Startup brasileira cria dispositivo capaz de prever convulsões

Por Andressa Neves | 14 de Maio de 2016 às 18h31

A epilepsia é uma doença que causa alterações súbitas e recorrentes na atividade elétrica do cérebro. Durante as crises epiléticas, os neurônios são disparados de forma incontrolável, acarretando em mudanças de movimento, pensamento, percepção e comportamento. A doença acomete cerca de 80 milhões de pessoas em todo o mundo, tendo maior incidência em países em desenvolvimento.

O tratamento da doença ainda é feito a partir do uso de medicações, que evitam as descargas elétricas cerebrais anormais. Apesar disso, a maior preocupação dos pesquisadores e especialistas no assunto tem sido encontrar formas de prever as crises, na tentativa de melhorar a vida desses pacientes, que muitas vezes sem veem limitados em suas atividades diárias por conta do impacto psicológico e social que a doença ainda apresenta.

Na busca de desenvolver métodos para prevenir as convulsões, diversas pesquisas têm apostado no uso da tecnologia como aliada. Essa é a ideia de uma startup brasileira fundada pela Profª. Hilda Cerdeira e pela Dra. Paula Gomez, com quem conversamos.

A Epistemic surgiu a partir de pesquisa realizada por Hilda Cerdeira, física que sempre trabalhou com análise de sinais e com a teoria do caos. Há cerca de cinco anos, durante uma palestra dada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, foi sugerido que ela estudasse os sinais de eletroencefalograma, os quais possuem natureza caótica. A partir disso, "ela conseguiu encontrar primeiramente os surtos (encontrar automaticamente, ou seja, com a interpretação de uma máquina, pelo traçado do EEG) e em seguida conseguiu encontrar padrões antes do surto (estes não são visíveis a olho nu por serem extremamente rápidos)", segundo Paula Gomez, CEO da companhia.

Como a Epistemic trabalha

A Epistemic tem como princípio básico prever as crises epiléticas que se aproximam, visando a melhora da qualidade de vida das pessoas acometidas pela doença. O objetivo é que, sabendo de antemão que um ataque está próximo, os pacientes possam se preparar para diminuir os efeitos da crise.

Para isso, foi desenvolvido um dispositivo que funciona a partir de dois detectores não-invasivos que ficam localizados discretamente na cabeça do usuário. Esses detectores enviam sinais constantes para o dispositivo, que analisa possíveis ocorrências de ataques em curto prazo. Caso o sistema identifique a aproximação da convulsão, automaticamente o dispositivo envia um alerta para o paciente e para um cuidador.

Epistemic

Apesar de ainda não estar disponível no mercado, a CEO afirma que já se tem "uma metodologia e um software prontos e funcionando. Eles detectam num sinal de EEG um surto com uma média de 25 minutos de antecedência. Hoje funciona em computador. Estamos construindo o hardware. Pra isso é necessário testar vários eletrodos simples para serem portados no dia a dia para entender a qualidade de sinal de cada um deles. Além disso precisamos escolher um processador que seja o mais simples possível para gastar menos bateria, mas que tenha potência suficiente para rodar o software em tempo real. Além disso, precisamos fazer um design anatômico para o dispositivo".

Até o momento os resultados têm sido animadores, com uma assertividade de 90% e com os primeiros avisos ocorrendo com antecedência média de 25 minutos. De acordo com a Epistemic, a ideia é utilizar este algoritmo para o desenvolvimento de dois dispositivos: o primeiro para ser utilizado diretamente na rotina do paciente e outro mais robusto para ser utilizado por equipes médicas.

Tecnologias disponíveis até o momento

De acordo com Gomez, até o momento as tecnologias mais conhecidas são a do Embrace e a do Sami, as quais avisam o paciente quando o surto já está ocorrendo, e por isso a Epistemic propõe a autonomia do paciente por meio da prevenção. "O embrace é um smartwatch que mede sinais diferentes do nosso, como batimentos cardíacos e suor. Por isso o nível de assertividade dele é mais baixo que o da Epistemic." Já o Sami "é um sensor de movimento colocado no quarto. Não pode ser utilizado o dia todo".

Recentemente, pesquisadores da IBM, em parceria com neurologistas da Universidade de Melbourne, desenvolveram um sistema que analisa as ondas cerebrais dos pacientes para prever os ataques a partir de inteligência artificial, mas o produto ainda não está disponível ao público. Sobre a pesquisa, a CEO da Epistemic afirma ter conhecido os cientistas australianos.

"Nós conhecemos os cientistas de Melbourne. Fomos a uma competição da Epilepsy Foundation of America no ano passado e nos conhecemos lá. Mais para frente houve uma conferência sobre métodos de detecção de epilepsia em Melbourne e fizemos parte. A prof. Hilda foi apresentar [a pesquisa] e conheceu o trabalho e o laboratório deles. A diferença é que eles utilizam vários eletrodos intracranianos e nós utilizamos apenas dois eletrodos que podem ser colocados facilmente, sem a necessidade de uma cirurgia. Além do mais, o deles é mais utilizado para diagnóstico, é outro foco. Eles têm um algoritmo de previsão que não é tão assertivo quanto o nosso, por isso queriam fazer uma parceria."

Disponibilização dos dispositivos no mercado

Para que os pacientes tenham acesso ao sistema, a Epistemic ainda precisa finalizar o hardware e fazer os testes clínicos. "Para isso precisamos de um aporte, porque os testes envolvem um número grande de pessoas, e de voluntários", afirmou Paula Gomez.

Outra questão que envolve a startup é que o objetivo é ser uma empresa de inteligência, não tendo como foco a fabricação e a venda do equipamento:

"Queremos terceirizar a fabricação e fazer um acordo com uma empresa farmacêutica ou de dispositivos médicos para a venda. Somente no campo da epilepsia temos muito o que fazer. Teremos dados nunca colhidos antes, do dia a dia do paciente e podemos tirar muitas conclusões sobre a doença com eles. Também podemos trabalhar em previsões em outras áreas."

Epistemic from Paula Gomez on Vimeo.

Com informações de Epistemic, Instituto Camões, Associação Brasileira de Epilepsia