Como a realidade virtual pode mudar a educação

Por Joyce Macedo | 06.11.2015 às 09:13

É muito comum associarmos a realidade virtual (RV) com o universo dos games e entretenimento, uma vez que esse tipo de tecnologia é citado como o futuro dos jogos eletrônicos e sempre marca presença em filmes de ficção científica. Ainda estamos longe de atingir um nível Matrix de realidade virtual, mas a indústria tem feito avanços consideráveis na área e a aposta mais famosa no ramo de RV, atualmente, é o Oculus Rift.

Apesar de ter feito dos games sua porta de entrada para o mercado, a empresa que desenvolveu o equipamento acredita que há outras aplicações possíveis e muito mais amplas para a tecnologia. Palmer Luckey, fundador da Oculus VR, disse recentemente que o headset criado por eles vai chegar até as escolas, permitindo que os alunos aprendam de maneiras novas e imersivas.

No entanto, a realidade das salas de aula é bem diferente. Tablets, lousas interativas e até mesmo computadores não fazem parte da realidade da maioria das escolas espalhadas pelo Brasil e por outras partes do planeta, principalmente quando pensamos na nossa rede pública de ensino.

Além disso, a maioria dos estudantes ainda recebe educação com base em princípios de 200 anos de idade da pedagogia tradicional, que consiste basicamente na transmissão de conteúdo por parte do educador e na memorização por parte do aluno.

O advento do Ensino a Distância (EAD), por exemplo, adicionou uma nova camada de tecnologia e melhorias fundamentais ao ensino, com os estudantes utilizando plataformas digitais para o aprendizado e programas de análise que garantem que nenhum aluno fique para trás. No entanto, a realidade virtual pode oferecer algo muito mais interessante: a imersão capaz de gerar entusiasmo nos alunos.

Mas, afinal, como a realidade virtual pode ajudar na prática o aprendizado em sala de aula? Vamos elencar alguns pontos que merecem atenção.

1. Visitas de campo

Para o fundador da Oculus VR, as salas de aula estão enfrentando grandes problemas. "As crianças não aprendem o melhor lendo livros", disse Palmer Luckey durante uma conferência em Berlin, Alemanha.

"Claramente existe um valor em experiências do mundo real: nós fazemos as coisas. É por isso que temos as viagens de campo. O problema é que a maioria das pessoas nunca será capaz de ter essas experiências", disse o executivo, referindo-se às viagens realizadas por estudantes para estudar algo de perto.

Um exemplo do problema descrito por Palmer é o caso de alunos que moram em regiões como o nordeste do Brasil e que provavelmente nunca terão a oportunidade de fazer uma excursão até São Paulo para conhecer a Pinacoteca do Estado ou o Museu da Língua Portuguesa, pois esta não é uma viagem barata.

Podemos ir mais longe e imaginar quantos estudantes têm a oportunidade de conhecer o Louvre, em Paris. Um dispositivo como o Oculus Rift poderia funcionar como uma alternativa às viagens, uma vez que permitiria um alto nível de imersão e interação do usuário com uma "Paris virtual".

Críticos do método podem dizer que as experiências virtuais nunca serão iguais as reais; e eles estão certos. Porém, Palmer defende que "o que importa mais é que todo mundo será capaz de conhecer os lugares", mesmo que em um ambiente virtual. Com o auxílio de um headset, os estudantes poderiam sentir como se realmente estivessem andando pelos corredores dos museus mais importantes do mundo.

O Google entendeu o potencial da realidade virtual nas salas de aula e já começou a dar sua colaboração para a evolução do segmento. No primeiro semestre de 2015, a empresa anunciou o lançamento do projeto "Google Expeditions", que visa proporcionar viagens virtuais a diversos alunos de países como o Brasil, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido.

Os kits distribuídos nas escolas escolhidas contam com smartphones da ASUS, um tablet para os professores, um roteador que dispensa uma conexão com a internet e o Google Cardboard, óculos de realidade virtual feitos de papelão e elásticos. Com a novidade, os professores podem guiar os alunos por passeios virtuais a locais como a Sociedade Planetária, na Califórnia, o Museu Americano de História Natural, em Nova York, e o Palácio de Versalhes, na França.

