Os tudólogos

Por José Otero | 21 de Junho de 2016 às 15h00

Uma das principais vantagens de participar de diferentes eventos de telecomunicações em toda a América Latina é a oportunidade de conhecer pessoas com vasto conhecimento sobre a indústria. Ao contrário do que muitos possam imaginar, as conversas distanciam-se muito das conversas sobre realidades binárias e aproximam-se mais de questões que envolvem inteligência artificial e que nos levarão a rebeliões com máquinas do tipo em O Exterminador do Futuro

Outra vantagem destes eventos é que em ocasiões chegam a reunir por poucos dias especialistas de diferentes países com o objetivo de dissertar sobre algum dos temas de indústria que estão na moda, como operadores móveis virtuais, Internet das Coisas ou todos os serviços que nos fornecem a nuvem.

Não obstante, o último encontro no qual me reuni com analistas da Argentina, México e Colômbia, fiz uma pergunta diferente: O que mais incomoda e irrita a indústria? A reação do mexicano, tamanho o espanto, foi digna de foto. Então respondeu: os Tudólogos. Com essas duas palavras o debate transformou-se, pois a arte não tão perdida da tudologia passou a ser a grande protagonista da tarde.

Quem são os tudólogos? Ao que parece, são aquelas pessoas que ao mesmo tempo entendem de telecomunicações, física nuclear, sabem a receita de um pozole, até cartografia, medicina e astronomia. São como se fossem reencarnações de Leonardo e Catarina de Médici, com padrões de vida neorrenascentistas em que mesmo o mais ínfimo pormenor sobre as leis, economia e tecnologia é desconhecida.

O analista colombiano intervém para dizer que ao seu ver, a pior característica dos tudólogos são o preço baixo. São como cães de caça atrás da presa. Enquanto matam a indústria com preços baixos, seus trabalhos parecem limitar-se a mencionar uma ou outra vez o que as pessoas têm falado nas últimas semanas. Dessa perspectiva, o pior é quando quem comete a ação é um acadêmico que se apresenta como neutro.

O argentino, logo após aceitar relutantemente que nem o Maradona e nem o Messi fizeram uma cuauhtemiña (famosa jogada do mexicano Cuauhtemoc Blanco) em um mundial, em um tom um pouco agressivo começa a explicar porquê o termo tudólogo não lhe convence totalmente. Segundo ele, não pode ser tudólogo quem vive de roubar ideias alheias de artigos e não faz uma análise do que foi escrito por terceiros para apresentar um resumo, e diz que são ideias quase sempre distorcidas, como as análises de Dom Quixote.

Particularmente, creio que as três visões são complementares. Pelo que se vê no mercado, o importante é o interlocutor e não a mensagem. Se isto implica em esculpir números de forma arbitrária e sem sentido, bem-vindo seja. Temos que incluir, como um requisito importante da tudologia do século XXI, estar acompanhado de uma máquina assalariada que tende a projetar conhecimento, ainda que fornecido.

Tampouco parece-me justo considerar a tudologia como a arte de poucos analistas tagarelas. Os tudólogos, para parafrasear Facundo Cabral, dão medo porque são muitos. Podemos encontrá-los em todas as fases da vida, tendo como denominador comum a carência de sustância em seus argumentos. Por exemplo, é muito comum ver mídia paga publicada como artigos sérios em várias revistas e jornais. São fáceis de distinguir porque quase sempre se baseiam em algum artigo anterior que traz muito conteúdo e não fornece os devidos créditos.

Mas não podemos esquecer de dois importantes ensinamentos do analista colombiano. Primeiro, a defesa do goleiro colombiano Rene Higuita conhecida como escorpião, no estádio de Wembley, é superior a qualquer cuauhtemiña. E, em segundo lugar, ele nos recordou que a mera existência dos tudólogos implica que o setor é importante e influente para ter empregados em várias frentes.

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