Volkswagen não é a única a fraudar testes, sugerem especialistas

Por Redação | 30 de Setembro de 2015 às 13h10

A Volkswagen foi pega de calças curtas ao ser flagrada por autoridades dos Estados Unidos burlando testes de emissão de gases de veículos a diesel. O que começou com uma “pequena” descoberta de quase 500 veículos fraudados rodando pelo país norte-americano e poluindo mais do que deveriam tornou-se um verdadeiro caos.

A fabricante alemã, uma das mais conhecidas e até então respeitadas em todo o mundo, admitiu a fraude e anunciou recall para nada menos do que 11 milhões de veículos em todo o mundo. Para isso, a empresa anunciou uma reserva de 6,5 bilhões de euros (quase R$ 30 bilhões), quase a metade do lucro global previsto para 2015.

Além disso, multas e processos criminais nos Estados Unidos, onde foi descoberta a fraude, e também em outras partes do mundo não são descartadas. Ou seja: a Volkswagen assumiu o risco ao implementar uma fraude e agora vai ter que abrir o bolso para amenizar o problema.

Mas será que esse é um fato isolado dentro da indústria automobilística? Especialistas acreditam que não. E não é só isso: alguns apontam, inclusive, que o cenário deve piorar nos próximos anos, com o avanço da tecnologia e a cada vez maior presença de softwares inteligentes fazendo parte dos veículos.

Jogar limpo versus faturar mais

As fabricantes de veículos normalmente se empenham em faturar mais e gastar menos. Então, em um momento do mundo no qual as preocupações ambientas são cada vez maiores, ou ao menos deveriam ser, tais empresas se encontram diante do dilema: reduzir sua margem de lucro investindo mais na chamada “tecnologia verde” ou fraudar testes para parecer amiga do meio ambiente?

“A maioria das unidades de controle de motor tem hardware e software empregados para burlar ou alterar as estratégias regulatórias”, afirma a engenheira mecânica da Universidade de Michigan, nos EUA, Anna Stefanopoulou. "É uma questão de decidir entre trapacear em vez de jogar limpo e isso tem acontecido em todos os setores automobilísticos", crava a especialista.

Suspeita de prática comum no setor

Gerd Lottsiepen, porta-voz da ONG Clube do Transporte (VCD), empenhada na luta por uma mobilidade urbana que seja social e ambientalmente responsável, também acredita que a prática fraudulenta não seja exclusividade da Volkswagen.

"Quando os engenheiros falam de forma informal, muitas vezes você ouve frases como 'bem, como todo mundo faz, temos que fazer também'", declarou o ativista em entrevista à DW. "É um segredo de polichinelo que esse software é usado para detectar a vistoria", continua.

Volkswagen

Fabricante alemã anuncia recall de 11 milhões de veículos para corrigir fraude. (Foto: Gene J. Puskar/AP)

Na mesma entrevista, Lottsiepen comenta que são antigas as suspeitas em torno do uso de um software capaz de burlar os testes de emissão de gases. Além disso, ele afirma que a descoberta das autoridades dos Estados Unidos é apenas a ponta do iceberg e pode levar a investigações envolvendo outros tipos de fraudes cometidas pelas fabricantes de veículos.

"Suspeitamos que outras fabricantes também dispõem dessas possibilidades técnicas e as utilizam há vários anos”, comenta. “O que também chama a atenção é o consumo de combustível especificado pelos fabricantes. A diferença entre o valor no papel e na realidade das ruas é cada vez maior. Esse é um indício de que diferentes métodos são usados ​​para burlar a vistoria", sugere o ativista.

Além disso, ele conta que o preço elevado dos testes dificulta que ONGs e grupos de ativistas consigam elaborar provas seguras dessas fraudes. Contudo, o envolvimento das autoridades pode facilitar.

"Para termos a prova, temos que realizar testes adicionais. Nós fizemos alguns testes, em cooperação com a Deutsche Umwelthilfe [ONG ambientalista], mas eles são muito caros", conta o porta-voz da VCD. "E, para termos uma prova segura, precisamos de uma série de medições mais amplas. Isso foi feito nos EUA e o que era suspeita virou prova", comenta.

A tendência é piorar

Se o quadro atual não é animador e as suspeitas começam a se derramar sobre todo um setor, a perspectiva para o futuro parece ser um tanto quanto pessimista — e a responsável por isso seria justamente a tecnologia avançada (ou, para ser justo, a aplicação dela).

Isso porque o avanço de softwares e hardwares inteligentes pode permitir que as empresas se tornem ainda mais precisas na hora de burlar os testes ambientais realizados pelas autoridades. No caso da Volkswagen, um software instalado nos veículos a diesel era capaz de alterar o nível de emissão de gases quando o carro era submetido a um teste.

E ele fazia isso de forma simples. Basicamente identificando quando o veículo está sendo testado — neste caso, as rodas se movem, mas o volante, não. Este padrão de comportamento da unidade “desperta” o software, que então alterava a emissão de gases a fim de passar nos testes.

Quando o veículo estava na rua, já em posse do motorista, o carro voltava ao normal a fim de melhorar a relação de consumo entre litro de combustível e quilômetro rodado. Assim, os mais pessimistas (ou realistas, talvez?) imaginam um cenário em que o avanço dos dispositivos inteligentes dificulte ainda mais o trabalho das autoridades.

“Um exemplo: e se os armazéns robóticos da Amazon pudessem se reorganizarem a fim de se adequarem aos requerimentos dos códigos de anti-incêndio sempre que notarem a presença de um inspetor?”, questiona Ryan Calo, um advogado especialista em cibernética da Universidade de Washington, em entrevista ao Fusion.

Mais áreas de risco

A reflexão de Calo se estende não somente ao mundo da indústria automobilística, mas também a outros setores de negócios, como a saúde, radares de velocidade, máquinas de vendas e até mesmo urnas eletrônicas. O uso de máquinas inteligentes para identificar padrões de comportamento e, diante disso, alterar funções de um sistema pode ser tornar algo ainda mais comum.

“Como todos os dias os objetos se tornam mais inteligentes e conectados, nós precisaremos nos preocupar com transgressões a lei cada vez mais evidentes”, sugere Calo. “Eventualmente, nos preocuparemos com comportamentos emergentes que violam a lei inclusive sem a intenção de um engenheiro de software”, pondera.

Enfim, além da preocupação “básica” de que a inteligência artificial poderia um dia significar a perdição da humanidade, há ainda a preocupação com este tipo de tecnologia sendo usado para burlar testes e regulamentações criados para proteger o meio ambiente e as pessoas. O jeito é ficar atento aos próximos passos desta história.

Fontes: Fusion, DW, Revista Auto Esporte

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