Eventos, poucos modelos e ciclos longos: como a Xiaomi mantém seus preços baixos

Por Rafael Romer | 09 de Julho de 2015 às 10h22

A Xiaomi realizou nesta semana o primeiro de seus chamados eventos de compras no Brasil, marcando oficialmente a chegada de seus produtos no mercado nacional. E com tamanha expectativa de fãs com a estreia da companhia chinesa por aqui, não é surpresa para ninguém que a inauguração da loja digital da empresa tenha superado a previsão de vendas dela própria, que enfrentou problemas de tráfego na abertura das vendas.

Um dos maiores motivos para companhia de cinco anos ter feito tanto sucesso nos mercados onde atua - só no primeiro semestre deste ano, já foram 37 milhões de celulares vendidos - não é segredo: os dispositivos da empresa são conhecidos não só pela qualidade de acabamento, software e hardware, mas, principalmente, pelo preço baixo.

No Brasil, por exemplo, o primeiro smartphone da Xiaomi, o Redmi 2, foi lançado por R$ 499 - um valor bem competitivo para setor de intermediários do inflacionado mercado brasileiro de celulares. Mas como exatamente a companhia consegue manter seus preços baixos?

Em um papo com a imprensa, o vice-presidente internacional da Xiaomi, o ex-Googler Hugo Barra, abriu alguns dos detalhes sobre o processo de produção da companhia e esclareceu como funciona a estratégia de preços baixos da chinesa. A realidade é que os preços atingidos pela companhia são resultado não só de uma estratégia específica, mas de uma série de ações que cortam preços em vários locais da cadeia de produção - muitos deles herdados da lógica de startup que a companhia mantém.

Portifólio pequeno e de vida longa

Segundo Barra, tudo começa lá na ponta, na fabricação dos smartphones: a Xiaomi trabalha atualmente com poucos lançamentos de produtos, com no máximo quatro novos modelos por ano, focados nas famílias Redmi (Redmi 2 e Redmi Note) e Mi (Mi 4 e Mi Note). Isso ajuda a empresa a manter um portfólio enxuto, cortando custos de design, planejamento, manutenção e - principalmente - aquisição de peças para novos modelos.

"De cada um desses quatro modelos, a gente vai vender mais de 10 milhões de unidades", explicou. "Isso quer dizer que quando a gente vai comprar componentes, a gente compra um grande volume, então mantemos contratos muito bons com os fornecedores".

Em seguida, vem o segundo ponto importante para a manutenção de preços: os ciclos de vida longos de cada modelo. Hoje, cada smartphone da Xiaomi tem uma "vida útil" de cerca de 18 meses para a companhia, o que vai além de muitos modelos atualizados anualmente por fabricantes.

Barra citou o exemplo do smartphone lançado por aqui, o Redmi 2, apresentado pela primeira vez em janeiro deste ano: a expectativa da companhia é que o smartphone continue sendo "relevante" para a empresa até o final de 2016. Durante esse período estendido, a Xiaomi também vai promover cortes de preços nos produtos, já que o custo de produção de modelos mais antigos costuma cair após um período longo de fabricação.

"O custo do produto, se ele fica no mercado durante um tempo muito grande, cai vertiginosamente. E nossa margem aumenta no final da vida do produto", afirmou. "Então a gente consegue entrar com um preço muito agressivo no começo, que muitas vezes é nosso próprio custo de produção, porque a gente sabe que o produto é tão bom que vai ficar no mercado durante muito tempo".

Novamente, o Redmi 2 é um exemplo dessa estratégia: na última terça-feira (07), a empresa realizou um novo corte nos preços do modelo em mercados como a Índia e Singapura, de cerca de US$ 110 (R$ 350) para US$ 95 (R$ 300). Aqui no Brasil, no entanto, não há previsões para queda de preço do smartphone.

Hugo Barra

O vice-presidente internacional da Xiaomi, Hugo Barra, durante o lançamento da empresa no Brasil (foto: Bruno Hypolito/Canaltech)

"Custo de venda"

Outra peça-chave na estratégia da companhia é tentar reduzir o chamado "custo de venda" dos smartphones, que envolve gastos como distribuição e marketing. Para isso a empresa escolhe focar na venda de smartphones através do próprio site e não do varejo tradicional - que costuma levar até 30% em cima do preço final de um smartphone vendido em loja.

Com as vendas próprias, organizadas em dias e horários específicos, nos chamados eventos, e divulgadas através de mídias sociais e dentro da própria comunidade de fãs da empresa, o preço final do dispositivo pode ser reduzido.

Isso não significa que a empresa ficará de fora do varejo brasileiro, é claro, mas deve buscar uma forma "criativa" de desembarcar em lojas físicas antes de começar as vendas fora do site. "Em algum momento vai chegar no varejo, mas o varejo no Brasil é muito grande e a gente precisa achar uma forma criativa de chegar lá", comentou o executivo.

O mesmo vale para as operadoras de telefonia: a empresa hoje atua em parceria com diversasoperadoras em mercados como Singapura, mas sempre busca modelos diferentes de parcerias.

Durante a conversa, Barra afirmou que a empresa está começando conversas com operadoras no Brasil para buscar um modelo "diferente" de venda casada. De acordo com ele, o usuário da Xiaomi tem características muito particulares, como consumo alto de pacotes de dados, mas demanda por aparelhos baratos, o que pode demandar ofertas diferentes do que as operadoras oferecem tradicionalmente.

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