2. Uma alternativa para os livros

Durante anos, a humanidade repassou seu conhecimento por meio de livros didáticos, mas agora isso pode ser feito por meio de simulações virtuais. Já existem experiências virtuais que permitem visualizar o Sistema Solar, andar com os dinossauros, mergulhar com baleias e até mesmo caminhar pelas ruas da Roma antiga. Grande parte delas foram desenvolvidas pela startup Immersive VR Education, especialista em criar maneiras de usar a realidade virtual no ensino.

O projeto mais notável da empresa é o chamado "Apollo 11", que permite aos usuários experimentar todo o pouso na Lua a partir da perspectiva de Neil Armstrong. Uma experiência como esta é muito mais poderosa do que a leitura de um curto parágrafo sobre este acontecimento histórico em um livro.

É preciso lembrar que nem todos os estudantes possuem as mesmas facilidades de aprendizado, logo, o mesmo livro dificilmente será adequado para ensinar milhares de pessoas – como acontece atualmente. No entanto, a oportunidade de ver algo com seus próprios olhos pode facilitar a absorção do conhecimento, seja um acontecimento histórico ou o processo de divisão celular.

3. Simulação em situações de risco

A realidade virtual é uma alternativa particularmente útil para profissões de risco, como medicina, construção civil e treinamentos militares. Os headsets permitem simular qualquer tipo de situação em um ambiente seguro, incluindo cirurgias com imagens tridimensionais do corpo humano.

Durante a Build 2015, a Microsoft também apresentou seus projetos relacionados ao assunto. Na ocasião, a empresa demonstrou o uso do HoloLens, seus óculos de realidade aumentada, a partir de uma perspectiva médica, voltada principalmente para a educação.

Para isso, a empresa levou estudantes ao palco para mostrar como eles poderiam usar o fone de ouvido VR e os óculos para estudar anatomia. A tecnologia permitiu que eles examinassem as várias camadas do corpo humano e dessem zoom em ossos e órgãos específicos. Uma parceria com universidades e institutos de saúde permitirá recriar modelos tridimensionais do corpo humano e, futuramente, a novidade deve ser estendida para áreas como arquitetura, engenharia, entre outras.

A capacidade de introduzir o conhecimento prático na sala de aula, sem colocar alunos e terceiros em risco, adiciona um valor inestimável à experiência educacional. O estudo de um projeto que envolve a segurança de um canteiro de obras, por exemplo, pode ser beneficiado com a criação de um ambiente virtual de uma construção onde os alunos precisam encontrar instalações que não são seguras, algo que não seria viável sem o auxílio da RV.

Windows Holographic

Demonstração do uso do HoloLens, da Microsoft, para ensino de Medicina (Imagem: Reprodução)

4. Maior integração social dos alunos

O uso de novas tecnologias pode ajudar a resolver alguns problemas sociais encontrados nas salas de aula. Alunos mais tímidos podem ser estimulados a sair do isolamento com o auxílio de estímulos mais dinâmicos, assim como aqueles que enfrentam dificuldades com matérias como matemática, por exemplo, podem sentir-se mais confiantes ao descobrir novas habilidades com a tecnologia.

A tecnologia de realidade virtual pode se adaptar a diferentes necessidades e estilos de aprendizagem de cada estudante. Além disso, a presença de métodos mais interativos de estudo pode criar ótimas oportunidades para trabalhos em grupo.

Google Expeditions

Projeto Google Expeditions (Imagem: Divulgação)

Estes são apenas alguns exemplos de como a realidade virtual pode ser aplicada à educação, mas o avanço da tecnologia e o crescente número de aplicativos e de hardwares de RV – como o Oculus Rift, HoloLens, Google Cardboard, Samsung Gear VR, HTC Vive, entre outros – indica que este pode ser apenas o começo de uma fase muito importante para a pedagogia.

Há quem diga que a realidade virtual tem o potencial de revolucionar a educação da mesma forma como a leitura e a escrita fizeram há milhares de anos; e você, concorda ou acha que a RV não ganhará proporções tão grandes?