Em meio a acirramento do mercado de streaming, Spotify completa um ano no Brasil

Por Rafael Romer | 27.05.2015 às 19:11

O maior serviço de streaming do mundo, o Spotify, passa por um momento bem agitado: na última quarta-feira (20), a plataforma anunciou oficialmente a sua esperada entrada no mercado de streaming de vídeo, através de uma ferramenta que disponibilizará conteúdo exclusivo para usuários junto com música, notícias e podcasts. Além disso, o serviço foi o centro das atenções há algumas semanas enquanto rumores correram pela internet afirmando que o Spotify poderia cancelar sua versão gratuita por pressão de gravadoras.

Em meio a tudo isso, o serviço completa um ano de presença oficial no Brasil nesta quinta-feira (28), com otimismo de que o crescimento deva continuar no país. A empresa não compartilha números de mercado ou número total de usuários no Brasil, mas afirma que só nos últimos doze meses saltou da inexistência no país para a liderança dentro do setor de streaming. No total, os brasileiros ouviram 200 milhões de horas de música na plataforma — cerca de 104 minutos por dia.

Quando o serviço desembarcou por aqui, o discurso não era de enfrentar outros concorrentes dentro do setor de streaming, mas o de enfrentar a pirataria. Com seu modelo gratuito, o Spotify esperava fornecer um alternativa mais fácil ao consumidor do que o download ilegal de músicas. A expectativa, então, é que depois de algum tempo no modelo gratuito, ele iria evoluir para um usuário pagante, já que o Spotify disponibiliza suas músicas offline, sem publicidade e em melhor qualidade para quem assiná-lo.

Mas hoje, o serviço enfrenta outros desafios além da pirataria: o Spotify continua crescendo, mas enfrenta novos players que não existiam há um ano e agora prometem agitar o mercado de streaming. O primeiro deles é o Tidal, serviço de streaming lançado no final de março e controlado pelo rapper norte-americano Jay-Z, que promete pagar até o dobro de royalties para artistas do que o Spotify paga hoje por uma qualidade superior de streaming. No mês que vem, a expectativa é que a Apple também lance seu Beats durante a conferência WWDC 2015, um serviço que deverá concorrer com a oferta gratuita do Spotify.

"Quando a gente tem modelos legais em um mercado em que só a gente existia, fatalmente esse mercado cresce muito. Isso beneficia ao usuário final, que vai poder fazer a escolha do que mais serve a sua necessidade", opina o Diretor Geral do Spotify para América Latina, Gustavo Diament, em entrevista ao Canaltech. "A gente trabalha para continuar sendo líder independente da chegada do Tidal ou da Apple, a gente vai continuar inovando e buscando estar além do que o usuário diz que quer".

Ainda é cedo para dizer qual será o verdadeiro impacto desses concorrentes no mercado e se eles devem diminuir a participação do Spotify no total — já que hoje, o serviço tem sozinho 49% de market share global de streaming de música. Mas alguns sinais de que a briga não será fácil já surgiram. Neste mês, surgiram até rumores de que o Departamento de Justiça norte-americano estaria investigando a Apple por estar fazendo acordos com gravadoras para que pressionassem pelo fim do modelo gratuito do Spotify. Supostamente, a companhia desejava alavancar seu próprio serviço gratuito de música tirando um dos principais concorrentes da equação.

Se a batalha com a Apple for confirmada ou não, alguns representantes de gravadoras já apontaram nesse sentido: em março, a revista especializada em música Rolling Stone conversou com fontes ligadas a gravadoras que mostraram interesse para que o Spotify acabasse com o modelo gratuito de seu serviço, como forma de aumentar o faturamento com mais assinantes pagos. O Spotify, no entanto, negou que fosse acabar com o modelo freemium, que continuará sendo centro da estratégia do negócio.

