Opinião: Por que você NÃO deve comprar um Mac

Por Pedro Cipoli | 14 de Outubro de 2015 às 18h17

E a Apple aumentou os preços de seus produtos de novo! Algumas empresas aumentam seus preços por aumento de custos. Outras, por variações no dólar. Outras, ainda, pela alta demanda, algo previsível pela velha lei de mercado de oferta e demanda. A Apple, bom, não tem a menor explicação, pelo menos uma que faça algum sentido.

O problema é que os novos preços passaram de qualquer posicionamento de mercado, até mesmo segmentos que não existem na prática, como “luxo” ou “premium”, passando até da aura de superioridade que a Apple acha que tem. Então, nada como explicar os motivos para não comprar um Mac, eliminando qualquer resquício de dúvida para quem ainda considera uma opção válida.

O que a Apple tem a ver com a Zara

Em relação ao portfólio de produtos, nada. Em estratégia, bastante. A Zara é uma empresa que vende roupas em diversos países, adotando um posicionamento diferente em cada um deles. A grande sacada da empresa foi padronizar tamanhos e cores para diminuir custos, de forma que pode oferecer artigos de vestuário com preço competitivo sem necessariamente diminuir a sua margem de lucro.

No Brasil o posicionamento muda, com lojas recheadas de “classe” e preços maiores do que os praticados em outros países. Basicamente, são os mesmos produtos, só que vendidos com preços maiores por um reposicionamento de marca, não muito diferente do que a Apple faz com todo o seu portfólio de produtos por aqui. Nos Estados Unidos, por exemplo, o iPhone custa US$ 649 na versão de 16 GB desde o iPhone 4, lá em 2010, independentemente de custos de produção, inflação e qualquer outro.

Apple

Calma aí: 6 gerações de iPhone anunciadas com o mesmo preço? Exatamente. No Brasil, porém, os preços aumentaram geração após geração. E por que isso acontece? Aqui há (por algum motivo) um “quê de luxo”, com usuários comprando o telefone como uma espécie de símbolo, o que independe da competição Android vs iOS. Nos EUA ele é um smartphone avançado como qualquer outro, considerado até “barato” para os padrões de vida americanos (em especial em planos de operadora), e por isso usuários trocam de modelos a cada lançamento.

O mesmo acontece com os Macs, que estão longe de serem os modelos mais caros do mercado americano. Aliás, assim como os iPhones, os preços dos Macs pouco (ou nada) variam em novas gerações, já que a concorrência é bem mais acentuada. Mas temos a “questão do dólar”, que aumentou bastante no último ano. Isso ajuda a explicar? Vamos falar um pouco sobre isso.

Tem a ver com o dólar? Sim, mas não do jeito que você imagina

Sim, é um mercado altamente dolarizado. Sim, mudanças no câmbio afetam os preços no Brasil. Não, isso não explica ESTE aumento de preços. Vamos fazer uma conta simples aqui. Digamos que você vá aos Estados Unidos e compre o MacBook Pro Retina de 15 polegadas com placa de vídeo, que no Brasil agora custa R$ 23.499 na versão mais básica. Nos EUA ele sai por US$ 2.499, e vamos considerar que você compre no Tennessee, que tem um dos impostos mais altos (9,75%), e pague com cartão de crédito, com IOF de 6,18%. Vamos considerar o dólar como R$ 4, para fins de arredondamento.

Apple

Chegamos ao valor fino de R$ 11.648, também conhecido como menos da metade. Vamos considerar o valor de ida e volta mais o preço de um hotel razoável como R$ 4.000 (chutando beeem alto), e chegamos a R$ 15.648. Chegamos ao bom e velho “ah, então vale mais ir até os EUA e comprar lá!”, certo? Essa é exatamente a estratégia da Apple, criando a ilusão de um bom negócio, a ideia de que você economizou comprando nos Estados Unidos, sendo que, na verdade, você gastou uma bela grana somente pela diferença de preços entre o modelo americano e o brasileiro.

É uma estratégia brilhante, funcionando de forma subconsciente no usuário, já que sempre valerá mais a pena comprar nos Estados Unidos, o que muitos usuários acabam fazendo. Na prática, você ainda está pagando um produto superfaturado, só que liberando a Apple de investir em uma infraestrutura no Brasil para vender produtos com preços mais competitivos. Quanto mais o preço subir por aqui, mais “vale a pena comprar nos EUA”, entende?

Mas os Macs são melhores, não são? Próximo tópico.

