Especial Crowdfunding: quem se deu mal no financiamento coletivo

Por Stephanie Kohn | 18 de Agosto de 2017 às 17h35

Se você acompanhou a polêmica gerada pelo projeto do vencedor do Masterchef, Leo Young, e da empreendedora Bel Pesce, sabe quem nem sempre uma campanha de crowdfunding dá certo. Mesmo se os envolvidos são pessoas conhecidas.

Ambos, juntos de Zé Soares, do blog “Do pão ao caviar”, lançaram em agosto do ano passado um projeto na Kickante para abrir um restaurante. Mas os altos valores das contribuições virou piada na internet. As contribuições eram caras demais diante das recompensas recebidas. A proposta mais barata pedia R$ 60 em troca de um chaveiro, adesivo, camiseta, boné e passaporte carimbado. A campanha também não oferecia nenhum tipo de contribuição que gerasse participação no negócio - modelo de investimento comum que recebe o nome de ‘equity crowdfunding’.

Além das reclamações sobre os brindes, o projeto recebeu fortes críticas pelo fato de que os três sócios poderiam muito bem investir em seu próprio negócio. Young tinha acabado de ganhar R$ 150 mil pelo Masterchef e Bel Pesce, dona de quatro empresas, já havia arrecadado no passado nada menos que R$ 1,6 milhão em vaquinhas digitais.

No fim, as críticas foram mais fortes e o trio decidiu cancelar a campanha e devolver integralmente os valores arrecadados - cerca de R$ 14 mil. “ Sabemos bem o poder da internet. Temos negócios que foram potencializados pela distribuição que a internet é capaz de trazer. Mas foi a primeira vez que sentimos na pele o quanto uma percepção que não esteja alinhada com a intenção pode rapidamente produzir efeitos que te distanciam ainda mais da sua intenção. E, claro, falhas em comunicação podem intensificar essa percepção equivocada”, comentou Bel Pesce na ocasião.

Na mesma época, a jornalista Mariana (nome fictício) apostou em uma campanha para arrecadar dinheiro para o seu livro. Dos R$ 10 mil pedidos, ela conseguiu apenas R$ 1 mil. Qual foi o erro? Ela não se dedicou profundamente na divulgação do projeto por vergonha. “Tinha medo de ser inconveniente ao ficar pedindo contribuições para um projeto tão pessoal”, comentou.

A escritora acabou devolvendo as poucas doações e percebeu que, pelo seu perfil tímido, seria difícil emplacar um projeto neste modelo. Ela chegou a abandonar a ideia do livro e há poucos meses decidiu publicar uma versão online pela Amazon, sem custo. “Tenho que validar meu livro, saber se as pessoas vão gostar. Acho que ficarei mais segura para tentar novamente no futuro”, finalizou.

Já Anderson Costa dividiu sua experiência fracassada de crowdfunding em seu blog. Sua campanha no Catarse, publicada em 2014, para arrecadar fundos para uma pesquisa sobre coworkings no Brasil chegou a R$ 2.611 dos R$ 15 mil necessários. O projeto consistia em uma segunda etapa de uma pesquisa, iniciada em 2013, que foi realizada por meio de uma vaquinha em seu próprio blog.

“A viagem para cobrir a Coworking Europe 2013 foi bancada pelos leitores do blog, e resultou num material bem extenso que gera insights até hoje. Fazia sentido continuar nessa levada, já que a comunidade se mostra interessada pelo conteúdo que geramos”, escreveu.

Na percepção de Anderson, o segundo projeto não deu certo por dois motivos. O primeiro deles foi o valor. Apesar de a campanha descrever item a item o destino do dinheiro ele se deu conta de que “percepção de valor é tão importante quanto transparência.”

“Preferi apostar num caminho de ganha-ganha de fato, onde o valor de cada profissional envolvido fosse real. E esse valor real impactou bastante a percepção do projeto. Mesmo com uma via crucis da minha parte para esclarecer cada ponto do orçamento criado”, destacou.

Outro ponto que pode ter atrapalhado foi o networking que, segundo ele, talvez não tenha sido suficiente para trazer apoio de mais peso. Sendo assim, a segunda lição foi: todo esforço para buscar apoio é pouco. Busque sempre mais.

Nos três casos, o valor, recompensas e a divulgação foram os “vilões”. Mas nem sempre o fracasso do crowdfunding se resume a isso. O mais importante é o projeto em si. Uma campanha com produto fraco não vai pra frente, mesmo se os itens acima estejam corretos. E é aí que entra o maior benefício do modelo.

Segundo Candice Pascoal, fundador da Kickante, com o financiamento coletivo os realizadores podem verificar de antemão como o projeto é aceito pelos consumidores, como um teste de mercado sem custo. Murilo Farah, co-fundador do Benfeitoria, reforça: "com o crowdfunding ainda há redução de risco do empreendimento já que os autores dos projetos validam a proposta sem nenhum investimento prévio e só produzem as recompensas com o dinheiro no bolso."

Quer saber mais sobre o crowdfunding e as modalidades existentes? Leia nossa primeira matéria do especial. E não deixe de ver também as história e dicas de quem se deu bem no financiamento coletivo.