Gustavo Diament Spotify

O diretor geral do Spotify para a América Latina, Gustavo Diament (foto: divulgação)

O executivo cita o próprio caso da briga entre o serviço com a artista Taylor Swift no ano passado como exemplo de que a versão gratuita continuará existindo. Na época, a cantora afirmou que queria tirar seu catálogo da versão gratuita do serviço e disponibilizá-lo apenas para assinantes pagos. O Spotify negou o acordo, o que acabou na retirada da obra total de Swift do serviço.

"Se fizermos isso, vamos lutar contra a Internet. E a indústria da música já lutou contra a Internet em 1999 e perdeu", afirmou, em referência ao ano de lançamento do serviço de download de músicas Napster. "O que a gente precisa é abraçar a Internet e legalizar as formas de acesso, mas lutar contra a tecnologia não dá".

No final, Taylor Swift acabou alegando que recebia poucos royalties por sua obra no Spotify e por isso estaria desistindo do serviço. Mas neste mês, o vazamento das informações de um contrato de 2011 entre o Spotify e a Sony Music mostrou que as polêmicas sobre o suposto baixo pagamento de royalties à artista não recaía nas costas do serviço de streaming, mas na própria gravadora: a Sony então recebia 80% de todo o faturamento obtido pelo Spotify com as canções de seus artistas assinados, e ela própria escolhia como repassar o dinheiro para os artistas.

"As gravadoras entendem a importância do Spotify e o que ele gera de royalties para elas e para a indústria toda — ano passado foram US$ 2 bilhões", disse o executivo. Ainda assim, hoje o Spotify ainda mantém um time dedicado exclusivamente ao relacionamento com artistas e gravadoras para fazer uma "evangelização" do modelo de streaming e a sua importância para o mercado. "A gente já abriu a casa e mostrou como se paga com total transparência até chegar à gravadora. Se não tem essa transparência entre gravadoras e artistas, a gente, como líder, faz um trabalho para gerar essa transparência também para que vá até o artista".

Mas independente dos rumores que circularam a plataforma, o fato é que o modelo de negócio do Spotify exige escalabilidade. Hoje, só cerca de 25% dos seus usuários globais pagam por assinaturas — não há detalhes sobre qual a porcentagem exata no Brasil, mas o diretor do serviço afirma que o país "está caminhando" para esse mesmo valor global. E é claro, para aumentar a rentabilidade, é necessário aumentar essa fatia do bolo.

Parte da estratégia do site para isso está no anúncio da semana passada sobre a integração de vídeo na plataforma. Segundo Diemente, os vídeos, podcasts e notícias não serão uma estratégia nova do Spotify, mas devem servir como reforço para o consumo de música dentro do serviço. A ideia é: quanto maior a oferta de conteúdo, mas tempo usuários vão passar ouvindo música no Spotify.

"A gente entende que alguns conteúdos não-musicais, como vídeo e podcast, dentro da nossa plataforma reforçam a experiência do usuário para que ele fique mais, venha mais através desses conteúdos âncora, e ouça mais música", explica o diretor. "Tudo que a gente faz é para aumentar o tempo que as pessoas passam dentro da plataforma e escutem ainda mais música do que elas já escutam".

O Spotify ainda não revela a data que o serviço deverá chegar no Brasil, mas o país estará no grupo dos próximos vinte países que receberão a novidade. Por aqui, o Spotify também deverá fechar parcerias para conteúdo exclusivo local. Por enquanto, a plataforma de vídeos só está disponível nos Estados Unidos, Alemanha, Suécia e Reino Unido.

Apesar do Spotify já estar na liderança do mercado nacional, Diement defende que a música digital no Brasil ainda está dando "os primeiros passos", ainda que o streaming de música já represente 51% do consumo de música total por aqui — já que o número inclui o YouTube. Os investimentos devem continuar no país e a empresa busca expandir sua equipe.

"A gente teve um crescimento exponencial nesses últimos doze meses e não espera nada menos do que isso nos próximos doze, um crescimento bastante agressivo", disse o executivo. "Para isso a gente vai continuar investindo fortemente no Brasil, na forma de investimento em dinheiro e pessoas".