O que esperar da realidade: como funciona o metamodernismo na tecnologia

Por Renato Mendes | 22 de Agosto de 2018 às 07h23
photo_camera koydesign/DepositPhotos

Para começar, vamos pensar em algumas coisas que não parecem estar ligadas, mas estão:

  • Política virou entretenimento e quem faz sucesso é quem parece estar falando mais próximo da realidade do eleitor;
  • Instagram Stories e Finsta;
  • Netflix e Vox com seus documentários dando aulas sobre coisas que você não sabia que tinha interesse;
  • Uma nova onda de transparência, lutando para entender melhor o que e como consumimos, onde trabalhamos e com quem falamos;
  • Geração Z e suas tendências;
  • Consumo consciente;
  • Hyper realidade;
  • Economia compartilhada;
  • Polaridade política;
  • Quebra de padrões estéticos, de conceitos sobre família e de orientações sexuais, gênero etc.

É como se estivéssemos não só tentando entender como as coisas funcionam, mas também onde elas funcionam e, mais ainda, por que elas funcionam. Para isso fazer um pouco mais de sentido, é preciso dar uma pincelada rápida nos movimentos estéticos que vivenciamos num passado bem próximo e outros que estamos vivendo nesse momento.

Se no modernismo as grandes narrativas com grandes embates eram o nosso foco (bem vs. Mal, comunismo vs. Capitalismo, e por aí vai), o pós-modernismo rejeitaria essas grandes narrativas para trazer para o centro da conversa a vida real, onde quase nunca se termina com o final feliz dos filmes.

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Como diria um grande amigo meu, “vida não acontece, a vida acontecendo”. No meio disso tudo, encontramos o que eu entendo como a grande sacada do nosso tempo, que toca a estética artística, filosófica e, obviamente, a tecnológica: o metamodernismo.

Esse conceito vive de forma consciente no meio do modernismo e do pós-modernismo, juntando o que há de mais sincero e edificante das grandes narrativas modernas com a realidade fria e cruel do distanciamento que o pós-moderno traz.

Se você quiser entender um pouco mais como isso se materializa, vale a pena dar uma olhada nesse vídeo explicando algumas intervenções do ator Shia Labeouf nesse contexto. Por hora podemos pegar algumas partes centrais do manifesto metamodernista (sim, há um manifesto!) para guiar nossa viagem. Nele, vamos focar em três pontos:

  • Hoje somos tão nostálgicos quanto futuristas;
  • O erro gera compreensão;
  • Precisamos seguir em frente e oscilar;

Com isso em mente, vamos entrar mais a fundo no mundo da tecnologia, no mercado digital para ser mais exato. Estamos em um momento bem moderno quando olhamos para algumas características dos produtos digitais. Temos muito do que em inglês se fala em self reference: padrões de usabilidade, fórmulas de comunicação que trazem mais resultados, material design e melhores práticas. Como se precisássemos partir de um patamar comum para a criação de um serviço ou de um produto digital, sempre trazendo um “olha, você já viu isso antes, então fica tranquilo que vai ser legal pra você”.

Porém, ao mesmo tempo, talvez estejamos caminhando para um momento de profunda autorrealização e autocrítica, onde teremos coragem para olhar para tudo que temos e propor: faz sentido? Faz sentido consumir como consumimos? Faz sentido seguir os padrões que seguimos? Faz sentido acreditar no que acreditamos? Faz sentido “produtizar como produtizamos”? E aqui surge a porta para o nosso metamodernismo tecnológico.

Ben Thompson, um grande estrategista de produto que fundou e escreve para o maravilhoso Stratchery, formulou uma teoria sobre como essa quebra de paradigma molda os grandes produtos digitais atuais, chamada de Super Agregadores. Nela, Ben discorre exatamente sobre essa nova forma de criar negócios, que consegue ao mesmo tempo usufruir ao máximo da lógica capitalista em que estamos inseridos e subverter a forma como as linhas de entrada e saída de serviços e produtos é feita. Um cenário onde os padrões se criam e se dissolvem tão rápido que fica até perigoso chamá-los de padrões.

Quando olhamos para esses produtos, quem define o mundo são os que oscilam e trafegam em horizontes ambíguos. Amazon e gigantes chinesas como a Tencent, que vão contra a máxima estratégia de mercado de “focar em um produto e um público”, oferecem uma gama assombrosa de coisas pra uma gama assustadora de pessoas, oscilando entre serviço e produto. Ou o Netflix, que se coloca como um produtor e vendedor de conteúdo dentro de uma dinâmica muito bem enraizada por décadas de domínio Hollywoodiano, porém incentivando o consumo de séries e documentários que desafiam nosso consciente. Perceba como o Netflix vem assumindo uma posição mais didática do que de puro entretenimento. Mesmo o YouTube que de alguma forma conseguiu não virar o Facebook e usa seu UGC (user generated content) para mostrar diferentes pontos de vistas, navegando entre diferentes espectros da polarização de opiniões, gerando conversas sobre o conteúdo e, mais legal ainda, sobre o próprio meio. A Apple que desafia o status quo, das boas práticas de usabilidade e design aos padrões de tecnologia. E, até de forma mais abstrata, o Waze que poderia ser apenas um GPS que poupa seu tempo, mas acabou transformando a nossa relação de confiança com os taxistas.

Portanto, acredito que os produtos do futuro (e do presente) são esses que desafiam as lógicas onde estão inseridos, sem necessariamente diminuí-las ou antagonizarem com elas. Oscilam bebendo o melhor delas, que nos trouxe até aqui, unindo-as com o melhor do outro lado, mais cruel e cínico, porém mais transparente. Criando novas dinâmicas e lógicas, livres de correntes ideológicas e conscientes de sua própria volatilidade. Mais ainda, usando essa volatilidade a seu favor.

Se tudo que é sólido desmancha no ar, vamos nos permitir oscilar e “produtizar” de forma mais leve e fluída. Aproveitar o jogo mais do que jogar o jogo. Se o erro gera compreensão, para entender que erramos temos que estar dispostos a ver todos os lados. Seguir em frente e oscilar!

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