Aplicativos de transporte privado vão superar os táxis?

Por Douglas Ciriaco | 27.01.2016 às 12:20

O Uber é, provavelmente, a startup mais polêmica da atualidade, fazendo barulho e causando reações adversas por onde passa. O serviço de transporte privado oferece uma alternativa aos táxis convencionais, garantindo corridas mais baratas e um ambiente muitas vezes mais agradável ao passageiro, com água, balinhas, ar-condicionado, entre outros agrados.

Se para quem embarca no possante não há do que reclamar, para quem dirige talvez a opção não seja tão melhor do que o trabalho em um táxi tradicional. Precarização do trabalho e além a ilusão de transformar o motorista em seu próprio patrão quando, na verdade, ele continua com metas a cumprir para continuar sendo um “parceiro” do Uber são algumas das acusações que pesam contra a plataforma.

Mas é fato que, assim como o compartilhamento ilegal de arquivos pela internet pegou muita gente de surpresa na virada dos anos 2000, os serviços que concorrem com os modelos tradicionais de táxi estão aí e dificilmente deixarão de existir. Então, a pergunta que fica é: eles terão gás o suficiente para causar a derrocada dos táxis como a gente conhece? A resposta é: talvez.

O caso de San Francisco

Uma das principais empresas de táxi nos Estados Unidos é a Yellow Cab. A companhia tem sedes independentes entre si em várias cidades do país norte-americano, mas vem enfrentando alguns problemas financeiros nos últimos tempos. Pessoas que se acidentaram em um carro da companhia entraram com processos na justiça e conseguiram indenizações milionárias, obrigando a Yellow Cab de San Francisco a abrir pedido de falência no último dia 22 de janeiro.

Apesar de alegar que não pretende fechar, a companhia que opera com mais de 500 táxis apenas nesta cidade estadunidense garante que o pedido vai permitir uma reestruturação para colocar as contas em dia após ser obrigada a indenizar um cliente em US$ 8 milhões. Some-se a isso a ofensiva de serviços como Uber e Lyft (outro que oferece transporte privado) e o rombo no caixa não deve ser nada pequeno.

Polêmicas atrás de polêmicas

Sem citar casos em cidades europeias, a presença do Uber no Brasil vem causando inúmeras polêmicas. Enquanto os taxistas defendem que a companhia deva ser proibida, afinal viola leis de transporte, a própria Uber garante que não é um táxi e busca a sua regulamentação.

Taxistas também defendem que a Uber estaria tirando o sustento de milhares de pais e mães de família que adquirem um táxi (ou muitas vezes são funcionários de quem é dono de uma licença de táxi), o que também pode ser verdade. O fato é que o Uber tende ao monopólio — já é conhecida a prática da companhia de diminuir a sua margem de lucro ao chegar em uma cidade e, aos poucos, conforme vai aumentando a sua presença na região, os preços são “normalizados” —, o que deveria nos deixar de olhos abertos também em relação a ela.

Mas é inegável também que o Uber (e os demais aplicativos e grupos de carona gratuita que povoam a internet brasileira) acabam sendo uma opção financeiramente muito mais viável para os passageiros. Um exemplo: uma corrida do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, até o centro da cidade pode custar quase R$ 50 quando feita de táxi; de Uber, o mesmo trajeto pode ser feito por menos de R$ 30, dependendo do horário em que isso é feito.

Então, é preciso analisar se o preço mais justo está colaborando para um ecossistema saudável ou se está apenas intensificando a precarização do trabalhador — se o taxista que não é dono da sua licença é explorado pelo dono do carro, o motorista “parceiro” da Uber não está muito longe disso (e para o argumento do “só trabalha quem quer”, bem, de alguma forma é preciso pagar as contas).

Repensando o futuro

A questão é que, táxi ou Uber, o ideal seria chegar a um ambiente mais equilibrado no qual as várias opções pudessem coexistir sem que o trabalhador ficasse desprotegido. O Uber precisa ser regulamentado para não criar um abismo monopolista, mas as companhias de táxi e as prefeituras do Brasil precisam se organizar a fim de pensar em métodos alternativos para tornar o seu negócio também mais interessante para os clientes.

A estrutura rígida dos táxis no Brasil já causou inúmeros problemas. As recentes ampliações devido a eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas trouxeram um alento, mas ainda não foram o suficiente. A popularização dos aplicativos de táxi também garante um alívio para o cliente, que tem uma ferramenta mais prática em suas mãos, e para o motorista, que fortalece a sua autonomia e diminui a dependência dos radiotáxis.

Mas o sucesso do Uber não vai passar despercebido pelo mercado. Diante de um contexto legal, com a empresa sendo reconhecida e amparada pela lei, com uma regulamentação que garanta direitos aos seus trabalhadores, é muito provável que outros concorrentes apareçam por aqui. Afirmar que os táxis vão acabar um dia é algo alarmante e sem sentido, obviamente, mas a popularização de alternativas pode, sim, causar mudanças profundas neste tipo de negócio. O foco, então, deveria ser a mudança que equilibre benefícios entre trabalhadores e clientes — enfim, um panorama em que todos saiam ganhando.