Pontos positivos e negativos da 'uberização' dos serviços

Por Douglas Ciriaco | 11.01.2016 às 11:40

Uber, Airbnb, Biva... É bem provável que, há pouco tempo, estes nomes soassem como grego para quem não é falante da idioma de Sócrates e Platão. Hoje, contudo, tais palavras já fazem parte do dialeto urbano de pessoas em várias partes do mundo, significando inovação óbvia para alguns e prejuízo e atraso para outros.

Estes três serviços se juntam a vários outros dentro de um conceito chamado de economia compartilhada, no qual pessoas comuns podem oferecer serviços por meio de plataformas online, normalmente disponíveis para acesso rápido por meio de tablets e smartphones. Com isso, serviços tradicionais se veem ameaçados, o que gera uma série de polêmicas e medidas às vezes mais pesadas do que deveriam.

Mas qual o saldo de tudo isso? Quais podem ser os pontos positivos e os pontos negativos deste tipo de economia que se torna cada vez mais comum nas grandes cidades do Brasil e do mundo?

Uberização

A este processo tem se dado o nome de “uberização”, uma referência ao Uber, o mais barulhento dos serviços do gênero. O que começou como uma startup criada em 2009 para organizar carros privados que ofereciam caronas pagas em uma única cidade cresceu e se tornou uma gigante atuando em vários países do mundo. No Brasil e na França, por exemplo, eles enfrentaram a resistência de taxistas e do poder público, mas, de uma forma ou de outra, resistiram e continuam oferecendo os seus serviços enquanto aguardam a sua legalização.

Uber

Uber é um dos mais conhecidos serviços de economia compartilhada. (Foto: Moritz Lips)

De qualquer maneira, a questão gira em torno de plataformas que eliminam intermediários (ou funcionam como um meio de campo) entre quem pode oferecer um serviço e quem deseja contratá-lo. Seja para transporte urbano, como é o caso do Uber, para alugar uma casa ou um quarto durante alguns dias, como é o caso do Airbnb, ou ainda para conseguir um empréstimo a juros mais baixos do que aqueles praticados pelas instituições financeiras, como é o caso do Biva, a “uberização” parece ter vindo para ficar.

Pontos positivos

Demanda: o grande catalisador

Um dos catalisadores para que estes três aplicativos vingassem por aqui — e tantos outros em outras partes do mundo — é, justamente, a demanda. A dupla responsável por criar o Uber teve a ideia de fazê-lo após viajar a Paris e não conseguir arranjar um táxi. Quando voltaram para casa, pensaram em um sistema que organizasse as pessoas que oferecem caronas e facilitasse o contato entre elas e quem precisa se locomover. O resultado é uma empresa avaliada em mais de US$ 50 bilhões.

Como o transporte privado é um setor altamente regulamentado em várias partes do mundo, sendo comum encontrar países com legislações rígidas quanto a isso — e por fatores que envolvem desde a segurança dos passageiros até o pagamento de impostos —, ele acabou chamando mais a atenção das autoridades, especialmente após protestos organizados por taxistas em cidades como Paris e São Paulo.

Assim, a morosidade de algumas cidades na hora de ampliar a sua frota de táxis e a rigidez da estrutura de funcionamento dos táxis são alguns dos fatores que contribuíram para o sucesso do Uber onde ele atua. Enquanto muitas cidades estão aderindo aos aplicativos de táxi apenas agora, no Uber é possível obter um serviço semelhante a um preço inferior, tendo uma noção exata do valor que será gasto em sua corrida e com o trajeto já definido, guiado pelo sistema de GPS do smartphone do motorista.

Airbnb

Airbnb: mais um sucesso da economia compartilhada. (Foto: Divulgação/Airbnb)

O Airbnb teve facilidade de atuar em um setor que já era culturalmente consolidado. No Brasil, aluguéis de casas e apartamentos para temporadas ou épocas comemorativas é algo mais do que comum, com o serviço atuando como uma espécie de organizador de um mercado que antes se dava de maneira muito mais direta. Em suma, o serviço veio para ampliar as possibilidades de quem oferece a casa completa ou um cômodo dela e facilitar a vida de quem quer encontrar um lugar para ficar.

Muito menos burocracia

Outra vantagem dos serviços que se baseiam em economia compartilhada é a redução das burocracias. Quando você quer alugar um carro, precisa se dirigir a uma locadora e passar por alguns trâmites antes de poder sair com a caranga. E mesmo que você faça a reserva pela internet, quase sempre é um mistério as condições exatas do carro que você vai alugar, o que pode tornar a experiência um tanto frustrante.

Em serviços como o Fleety, atualmente disponível em Curitiba, Florianópolis e São Paulo, você usa um aplicativo em seu smartphone e pode alugar o carro de uma pessoa comum enquanto ela não estiver usando o veículo. O compartilhamento de veículos acaba sendo vantajoso tanto para quem precisa de um carro, pois sai mais barato e simples do que um o aluguel junto a uma locadora, quanto para o dono, que ficaria com ele parado na garagem.

Outro exemplo neste sentido vem do Biva, o serviço que conecta investidores e pequenos empreendedores. Por meio dele, quem tem algum dinheiro sobrando pode disponibilizar para financiar novos negócios, enquanto pequenos empresários encontram uma plataforma muito mais simples (e que cobra menos juros) do que uma instituição financeira tradicional para conseguir investimento — é o chamado P2P lending.

