Lixo eletrônico, uma oportunidade de transformação e crescimento para o Brasil

Por Colaborador externo | 08.10.2015 às 08:10

Por Emerson Henrique da Silva*

Os efeitos da inovação na vida das pessoas são algo que chama a atenção. A tecnologia está presente em celulares, computadores, televisores, geladeiras, enfim, praticamente tudo o que utilizamos em nosso cotidiano. O mundo sem tecnologia seria a ruína. Segundo a consultoria IDC (International Data Corporation), de janeiro a dezembro de 2014, os brasileiros compraram cerca de 54,5 milhões em smartphones, 10,3 milhões de computadores e 9,5 milhões de tablets. Dada a crise de 2015, o mercado estima apenas a manutenção desses números. Junte a esse montante os eletrodomésticos, televisores, aparelhos de DVD, geladeiras, micro-ondas e outros consumíveis. Por um lado, a demanda por aparelhos é importante do ponto de vista econômico, pois auxilia no fortalecimento da cadeia de negócios. Por outro, o rápido descarte de equipamentos antigos produz milhões de toneladas de lixo eletrônico.

No Brasil, estima-se que menos de 5% dos resíduos eletrônicos são devidamente descartados. O restante fica armazenado em depósitos ou são abandonados no meio ambiente. Em 1965, Gordon Earl Moore, um dos fundadores da Intel, definiu um conceito chamado de “Lei de Moore”, tendo em sua essência a ideia de que o poder computacional deveria dobrar a cada 18 meses. Para a informática, essa “lei” ainda tem se mostrado válida. De certo modo, isso também influencia o restante da indústria e se tornou um acelerador do descarte precoce de equipamentos. Somos hoje um dos maiores produtores de lixo eletrônico, com mais de 1,4 milhões de toneladas produzidas anualmente, o que representa cerca de 7kg por habitante. De acordo com a ONU, estamos na dianteira daqueles que fazem o descarte na natureza. Os Estados Unidos, Europa e Japão, por sua vez, reciclam 30% de seus resíduos, sendo que um percentual é exportado para outros países, como a China, Índia e Paquistão, com a justificativa de estimular a “inclusão digital” por meio do reuso.

A reciclagem é uma saída inteligente, pois há mais ouro em uma tonelada de computadores, do que em 17 toneladas de minério. No entanto, os aparelhos também contêm metais pesados como o chumbo, cádmio, berílio e mercúrio, que são muito nocivos à saúde e responsáveis por doenças do sistema nervoso, além do câncer. Em países pobres, a montanha de lixo eletrônico é manipulada de forma inadequada, sem proteção ou controle, normalmente por famílias com pouca orientação, incluindo crianças e idosos, tornando-se um problema social importante.

Em 2010, foi sancionada no Brasil a Lei nº 12.305, instituindo a política nacional de resíduos sólidos, em que se previa que em 2014 o descarte de lixo eletrônico não seria mais permitido em aterros ou lixões, e que os fabricantes seriam responsáveis por dar um destino correto aos materiais que os mesmos produzem. Porém, a regra ainda não funciona de maneira integral e tal atraso no cumprimento da legislação é visível: os comerciantes de lojas de celulares não recolhem o antigo aparelho na venda de um novo; da mesma forma, não é fácil encontrar o contato para requisitar ao fabricante a retirada do descarte de uma geladeira antiga e as secretarias municipais de meio ambiente não possuem programa de coleta seletiva dos resíduos.

Segundo o Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, o governo estima que a reciclagem do lixo eletrônico possui o potencial de gerar dez mil empregos e injetar R$700 milhões na economia brasileira. O que falta para que isso aconteça, então? Primeiro: é preciso mudar a cultura na busca de um consumo consciente e sustentável e avaliar a necessidade da troca do aparelho tecnológico. Quando for inevitável, é importante buscar ou exigir um modo adequado de descarte ou reaproveitar o recurso. Segundo: é importante demandar do poder públicas a definição de políticas efetivas e aumentar o apoio das ações de reciclagem especializada, como as cooperativas de reciclagem e indústrias de transformação de materiais. Afinal, que herança queremos deixar para as futuras gerações? Pense. Mude. Faça.

* Emerson Henrique da Silva é e coordenador do curso de Ciência da Computação da Faculdade Anhanguera de Cascavel e especialista em Tecnologia da Informação