Open banking: o banco integrado na jornada digital

Por Colaborador externo | 20.05.2015 às 14:25

Por Kleber Bacili*

O papel da tecnologia em nossa vida é tão importante que já se pode falar em “digital business moments”, que nada mais são do que as atividades cotidianas realizadas exclusivamente via web. Planejamos viagens, pedimos táxi, reservamos hotel, pesquisamos produtos, comparamos preços e fazemos compras. Tudo online, muitas vezes através do smartphone.

Serviços bancários, porém, na maioria das vezes estão desconectados dessas experiências digitais. Quando você está reservando a viagem de férias da família o seu banco possui diversos produtos financeiros que poderiam ser oferecidos: seguro viagem, moeda estrangeira, crédito para viabilizar o destino dos sonhos, desbloqueio automático do cartão de crédito. Sim, você pode fazer tudo isso, mas tem que interromper a sua jornada digital do planejamento da viagem e entrar no internet banking e procurar pelo serviço.

E é por isso que os bancos estão assistindo empresas como Paypal, Apple e Google capturarem uma fatia importante de experiências financeiras. Por meio do open banking, será possível, por exemplo, pagar a corrida de táxi pelo aplicativo conectado com sua conta no Paypal. O usuário terá uma experiência integrada, segura e alinhada com o que deseja consumir naquele momento.

Parcerias

Os conceitos de mobilidade e cloud computing mudaram a forma como as pessoas se relacionam com as empresas, ampliando profundamente suas perspectivas. Não dá mais para pensar que é possível sobreviver nesse mercado sem fazer parcerias. O mesmo vale para os bancos que podem utilizar a colaboração de startups e os aplicativos construídos por elas. Contar com a inovação dessas jovens empresas tornou-se um imperativo de negócio.

Se no Brasil as conversações para a criação de um ecossistema de open banking ainda estão iniciando, no exterior vários bancos já têm feito investimentos nessa área. Entre eles estão o banco francês Credit Agricole, que organizou hackathons para engajar desenvolvedores externos e tem uma loja de apps, o norte-americano Capital One, o Commonwealth Bank da Austrália e o BBVA da Espanha.

A ideia principal é o banco buscar um posicionamento de plataforma tecnológica sobre a qual empresas externas consigam construir aplicativos que interajam com os dados e até façam transações financeiras. Há um ecossistema pulsante de startups em fintech – tecnologia financeira. Os bancos precisam se beneficiar dessa inovação. Usando como exemplo um site de viagens, você pode imaginar que seria possível integrar o seu perfil no site com sua conta corrente, do mesmo jeito que você entra em um site usando seus dados do Facebook ou conecta apps ao seu perfil. Ao se conectar, o pagamento poderia ser realizado diretamente no site e o banco estaria incluído em sua jornada digital, sendo capaz de oferecer serviços personalizados e em tempo real a você.

No mundo corporativo, a maior parte dos ERPs das empresas opera de forma desconectada da conta corporativa. Assim, quando o diretor financeiro vê na tela do ERP que o fluxo de caixa apresenta uma queda no mês seguinte, produtos de capital de giro poderiam já ser oferecidos, dentro dos limites pré-aprovados para essa empresa, ali, na tela do ERP, a um clique de distância. Os exemplos são infinitos!

A maioria dos bancos tem estratégias de canais digitais que tentam unificar a experiência da agência física, com o internet banking, mobile banking e ATMs. Tudo para tornar mais fácil para os clientes acessarem suas informações, realizarem transações e comprarem produtos financeiros. Com o open banking, os bancos não precisarão fazer com que você acesse um de seus canais digitais, já que os produtos estarão presentes onde mais importam: quando a demanda por eles aparece.

É uma relação ganha-ganha entre o banco e os apps ou sites selecionados. Estes podem conseguir uma decisão de compra mais rápida do consumidor, e aquele poderá expor e vender seus produtos em múltiplas plataformas de maneira mais segmentada e personalizada.

Fidelização

Aqui entra o efeito “cola” (stickiness factor): se você conectar os aplicativos e sites que mais usa no dia a dia com seu banco e passar a ter a conveniência de uma experiência integrada, a chance de trocar seu banco por outro só porque a tarifa de manutenção é um pouco maior se reduz enormemente.

Se hoje muita gente nem pensa em passar na agência só para pagar uma conta já que dá para fazer isso pela web, usuários cada vez mais exigentes não vão querer entrar no internet banking para pagar uma compra,

se der para fazer isso direto do site. A ideia é ter apps requisitando permissão para acessar sua conta e realizar transações de forma descomplicada e com segurança, como já acontece nas redes sociais.

Mesmo quando a transação não se concretiza pelo app do parceiro, o banco ainda ganha em saber que um determinado cliente está planejando uma viagem ou que a empresa está precisando de capital de giro. O gerente do banco poderá fazer ofertas bem mais certeiras baseadas nos hábitos do cliente e usar outros canais para chegar até ele.

Dá para confiar?

É certo que a segurança continuará sendo um questionamento. São dados privados e mais preocupante ainda, financeiros. Mas o modelo Open Banking utiliza o conceito de APIs (Application Programming Interfaces) e modelos de segurança similares aos usados por empresas como Google e Facebook. A ideia é sempre contar com o consentimento do cliente e limitar cada operação a um determinado escopo bem específico, além, é claro, de selecionar cuidadosamente os parceiros.

Da mesma forma como muita gente tinha receio de usar a internet para fazer pagamentos e consultas, hoje também, muitas pessoas podem ter receio de usar aplicativos externos que acessem sua conta bancária, mesmo que somente para leitura. Mas é um caminho sem volta, assim como o internet banking.

* Kleber Bacili é CEO da Sensedia