Google Tradutor pode aposentar intérpretes e dicionários?

Por Carlos Ferreira | 02 de Março de 2016 às 17h19

Nós normalmente esperamos que as maiores viagens do Google venham diretamente daquele laboratório de cientistas loucos, o Google X. Afinal, é de lá que vêm balões provedores de internet, carros autômatos e mais uma porção de geringonças que bem poderiam ter escapulido do porão do professor Pardal. Entretanto, um dos grandes saltos pode ocorrer por meio de algo muito mais cotidiano: o Google Translate.

Ou, de fato, qualquer tradutor simultâneo, conforme colocou Alec Ross em texto futurológico para o Wall Street Journal. Para ele, a amostragem colossal fornecida diariamente para aplicativos do gênero deve permitir que softwares como o tradutor do Google se tornem praticamente tão capazes efetuar a comunicação imediata entre falantes de línguas distintas quanto um intérprete aprumado e de roupas bem alinhadas.

Um adeus ao velho dicionário

“Eu costumava viajar por aí levando um pequeno dicionário que provia traduções para as palavras e frases mais comuns”, lembra Ross em seu texto para o WSJ. “Caso quisesse construir uma sentença, eu folheava o dicionário por cinco minutos, a fim de desenvolver uma expressão desajeitada com verbos não conjugados e com substantivos o mais próximos possível”, diz Ross.

Ele continua: “Hoje eu simplesmente saco o meu iPhone e digito a frase no Google Translate, que retorna uma tradução tão rápido quanto minha conexão com a internet puder prover e em qualquer uma de 90 línguas”. Para ele, embora as traduções por software ainda careçam de precisão, esse cenário pode mudar rapidamente.

“Daqui a uma década, eu prevejo que todos que leem este artigo hoje poderão conversar em dúzias de línguas estrangeiras, eliminando o próprio conceito de ‘barreira linguística’. As ferramentas atuais desenvolvidas por computação efetuam mais de um bilhão de traduções por dia, para mais de 200 mil pessoas. Com o crescimento exponencial do volume de dados, esse número de traduções será feito em uma tarde, e depois em apenas uma hora”.

dicionário

Ao final de uma década, portanto, Ross acredita que as traduções computadorizadas devem ser capazes de analisar mesmo os menores detalhes, tanto pelo volume de “entradas” quanto pelas inúmeras correções efetuadas pelo próprio usuário. “É apenas uma questão de mais dados, maior poder computacional e melhores softwares”, ele diz, vislumbrando o momento em que mesmo pronúncia e interpretação serão tiradas de letra pelas modernas e bem alimentadas ferramentas.

O fim das escolas de idiomas?

Conforme colocou em sua análise o site Web Spanish, embora a utopia pintada pelo contribuidor honorário do Wall Street Journal permita vislumbrar uma época de novas facilidades, parece pouco provável que – ao menos em um futuro relativamente próximo – o aprendizado de línguas estrangeiras se torne obsoleto.

Basicamente, embora um tradutor computadorizado mais “esperto” possa fornecer uma assistência valiosa na hora de colocar a mochila nas costas e viajar – permitindo uma melhor comunicação em hotéis, restaurantes, estações de metrô etc. –, tal ferramenta dificilmente poderia substituir a proximidade tornada possível pelo domínio de uma outra língua.

“Eu penso que isso tudo vai conduzir a um planeta mais interconectado, favorecendo grande entendimento entre as pessoas (...)”, diz o redator. Entretanto, ele lembra: há inúmeras pessoas que simplesmente não estão dispostas à comunicação intermediada por uma máquina _ “e não devem estar também nos próximos dez anos”.

Google translate

Dessa forma, tanto uma conversa informal e amistosa com um nativo quanto o fechamento de um negócio importante ainda podem precisar do bom e velho “téti-a-téti” – sob o risco de por a perder muito, em ambos os casos.

O fim dos intérpretes, então?

Mas além da questão “pessoal” que determina a necessidade de existência de escolas de idiomas em um futuro próximo, há também mais uma questão: será mesmo assim tão fácil (ou rápido) emular os padrões complexos da comunicação humana em uma ferramenta digital?

Embora uma resposta clara pareça, neste momento, bastante difícil, bastam alguns rápidos vislumbres do poderio do cérebro humano para entender que empresas como a Google tem um belo desafio pela frente. De fato, pesquisas mais recentes têm mostrado que diversas estruturas cerebrais atuam no momento em que nos dedicamos à comunicação por meio da linguagem.

Conforme apontou Geoff Watts em artigo para a BBC Future, mesmo estruturas não diretamente relacionadas à linguagem, como o núcleo caudado, tem papel fundamental na hora de emitir e de interpretar as mensagens de outras pessoas – indo além do simples “falar” e “ouvir” e chegando a questões mais complexas como a tomada de decisões e a projeção de confiança.

Google Tradutor

E, bem, se é verdade, como se diz, que os primeiros intérpretes atuantes em encontros das Nações Unidas sofriam com o descrédito de governantes e diplomatas... Então, de fato, as traduções às vezes truncadas (e mesmo cômicas) de ferramentas como o Google Tradutor provavelmente ainda têm um longo caminho a seguir até a credibilidade – o que não impede que se tornem gradualmente mais úteis, é claro.

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