Fleety

Fleety oferece compartilhamento de veículos. (Foto: Reprodução/Fleety)

Pontos negativos

Precarização

Até agora, ficou fácil identificar os vários pontos positivos de plataformas de economia compartilhada, afinal tudo se dá sem burocracia, de forma bilateral e com custos mais baixos que os modelos convencionais. Mas é óbvio que a reflexão puxa também para o lado negativo — tanto prático quanto possível — de serviços oferecidos desta maneira.

Um dos pontos mais fortes de tudo isso é a precarização do trabalhador. No Uber, por exemplo, a companhia fica com uma porcentagem do valor cobrado por uma corrida — e tudo isso sem oferecer uma contrapartida substancial para o motorista parceiro além de conectá-lo a pessoas que demandariam a sua força de trabalho.

A propaganda feita por empresas deste setor, especialmente por companhias como o Uber, dá conta de que estaria “libertando” o trabalhador, fazendo com que ele se tornasse o seu próprio patrão. Contudo, a realidade é que pode ocorrer é justamente uma ampliação da jornada sem a cobertura de leis trabalhistas, ocasionando na precarização da força de trabalho. Dos serviços mais conhecidos, o Uber é o que mais se encaixa neste perfil, afinal é o único em que há um trabalhador oferecendo seus préstimos para outras pessoas por meio do aplicativo. Nos demais, o cerne do negócio é a cessão de uso de propriedades ou empréstimo de valores.

Uma especificidade do Uber diz respeito às obrigações assumidas pelo trabalhador ao se tornar um parceiro da plataforma. Ele precisa realizar uma quantidade mínima de corridas a fim de se manter associado ao serviço. Assim, caso recuse muitas corridas ou não atinja uma determinada meta dentro de um período, o trabalhador é desligado — e o papo de ser o seu próprio patrão e de que o Uber é uma plataforma neutra vão para os ares.

Uber

Uber sofreu com protestos de taxistas em várias cidades do Brasil e do mundo. (Foto: Juliana Pinheiro/Canaltech)

Tendência ao monopólio

Ainda de modo mais preciso no caso do Uber, algumas críticas além da precarização são ainda mais latentes. Entre eles está a pouca transparência da empresa em relação ao algoritmo utilizado para determinar o preço cobrado pela equação entre distância percorrida e tempo de corrida. Quando questionado sobre isso, o presidente da empresa, Travis Kalanick, declarou apenas que sua companhia “não define o preço, o mercado o faz”, sem dar maiores explicações.

Isso levanta o questionamento a respeito das práticas da empresa em um cenário mais favorável a ela — e este é um dos argumentos utilizados por quem defende a regulamentação do setor. Com isso, seria possível intervir em caso de práticas abusivas por parte da empresa, que poderia, por exemplo, ser obrigada a oferecer maior transparência para seus parceiros e clientes.

Concentração e concorrência desleal

Lavanderias em Nova Iorque estão fechando devido à somatória entre gentrificação e serviços da economia compartilhada. A gentrificação, que é resultado da especulação imobiliária em uma determinada área urbana a fim de elevar os preços dos imóveis, acaba por aumentar o valor do aluguel, reduzindo ainda mais a margem de lucro de quem oferece serviços de lavanderia automática.

Para piorar o cenário, companhias do Vale do Silício têm oferecido serviços personalizados de lavagem de roupa. Por meio de um aplicativo, um morador de Manhattan, por exemplo, define alguns aspectos de sua demanda, como tipo de lavagem, quais e quantas peças serão lavadas e por aí vai. Então, dentro de 20 minutos um carro está diante de sua porta para coletar as roupas — e esse mesmo carro vai trazer tudo depois, limpo, passado e dobrado.

Laundromat

Lavanderias tradicionais têm sofrido com as startups do Vale do Silício. (Foto: Iorna/Flickr)

A ideia não parece das piores, não é mesmo? Contudo, os efeitos sociais que tem um negócio como este podem ser nefastos. E a prova disso é justamente a concorrência desleal com as tradicionais lavanderias, que não conseguem acompanhar os avanços tecnológicos, sofrem com a redução da clientela e com o aumento do aluguel e ainda trabalham com máquinas de lavar automáticas acionadas por moedas — enquanto serviços como FlyCleaners e a Cleanly oferecem outras formas de pagamento, além de ajudar a poupar o seu tempo.

E mesmo quando as startups oferecem parcerias com lavanderias locais, como é o caso da Cleanly, nem sempre a negociação é vantajosa para os estabelecimentos, que ainda olham de maneira reticente para este novo tipo de parceria.

E o saldo?

Que todos os serviços de economia compartilhada têm as suas vantagens, isso é impossível negar. Menos burocracia e preços normalmente mais amigáveis são por si só motivos de sobra para recorrer a eles. Por outro lado, todos acabam tendo — uns mais e outros menos — motivos que nos levam a algumas reflexões sobre a sua forma de atuação e os seus desdobramentos sociais.

Uma coisa é fato: este novo setor veio para ficar. Apesar dos contratempos, seus atores precisam ser discutidos e todos os lados devem ser ouvidos nesta conversa, afinal há opiniões contundentes em todas as partes.

Mas e aí, na sua opinião, qual o saldo de tudo isso?

Fontes: Vice, Fábio Steinberg (PDF), Helio Gurovitz, Público, The Wall Street Journal, Exame, MIT Technology Review, Matt Stoller, E-Flux Conversations