Airbus fala sobre os desafios de inovar em indústria regulamentada

Por Rafael Romer | 13 de Março de 2014 às 17h12

Apesar de ser uma das principais características que acompanham a inovação tecnológica, a agilidade não é uma realidade para todas as indústrias. Enquanto setores como dispositivos domésticos, móveis e até software vivem em uma onda constante de mudança, outros pesadamente regulamentados vivem em um ambiente bem diferente.

Completando 100 anos de existência em 2014 e com a escala e importância que tem para o mundo moderno, a aviação comercial é uma dessas indústrias nas quais qualquer acontecimento que fuja do padrão gera grande um impacto. É só olhar para o noticiário recente para entender o barulho que o incidente com o voo MH370, da Malaysia Airlines, pode causar.

Mas isso não significa que a inovação está congelada nesse setor, e milhões são investidos todos os anos em iniciativas para agregar novas ideias e tecnologias à indústria. "Não há dúvidas que a aviação é uma idústria especial, é como um clube, entre as montadoras, as operadoras, os fornecedores, são pessoas muito especializadas", afirmou o Inovador Corporativo da Airbus, Gary Wicks, em entrevista ao Canaltech. "E isso cria um sentimento de exclusão, então nós queremos incentivar mais pessoas a interagir e contribuir".

Exemplo disso é o concurso Fly Your Ideas (FLY), realizado pela gigante francesa Airbus, que mostra seus resultados nesta semana em São Paulo. A cada dois anos, a empresa recebe aplicações de grupos de universitários de todo o mundo e todas as áreas possíveis com ideias de como inovar no setor e resolver alguns dos problemas enfrentados pela aviação atualmente.

Na edição de 2013, que teve mais de 600 equipes participantes, foi a solução da equipe brasileira Levar, formada por Marcos Philipson, Leonardo Akamatsu, Adriano Furtado e Caio Reis, estudantes de Design da USP, e Henrique Corazza, aluno da Loughborough University, no Reino Unido, que conquistou o prêmio de € 30 mil (cerca de R$ 98 mil) dado pela Airbus. Concorrendo na final contra quatro outras equipes de estudantes de engenharia da Austrália, Índia, China e Itália, os estudantes de design da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um novo método para melhorar as condições de trabalho para funcionários que lidam com carregamento de bagagens. Inspirada no sistema de suspensão com ar utilizado em hóquei de mesa, a equipe desenvolveu um dispositivo capaz de facilitar o transporte e armazenamento de cargas dentro de aeronaves utilizando estofamentos de ar.

Airbus

Executivos Gregor Dirks (esq.) e Gary Wicks participaram de workshop com alunos da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) nesta semana (foto: Divulgação)

O concurso da empresa faz parte de uma série de iniciativas que têm como objetivo fomentar a inovação em um ambiente fortemente regulamentado, no qual novas ideias não costumam ser aproveitadas de forma rápida. "Por definição a aviação tem que ser altamente organizada. Nós desenvolvemos um sistema estruturado que atua de maneira confiável e independente. Sem isso nós não teríamos uma indústria", explica Wicks. "Mas sempre onde você tem ordem, há uma barreira para a inovação".

De acordo com o executivo, um "ciclo" da aviação costuma levar 30 anos. Ou seja, após longos períodos de pesquisa, protótipo e regulamentação, que podem durar até dez anos, expectativa é que um novo modelo de avião fique em funcionamento pelas próximas três décadas. E cada modelo novo pode ser produzido por outros 30 anos, o que significa que determinado avião pode ficar por 60 anos sem modificações de design. Só para ter uma ideia, a definição mais ampla para uma "geração" de humanos é de 20 anos.

Nessa realidade, cenários de beta testing, por exemplo, são impossíveis de se aplicar e cada inovação exige um grande investimento e esforço até beneficiar os usuários finais.

Isso traz ainda uma outra dificuldade à indústria: ideias vindas de fora, através de uma startup, por exemplo, não sobrevivem ao extenso processo legal exigido antes de serem integradas a uma companhia. Como explica Gregor Dirks, também em visita ao Brasil para o evento, a Airbus muitas vezes é obrigada suportar financeiramente uma startup por anos até toda a parte jurídica para integrar uma inovação da empresa ter sido completada, já que nesse meio tempo a empresa responsável pela ideia não teria como se sustentar sozinha. "Os processos são tão grandes que temos que tomar medidas para evitar que a startup desapareça antes que possamos nos beneficiar disso", conta.

Essa característica da indústria se mostra até na própria iniciativa Fly Your Ideas. Na sua terceira edição, até agora a premiação ainda não gerou nenhum uso concreto das tecnologias desenvolvidas para o curso dentro da Airbus. "Os projetos podem não se tornar um negócio em seguida, mas podem influenciar outra ideia", explica Dirks. "Mas eu diria que em termos de se beneficiar dessas ideias, pelo menos um terço ou mais dos projetos influenciou o jeito como fazemos as coisas".

Futuro da aviação

Apesar de parecer um ambiente complicado demais para se inovar, a aviação, por outro lado, busca ativamente novas tecnologias que possam desenvolver a indústria ativamente. Questionado sobre qual o principal problema que enfrentam atualmente, Wicks não hesita na resposta: combustível e energia. "Se energia fosse significantemente mais barata do que é hoje, nós veríamos uma explosão de novos modelos e configurações de aeronaves", afirma. "Hoje estamos presos a certo estilo de produto por causa da relação entre peso e preço do combustível".

De acordo com o executivo, descobrir uma maneira mais eficiente e barata de se utilizar energia seria hoje o mundo ideal para a aviação, que sofre ano após ano com o aumento de preços de combustíveis como o querosene. Neste ano, o segundo lugar da premiação Fly Your Ideas foi para a equipe de engenheiros CLiMA, do Royal Melbourne Institute of Technology, da Austrália, que propôs o desenvolvimento de uma aeronave movida por uma mistura de biometano liquefeito produzido de forma sustentável e gás natural liquefeito.

Em segundo lugar, os executivos colocam novas maneiras de diferenciar seus serviços e produtos para o consumidor. De acordo com Wicks, consumidores atuais estão acostumados com a inovação rápida e frequente, e demandam cada vez mais diferenciação de serviço entre diferentes companhias aéreas. Isso se reflete diretamente no design de aeronaves e componentes internos. "Essas ideias de escolha e flexibilidade são um objetivo chave para a indústria", diz.

Para isso, a companhia tem investido em iniciativas não só como a Fly Your Ideas, mas também com programas menores com startups e em fundos de investimento para acelerar processos dentro da Airbus. "Estamos em uma situação que um aparelho móvel se torna obsoleto antes mesmo de conseguirmos a certificação para utilizá-lo a bordo", brinca. "Nós temos que descobrir um modo de 'casar' os dois mundos".

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