Empresas de tecnologia estão contratando mais pessoas com autismo

Por Redação | 30.05.2016 às 08:12

Foi-se o tempo em que pessoas com deficiências não tinham vez no mercado de trabalho, pelo menos com relação a autistas: grandes empresas, em especial as do segmento de tecnologia, têm contratado mais pessoas com autismo e não se trata do preenchimento de cotas, mas sim de valorizar características específicas desses profissionais.

O transtorno do espectro autista (TEA), ou somente autismo, faz com que a pessoa tenha determinados déficits na comunicação e na interação social em níveis variados, além de apresentarem comportamentos repetitivos e focarem seu interesse em áreas restritas, e essas características variam de acordo com o desenvolvimento cognitivo de cada um. “Em um extremo, temos os quadros de autismo associados à deficiência intelectual grave e déficit importante na interação social, e, no oposto, os chamados Síndrome de Asperger, casos de autismo sem deficiência intelectual, sem atraso significativo na linguagem e com interação social peculiar”, explicou a Associação de Amigos do Autista (AMA).

Apesar de, comumente, autistas terem hipersensibilidade à claridade, sons, cheiros e toques, pessoas autistas podem ter grande facilidade para lidar com conhecimentos matemáticos e tecnológicos, além de terem facilidade com música e artes em geral. Também costumam ter ótima habilidade de concentração, boa memória visual, interesse por tarefas metódicas e grande capacidade de reconhecer padrão ou seguir regras. Sendo assim, esses autistas têm características que as companhias valorizam.

Uma delas é a SAP, desenvolvedora de software que mantém um programa de incentivo à contratação de autistas chamado “Autism at Work” (“Autismo no Trabalho”). A empresa estipulou uma meta de ter 1% de seu quadro de funcionários formado por autistas até o ano de 2020, o que pode parecer um número baixo percentualmente falando, mas, na prática, significará bastante já que a companhia conta com 77 mil empregados.

No Brasil, a SAP já contratou duas pessoas autistas que atuam como desenvolvedores de software na SAP Labs em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Para recebê-los devidamente, a equipe da unidade foi capacitada por especialistas e os esforços foram reconhecidos por Márcia Machado, a primeira profissional com autismo admitida pela empresa. Ela disse que “é diferente trabalhar em uma empresa onde todo mundo já sabe alguma coisa sobre o autismo”. “Elas já sabem o que esperar e eu posso ficar mais à vontade. Uso óculos escuros no trabalho porque a luz me incomoda, e ninguém estranha”, contou.

Prós e contras

Em todo o mundo, uma em cada 68 crianças é diagnosticada com algum nível de autismo, de acordo com informações do Center for Disease Controle and Prevention (CDC). Estima-se que, no Brasil, cerca de 2,9 milhões de pessoas tenham esse transtorno e, segundo a ONU, em 2015, 80% dos adultos com autismo estavam desempregados.

Considerando esse cenário excludente, é louvável e importante a atitude de empresas como a SAP na inclusão de profissionais autistas no mercado de trabalho, valorizando suas características positivas. A companhia conta com a ajuda da Specialist People Foundation, que capacita profissionais com TEA para a área de TI e faz a ponte entre eles e as grandes corporações, como a HPE e a Microsoft. Aqui no Brasil, a iniciativa já qualificou outros 18 autistas para esse mercado de trabalho, e dois deles já foram contratados.

Por outro lado, a organização ressalta que são exigidos alguns critérios para que essa capacitação seja feita. Os interessados precisam apresentar um diagnóstico formal - o que pode ser complicado para pessoas de baixa renda, por exemplo - e ter um autismo de alto funcionamento, ou a Síndrome de Asperger - que é o quadro mais leve desse transtorno e, por não afetar tão severamente as habilidades sociais do indivíduo, seu diagnóstico é comumente mal interpretado. Ou seja, pessoas com um tipo mais severo de autismo ou que não tenham acesso a um diagnóstico adequado ainda ficam de fora.

Fonte: EXAME