Não, Macs não são mais rápidos

Aqui temos uma outra estratégia subconsciente da Apple, transportando o que a empresa faz com o iPhone para vender Macs. No caso do iPhone, há sim um design exclusivo dos chips, otimizados ao extremo para rodar o iOS da forma mais eficiente possível. É o velho “controle do software e do hardware”, que de fato faz algum sentido quando falamos de iPhones. Não é o que acontece com Macs.

Como a Apple não usa processadores AMD, vamos considerar somente modelos da Intel. Mesmo as configurações mais básicas dos MacBooks trazem Core i5, pelo menos 8 GB (desconsiderando os MacBook Air mais básicos) e SSD. É óbvio que eles serão rápidos! Não há otimizações ou qualquer tipo de mágica do OSX, já que até mesmo o Windows Vista (descanse em paz) ficaria rápido nessas configurações.

Apple

Mesmo se fosse o caso, é difícil não encontrar um notebook com Windows 10, que melhorou bastante nos últimos anos, que seja tão rápido (ou mesmo mais veloz) pela metade do preço. MacBooks são máquinas excelentes, de fato, mas não lembramos a última vez que pegamos qualquer modelo de R$ 10.000 que seja ruim. Essa ideia de “Macs são rápidos” não se sustenta, e se é velocidade que o usuário busca, bom, há uma boa quantidade de modelos com Windows que vale a pena conhecer.

Mas os MacBooks trazem programas exclusivos, certo?

Programas exclusivos?

FinalCut, iMovie, Pages, Acorn, Logic Pro, Aperture, para mencionar somente alguns. De fato, são programas exclusivos dos Macs que são realmente excelentes, alguns deles fabricados pela própria Apple. Isso significa que alguns usuários dependem de Macs para trabalhar, em especial para usar programas de criação (edição de imagem, vídeo, 3D)? É uma dependência voluntária, já que o Windows também tem seus programas exclusivos, e boa parte dos softwares profissionais está disponível para ambos. Suítes da Adobe, AutoCAD, MS Office e Pro Tools são bons exemplos.

Apple

Ainda que mudar de software seja meio doloroso, já que nos acostumamos a trabalhar de forma automatizada em determinados programas, vale mais o esforço do que depender dessa escravização de plataforma. Com exceção dos fabricados pela Apple, para nós é uma incógnita a ausência de determinadas fabricantes no Windows (caso do Acorn), que tem uma base instalada muito maior. De qualquer forma, essa dependência continua opcional, já que há excelentes concorrentes multiplataforma. O Lightworks, por exemplo, funciona até mesmo no Linux.

Cadê a inovação, Apple?

Esse é outro ponto interessante de analisar. Vista como sinônimo de inovação, o que a Apple tem feito com os Macs é, basicamente, atualizar o hardware. De tempos e tempos temos algum produto novo, como o MacBook Air Retina, mas, essencialmente, o design dos MacBooks Pro e Air não muda há anos. Quem está disposto a encarar esse preço não merecia mais inovação? Não estamos falando de mais poder de fogo, e sim de gastar R$ 23.499 em um MacBook Pro para ter o luxo de usar o Force Touch.

Apple

O MacBook “normal”, aquele empoeirado no fundo da prateleira com drive de DVD, configuração desatualizada, disco rígido de 500 GB (como qualquer modelo com Windows que custe R$ 1.000), surpreendentes 4 GB de memória RAM e tela “não-Retina”, por exemplo. R$ 10.499? É sério? O Mac Mini é outro: visto como uma opção de baixo custo nos EUA (US$ 499 na versão mais básica), ele não somente não traz nenhuma inovação visual, como também sofre “downgrades” de configuração cada vez que a Apple anuncia um modelo novo.

Conclusão

Nossa intenção aqui é explorar os pontos geralmente utilizados para justificar os altos preços dos Macs, que sempre foram mais caros do que os equivalentes com Windows, e mostrar que não há nada, absolutamente nada, que explique os valores atuais. Entre todos os pontos, o “é mais barato comprar nos EUA” é o mais importante, sendo uma estratégia para vender iPhones e Macs no exterior com a ilusão de que o consumidor está economizando, quando não passa de uma estratégia de vendas.

Sinceramente não entendemos esses preços. Não há análise de preço, posicionamento de mercado, variação de dólar, qualidade superior que sobreviva a essas cifras, nem algo que comece a explicá-los. Algo como: "jura que a Apple cobra R$ 1.000 por um trackpad?" (preço atual do Magic Trackpad: R$ 999). Mas, enquanto continuar vendendo, os preços continuarão altos, uma famosa lei de mercado que vale para qualquer empresa. Aliás, já dá para imaginar os preços dos iPhones quando eles chegarem por aqui, né?

E você, usuário? O que achou dos novos preços?

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