Como a Kickante passou de plataforma de crowdfunding para fintech

Por Stephanie Kohn | 18.07.2017 às 13:25

A Kickante começou como uma plataforma tradicional de crowdfunding, promovendo vaquinhas coletivas para tirar ideias do papel, mas logo percebeu que era possível expandir. Hoje o site conta com mais dois novos produtos: o Clube Mensal de Contribuições, que continua arrecadando dinheiro aos projetos que já tiveram suas campanhas de financiamento encerradas, e o Eventos do Bem, voltados apenas para ONGs.

Nesta modalidade, as boas almas que se sensibilizem com as causas podem iniciar uma campanha de arrecadação em nome das organizações e toda o dinheiro coletado é enviada diretamente às instituições, evitando fraudes.

Na entrevista abaixo, batemos um papo com a fundadora e CEO da plataforma, Candice Pascoal, que já faturou o Prêmio Internacional da Cartier que homenageia mulheres que geram grande impacto ao país por meio de negócios sociais.

Canaltech: Pode explicar resumidamente como o Kickante funciona?

Candice Pascoal: Trata-se de uma plataforma de crowdfunding, que é um financiamento coletivo, uma forma de arrecadação de fundos. Atuamos da seguinte maneira: quando uma pessoa tem um projeto, mas não tem meios de torná-lo realidade, ela pode entrar em contato conosco e contar sua história. A partir daí, elaboramos dicas e orientações para que a mensagem seja transmitida de forma clara, a campanha seja um sucesso e atinja sua meta.

A ideia é que qualquer pessoa interessada consiga colaborar, com o valor que puder, para que um sonho ou projeto seja realizado. Por exemplo: se você quer criar seu próprio negócio, mas ainda não tem a quantia suficiente para iniciá-lo, você pode lançar uma campanha de financiamento coletivo e pedir ajuda para que as pessoas que acreditam no seu projeto - é o que chamamos de financiamento das multidões.

Além disso, criamos um marketplace financeiro como nenhum outro existente no mercado global, que conta com 3 produtos que ajudam o brasileiro a captar da forma que mais lhe convier: o Crowdfunding, o Clube Mensal de Contribuição e o Eventos do Bem, que tem mais de 300 ONGs cadastradas na plataforma.

CT: E como a Kickante ganha dinheiro?

CP: Para a empresa se sustentar financeiramente, cobramos uma taxa de 12% sobre o valor arrecadado na campanha. Depois das taxas pagas aos bancos, ficamos com cerca de 10% dos valores captados.

CT: A Kickante foi uma das 5 vencedores do prêmio Fintech Awards Latam este ano. Como a Kickante foi parar nesta premiação e o que trouxe de positivo?

CP: Nos inscrevemos pelo site do prêmio e oferecemos informação sobre a empresa. Ganhar o prêmio começou há quatro anos, quando estávamos escrevendo as funcionalidades e usabilidade do site, e continua até hoje. Fazemos melhorias diárias na tecnologia da Kickante. É um grande investimento da empresa.

O principal benefício é a visibilidade, sem sombra de dúvidas, e o reconhecimento de um trabalho bem feito. Usabilidade é uma das maiores preocupações da empresa e sabemos que somos bons demais nisso. Ver uma instituição renomada, com jurados importantes reconhecendo esse feito é muito bom. É um prêmio importante e estamos honrados, principalmente por termos vencido na categoria usabilidade.

CT: Em 2009 rolou uma explosão de sites de crowdfunding puxado pelo Kickstarter. A Kickante surgiu nesta época? O que a Kickante tem de diferente em relação aos demais sites?

CP: Nesta época de explosão do crowdfunding eu estava liderando empresas de grande porte nos EUA e Europa. Trabalhei na indústria da música e vi de perto as mudanças deste setor e a queda de diversas empresas da área por não saberem como lidar com o mundo digital. Além disso, atuando com consultoria de arrecadação de fundos para as ONGs, percebi que tudo era feito com um custo enorme, o que acabava inviabilizando a arrecadação em massa para a maioria das instituições. Foi neste momento que identifiquei as possibilidades oferecidas pelo crowdfunding, pois através dele qualquer pessoa pode arrecadar fundos e tirar seus projetos do papel. Empolgada com o poder transformador e social dessa ferramenta, decidi investir no segmento no Brasil.

Mas pesquisando o mercado de crowdfunding concluí que o que vivíamos no exterior ainda estava muito atrás do Brasil. Resolvi, então, deixar uma carreira executiva com alto salário para liderar uma startup de impacto social. Junto com meus sócios, meu irmão Diogo Pascoal e Viviane Sedola, enxergamos no crowdfunding o potencial de democratização, de oferecer o poder para que qualquer pessoa conseguisse tirar seus projetos e sonhos do papel.

CT: Além da arrecadação de recursos, o que a Kickante traz de positivo para um negócio iniciante. Acredito que a visibilidade e contato com o consumidor seja interessante, não é?

CP: Sim! Através da campanha de crowdfunding é possível saber se um determinado serviço ou produto fará sucesso entre os consumidores. Muitas empresas, inclusive, já utilizam o crowdfunding para analisar o mercado, o comportamento do consumidor e descobrir coisas como: quantos acessos, compartilhamentos e em qual canal minha campanha obteve melhor desempenho? devo criar variações de produtos? quais obtiveram melhor aceitação? quantos itens posso produzir sem haver desperdício?

Além disso, temos Campanha Tudo ou Nada, comum no Brasil, mas também temos a Campanha Flexível em que você leva o que arrecada. Aceitamos doações parceladas em até 6x e adiantamos o valor para nossos criadores. Temos um painel de controle 100% transparente ligando sua campanhas às instituições financeiras para que acompanhe com segurança suas contribuições em tempo real. Somos a única no Brasil com link de arrecadação aprovado para os vídeos do Youtube, assim você pode viralizar sua campanha e arrecadar rapidamente. Também fazemos todo o follow up administrativo com pagamentos não concluídos, permitindo que as pessoas foquem na divulgação. Temos uma assessoria de imprensa trabalhando full time para nossas campanhas. Temos solução de Clube de Contribuição mensal acoplado a campanhas de crowdfunding, aumentando assim a conversão, e maximizando esta base de contribuidor mensal. Oferecemos um mini blog para atualizar seguidores e doadores, além de criar vínculo mesmo após a campanha haver acabado. Ao término da campanha é possível gerar uma lista em excel com todos os dados dos contribuidores, fomentando a base. Temos time no Brasil, Europa e EUA e trabalhamos muito conjuntamente com nossos criadores fomentando sua campanha com dicas do que dá aumenta as chances de sucesso da sua campanha ao redor do mundo. E, por fim, temos treinamento em marketing digital durante sua campanha.

CT: Como você vê o mercado de Fintech no Brasil?

CP: O Brasil está atrás do mercado internacional em alguns quesitos e muito à frente em outros, por exemplo, há 20 anos atrás quando fiz meu primeiro estágio na França, online banking estava na sua fase inicial no país, e já existia no Brasil há algum tempo. Hoje isso ainda se prova real: estamos avançados no que diz respeito à tecnologia e legislação relacionadas à bancos digitais, como o NuBank, do que o exterior. Acho o brasileiro um dos povos mais criativos e inteligentes, espero que o avanço das start ups traga cada vez mais democratização no desenvolvimento do nosso país.