Crise econômica e a nova geração de prestadores de serviços

Por Colaborador externo | 30 de Julho de 2015 às 08h01

Por Vitor Torres*

Em tempos de “vacas magras”, os empresários desenvolvem uma aversão aos riscos. Certo? Errado. Os fatos mostram que é justamente nesse período de dificuldades que surge uma geração de novos empreendedores, que recorrem à criatividade e à inovação para dar início a um novo ciclo de crescimento.

É verdade que, após se blindar dos efeitos da crise financeira dos EUA, que eclodiu em 2008 e espalhou seus efeitos sobre a economia mundial em 2009, o Brasil vem amargando um longo período de estagnação e recessão, iniciado em 2014, e sem data marcada para terminar. A onda de pessimismo e desconfiança no mercado, ampliada com o anúncio do ajuste fiscal pelo governo federal no início deste ano, é acompanhada por um duplo movimento recessivo: de um lado, o alto empresariado freia seus investimentos; do outro, a demanda retrai seu consumo em um ambiente de insegurança no mercado de trabalho, preços em alta e crédito restrito.

No entanto, mesmo considerado esse panorama de incertezas que rondam a economia brasileira, o empreendedorismo no país avança a passos firmes. Os números falam por si só: por conta também da queda no ritmo de geração de emprego no mercado tradicional e pela busca de novas oportunidades, mais de 800 mil empresas foram abertas no país entre janeiro e maio deste ano, segundo dados do Serasa Experian. O número é 69% superior ao verificado em 2010, ano de maior crescimento econômico do país desde o início da crise, quando foram criadas aproximadamente 575 mil empresas no mesmo período.

Em 2010, o PIB brasileiro atingiu o pico de 7,5%, puxado principalmente pelo aquecimento do consumo e do crédito. Agora, mesmo com o recuo do PIB em 0,2% no primeiro trimestre, após um ano de economia com crescimento próximo do zero, e considerado o cenário adverso de consumo retraído e juros apertados, o país assiste ao surgimento de mais empresas do que nos “tempos de bonança”. Isso quer dizer que, na prática, a oscilação do PIB pouco tem a ver com o nascimento de novos negócios no Brasil e que, mesmo em cenários de crise, o brasileiro tende a investir no seu próprio negócio.

Ainda segundo o estudo da Serasa, de janeiro a maio deste ano o número de empresas abertas no Brasil foi 3,4% a mais que no ano passado em relação ao mesmo período, e, somente nesses cinco primeiros meses, já foram criadas 44% das empresas que nasceram durante todo o ano de 2014. Novamente, as perspectivas negativas sobre a economia não parecem assustar os novos empreendedores.

Serviços

Os dados acima expostos reforçam a genética empreendedora do brasileiro, com atenção especial para o setor de serviços, que cresceu 19% nos últimos anos. A chamada “economia de serviços” tem assumido o protagonismo do mercado com inovação tecnológica, potencial de crescimento rápido, alta flexibilidade e geração de emprego. Hoje, o setor é responsável por 75% dos empregos formais no país e representa mais de 60% do PIB nacional (em 2010, representava 53,10%), acompanhando uma tendência mundial onde o setor terciário é fundamental para movimentar a engrenagem econômica como um todo.

A ascensão do setor é reforçada pelos dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP). Segundo levantamento recente, o setor de serviços é um dos que mais crescem no país. Só no Estado de São Paulo, cerca de 900 mil negócios atuam nessa área. Até 2020, o segmento deve ter quase 1,3 milhão de empresas.

Estudos internos da Contabilizei apontam para um rápido desenvolvimento do setor de Tecnologia da Informação (TI), representando 48% das empresas prestadoras de serviços abertas em um ano. Num mundo cada vez mais digitalizado e automatizado, o serviço de TI é considerado imprescindível nas estratégias de negócios das empresas.

O setor de serviços mais aquecido após o de TI, segundo a Contabilizei, é o de serviços administrativos, como gestão e consultoria. Em um ano, representaram 13% das novas empresas abertas pelo escritório de contabilidade online.

Uma área cujo crescimento interno coincide com a média de crescimento nacional é a publicidade, representando 8% dos novos negócios. Serviços de engenharia, design e arquitetura somam 4% das firmas abertas pela empresa.

Como se vê, a economia apresenta uma dinâmica interna muito mais complexa e contraditória do que quando observada na sua totalidade, de um ponto de vista macroeconômico. São as iniciativas empresariais de diversos setores não menos importantes para mover a locomotiva econômica de um país que apontam para uma recuperação do ambiente de negócios como um todo.

*Vitor Torres é fundador da Contabilizei, plataforma de contabilidade online especializada em micro e pequenas empresas prestadoras de serviços.

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