Mercado de empréstimos online: tecnologia ajudando a humanizar as finanças

Por Joyce Macedo | 23.07.2015 às 10:00 - atualizado em 04.08.2015 às 12:06

Em meados de 1994, Bill Gates já deixou claro o que pensa sobre os bancos: eles não são necessários. Antes que você pense que o executivo estava totalmente equivocado, é preciso destacar que ele acredita na necessidade do comércio bancário, mas tem uma visão diferente das instituições financeiras. A declaração ousada do cofundador da Microsoft tem sido associada com o início de uma transformação na tecnologia financeira.

Agora, duas décadas depois, nós estamos presenciando o desdobramento dessa revolução catalisada em grande parte pela crise financeira global de 2008 e 2009. A nova ordem financeira está estabelecendo uma forte concorrência para os bancos tradicionais, que agora precisam lidar com algo que não existia há alguns anos, como o mercado de empréstimos online, que oferece uma experiência de empréstimo mais humana por meio da tecnologia, transparência e confiança que os consumidores esperam de seus prestadores de serviços financeiros.

Alguns analistas da Goldman Sachs, uma das principais empresas globais de investimentos, estudaram a situação e criaram um relatório onde apontam que as alterações regulamentares e as novas tecnologias estão entre os principais fatores da remodelagem no setor bancário tradicional, permitindo o rápido crescimento do mercado de empréstimos.

O mercado de empréstimos online movimentou US$ 5,98 bilhões nos Estados Unidos e agora está ganhando espaço no Brasil. A ideia desse segmento é juntar quem precisa de recursos a potenciais investidores e credores, com a vantagem de tornar o processo mais rápido e fácil em comparação aos grandes bancos.

Em outros países, essas plataformas atuam sem a intermediação de uma instituição financeira, mas no Brasil isso não é possível. Para se adequar às regras do Banco Central, essas empresas precisam atuar com uma espécie de correspondente bancário que ajuda na hora de estruturar um empréstimo com bancos parceiros.

No Brasil, podemos destacar sites como Intoo, Broota, F e Biva que, juntos, movimentaram cerca R$ 475 milhões em recursos desde abril do ano passado. Outro exemplo de alternativa online para os empréstimos realizados diretamente com os grandes bancos é o site alemão Lendico, que depois de movimentar cerca de mais 1 bilhão de euros em transações na Alemanha e outros países da Europa, anunciou recentemente sua chegada ao Brasil.

Porém, devido às regulamentações do país, a empresa optou por iniciar suas operações em parceria com o Banco BMG, instituição credenciada a liberar os empréstimos aos usuários, mas seu plano é conseguir estabelecer o seu modelo principal de negócios no país em breve, o serviço de empréstimo usuário a usuário (P2P, na sigla em inglês).

"É um mercado bastante regulado no Brasil, então começamos dentro do modelo tradicional de empréstimos, alinhados com o BMG, mas já trazendo nosso modelo online e tecnologias de inteligência que empregamos internacionalmente", explica Marcelo Ciampolini, diretor da Lendico no Brasil.

O principal benefício das plataformas de empréstimos online está na oferta de um custo mais baixo do que os bancos tradicionais, impulsionado principalmente por empresas que trabalham exclusivamente online. Acima de tudo, essas plataformas estão servindo os consumidores, dando-lhes exatamente o que eles querem: produtos personalizados, tecnologia simplificada e ágil atendimento ao cliente – diferente do que acontece nas instituições financeiras tradicionais.

No Brasil, a Lendico oferece crédito pessoal a juros que variam entre 33% e 55% ao ano. A título de comparação, dentre os bancos grandes — Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, HSBC, Itaú e Santander — as taxas médias praticadas nessa mesma linha de crédito, também chamada de Crédito Pessoal ao Consumidor (CDC), partem de 59,98% ao ano (Caixa) e chegam a 92,15% ao ano (Bradesco).

Além disso, os bancos tradicionais parecem não saber lidar adequadamente com os seus consumidores. Um bom exemplo estatístico para isso é o resultado de uma pesquisa chamada Millennial Disruption Index, que apontou que 71% da geração Millennials prefere ir ao dentista do que ouvir o que os bancos tradicionais têm a dizer. Mais ainda: 33% acreditam que não precisam de um banco para tudo. Isso mostra que a nova geração de consumidores tende cada vez mais a se voltar para o mercado de empréstimos online para satisfazer suas necessidades financeiras.

O mercado de empréstimos online, especificamente, está humanizando as finanças ao responder diretamente às necessidades dos consumidores. Ao invés de enxergar essa relação como uma transação única, a maioria dos credores desse novo mercado está tratando-a como um relacionamento de longo prazo, onde é preciso construir confiança e definir o cenário para outras futuras transações.

Fato é que a tecnologia está mudando a economia em todo o mundo, e também o sistema bancário. Isso aponta para um futuro onde os produtos financeiros vão agregar valor à vida das pessoas. É claro que agora os bancos tradicionais precisam lidar com uma grande força emergente no mundo financeiro, e cabe a eles decidir se estão dentro ou fora – se querem reconhecer, se envolver e colaborar com esses novos operadores ou não.

Com informações: TechCrunch / Folha de S.Paulo / Baguete