e endereçados pelos líderes, além de verificar se os resultados estão sendo atingidos - e caso contrário verificar porque não estão.

Elabore planos de ação para cenários diferentes

É fato que o mercado não vai se comportar da maneira habitual durante as próximas semanas e é responsabilidade dos líderes levar isso em consideração. Existem serviços que são primariamente impactados e, se a sua empresa atua com eles ou fornece para quem atua, já deve estar sentido os efeitos. Mesmo empresas que estão um pouco mais distantes dessa realidade devem estar preparadas, já que novas camadas da economia vão sendo afetadas aos poucos - o chamado efeito cascata.

Obviamente é quase impossível traçar cenários precisos em um momento de tanta incerteza. Ainda assim, é válido as empresas pensarem nas seguintes implicações:

  • Otimista: o que acontece se a empresa conseguir manter um ritmo “normal” de operação e crescimento - quais oportunidades podem ser exploradas?
  • Realista: quais são as implicações se as vendas tiverem uma leve desaceleração e alguns clientes atrasam - a empresa tem caixa pra isso?
  • Pessimista: quais são os impactos se as vendas e entradas de receita caírem de forma mais acentuada - quais as medidas para atravessar o período e qual será o plano de retomada?
  • Catastrófico: o que acontece caso a empresa tenha uma queda significativa de faturamento e/ou precise ficar um período sem operar - o que ela fará para preservar sua existência?

Monitoramento das operações de missão crítica

Considero muito importante também que a empresa viva um dia de cada vez. Isso significa acompanhar, em uma base diária, como estão se comportando os principais vetores da empresa como novas vendas, cancelamentos, movimentações de caixa, índice de inadimplência, entre outros indicadores. Além de monitorar diariamente esses vetores e discuti-los com as respectivas áreas para que a tomada de ação seja rápida. É importante também triangular essas informações com todas as áreas envolvidas para que estejam sincronizados e cientes da realidade um do outro. Por fim, a cada nova posição diária, vale revisitar os cenários para identificar a direção que a empresa está apontando.

Diligência com o uso do caixa da empresa

Acredito que os líderes pretendem preservar as pessoas do time, os prestadores de serviços, fornecedores atuais, enfim, todos aqueles que formam o corpo da empresa. Para isso, é fundamental fazer investimentos de forma responsável e inteligente, acompanhando o caixa diariamente. Nessa mesma linha, é preciso muito cuidado com as movimentações ligadas às pessoas - parte que considero mais sensível. De modo geral, é preferível adiar novas contratações e promoções para que não seja necessário tomar nenhuma medida drástica posteriormente, como a redução do quadro de funcionários.

Ainda que seja possível operar dentro de um cenário “não tão ruim”, possivelmente será necessário fazer uso de reservas de caixa e/ou acessar linhas de crédito. Vale estar atento a incentivos que podem ser liberados por entidades governamentais ou bancos. O momento pede empatia: procure entender e preservar a sua equipe. Flexibilize condições de pagamento para clientes que precisam de auxílio para pagar. Pense duas vezes antes de cancelar um fornecedor.

Transparência e comunicação em excesso com a equipe

Além de coletar diariamente as informações com cada um dos times e permear essas informações entre as áreas, é papel do líder garantir que tudo está claro para todos. Independente da escala do desafio que cada um está enfrentando, é preciso que haja um plano de ação elaborado, tanto em conjunto entre as lideranças da empresa, mas que também leve em consideração as opiniões e percepções das pessoas que estão nas pontas. E, principalmente, que seja atualizado na medida que o cenário muda/evolui.

A transparência deve ir além de as pessoas do time sentirem-se à vontade para trazer notícias não tão boas como, por exemplo, a de que uma venda que já estava fechada e foi postergada, mas principalmente as pessoas estarem conscientes dos eventuais riscos que estão envolvidos. A cadência de comunicação diária - eventualmente, até mais de uma vez por dia - pode parecer exagerada, mas é o excesso de comunicação que vai garantir que a confiança seja estabelecida e mantida durante os altos e baixos. Não vejo outra forma de manter as pessoas comprometidas com o momento e, inclusive, preparadas para medidas que possivelmente precisem ser tomadas.

Nesse momento, o que está em jogo não é uma meta de vendas ou de resultados, mas a preservação da empresa com os talentos que ela possui e outros ativos que foram construídos até aqui.

Posicionamentos junto ao clientes/consumidores

Falamos bastante sobre as medidas que podem ser tomadas “da porta para dentro” pelos líderes. É fundamental também implantar medidas “da porta para fora”. Isso inclui trabalhar o posicionamento da empresa e as mensagens que chegarão aos clientes e consumidores. Obviamente é recomendado não transmitir mensagens de desespero, assim como ter o cuidado de não parecer uma empresa oportunista que espera se aproveitar do cenário de caos para vender. O ideal é sempre se posicionar como uma solução que ajuda seus clientes a reduzir custos, riscos, ou até mesmo a aumentar o faturamento.

Sabemos que será difícil atravessar esse período de instabilidade e sair do outro lado como uma empresa maior do que entramos. Porém, se houver dedicação, certamente a empresa sairá melhor e mais fortalecida do que antes.

* Ricardo Corrêa é um profissional de marketing com mais de 14 anos de experiência de mercado. Atualmente é sócio-fundador e CEO da Ramper, startup criadora da principal plataforma de prospecção digital de vendas do Brasil.

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