Como a China aproveita a recessão dos EUA para recrutar profissionais de TI

Por Rui Maciel | 13 de Maio de 2020 às 21h15
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Se os Estados Unidos estão ainda enfrentando o pico da pandemia gerada pela COVID-19, a China, onde tudo começou e cuja epidemia está sob (relativo) controle, já está olhando para frente. Prova disso é que o governo do país asiático está recrutando trabalhadores de tecnologia norte-americanos, atingidos pela recessão. E para atraí-los, os chineses vêm oferecendo salários na casa do milhão de dólares e prêmios de até US$ 3 milhões para startups, a partir de competições online de tecnologia, que se parecem com aqueles game shows transmitidos na TV.

Uma reportagem do documento da Strider Technologies, startup de inteligência, especializada na proteção de propriedades intelectuais afirma que seis mil empresas chinesas buscaram talentos da área de TI na conferência de recrutamento online da Gathering Global Talents, que ocorreu em março último. Neste evento, as companhias buscam preencher até 100 mil posições somente em Xangai, para áreas como 5G, Big Data, Inteligência Artificial, circuitos integrados, entre outros. Na cerimônia de abertura, hubs profissionais em Nova York, São Francisco, Tóquio e outras cidades se uniram por videoconferência.

Já uma competição de startups chamada Fight the Pandemic, Attract Talent ("Lute contra a Pandemia, Atraia Talentos, em tradução livre) ofereceu a trabalhadores de TI salários de até US$ 1,1 milhão por ano, para que eles se mudem para a cidade de Hangzhou, capital da província chinesa de Zhejiang para atuar nas empresas locais. Além disso, as startups vencedoras dessa competição podem ganhar até US$ 700 mil em prêmios. A competição exige que os participantes enviem digitalizações de seus diplomas e passaportes que, segundo os organizadores do evento, "serão divulgados publicamente a todas as principais empresas e instituições de Hangzhou".

"Eles estão acelerando tudo o que podem, enquanto ainda estamos no meio da pandemia", afirmou Greg Levesque, CEO da Strider Technologies ao site Business Insider. Na última terça-feira (11), a empresa divulgou uma pesquisa que, segundo o CEO da Strider, mostra "a formação de toda a estrutura de recrutamento online" projetada para envolver os trabalhadores americanos que têm seus empregos em risco. "A atração é absolutamente focada em dinheiro, em um momento em que as pessoas aqui estão vulneráveis. Você é um alvo fácil neste momento".

Wuzhen Summit: evento de Tecnologia chinês usado para atrair talentos de TI dos EUA

Jim Lewis, um experiente analista especializado em Recrutamento e Espionagem chinesas no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, localizado em Washington, DC, diz: "A maior atração da China é seu dinheiro e eles estão dispostos a gastar. E isso pode criar uma política de transferência de tecnologias que não é do interesse da América ". Lewis diz que vê a China pressionando para aproveitar a oportunidade atual de recrutar tecnologias e talentos. "A coisa está realmente intensa agora."

E o panorama pintado por Levesque e Lewis encontra eco no cenário econômico dos EUA. Em apenas sete semanas, mais de 33 milhões de americanos entraram com um pedido de seguro-desemprego. As principais empresas do Vale do Silício também foram duramente atingidas, com o Airbnb demitindo 1.900 funcionários, a Lyft (app de viagens compartilhadas) 1.000 pessoas e a sua rival Uber, com perspectivas em dispensar até 3,7 mil empregados. Até memso a tecnologia corporativa, tido como um setor mais sólido, não é imune: na VMware, os salários estão congelados e a Glassdoor - especializada em recolocações - cortou 300 empregos.

A China vê a turbulência causada pela pandemia da COVID-19 como uma oportunidade para acelerar o recrutamento de talentos no exterior e melhorar rapidamente sua posição na economia global de tecnologia. Segundo Levesque: "Há um verdadeiro senso de urgência na China agora no nível de liderança. Eles vêem que há uma janela de oportunidade para eles que está se fechando."

O LinkedIn tem sinal verde na China

Se as redes sociais do Facebook estão proibidas de atuar no mercado chinês, o mesmo não acontece com o LinkedIn. Hoje, a rede social corporativa é a única plataforma de social media ocidental permitida na China - devidamente controlada pelo governo local, que censura temas que não são do seu interesse.

A plataforma, controlada pela Microsoft, é preferida pelas empresas chinesas para o recrutamento de profissionais estrangeiros. Elas, geralmente, procuram promover determinadas cidades chinesas como destinos para talentos dos EUA. Em um post publicado no final de abril, Fernando Hu, proprietário da Hope Square Investment diz: "Xangai tem vantagens em instituições, economia, ambiente de negócios, talento e cultura".

"O LinkedIn, de propriedade da Microsoft, é outro veículo para desinformação em potencial e, mais importante, ideal para o recrutamento para fins de espionagem, dizem autoridades americanas", afirmou o The New York Times em setembro. O jornal disse que as agências de inteligência ocidentais emitiram alertas sobre agentes estrangeiros, especialmente chineses, que abordam milhares de usuários no site.

Relatório que mostra como os chineses se aproximam de profissionais de TI para prática de espionagem

Além disso, agências de inteligência estrangeiras documentaram como os agentes chineses abordam os trabalhadores ocidentais, com mensagens diretas no LinkedIn. Nelas, eles oferecem ajuda para encontrar novas oportunidades na China, oferecem uma viagem paga ao país asiático, pagam antecipadamente por serviços de propriedade intelectual e iniciam um relacionamento contínuo com o profisisonal.

Espionagem corporativa

A espionagem corporativa da China levou a processos de alto nível. Os promotores norte-americanos alegam que dois ex-engenheiros da Apple roubaram mais de dois mil arquivos contendo "manuais, esquemas, diagramas e fotografias de telas de computadores e mostrando páginas de bancos de dados seguros da Apple". Um deles foi preso em janeiro deste ano, a caminho do Aeroporto Internacional de São Francisco para uma viagem à China. Os promotores dizem que o outro engenheiro estava de posse de um plano de mísseis Patriot, pertencente à empresa Raytheon, que tem contratos com o governo dos EUA no valor de US$ 27 bilhões.

O FBI observou o aumento da espionagem do governo chinês em fevereiro. "Os chineses estão usando um conjunto crescente de métodos não tradicionais, legais e ilegais, misturando coisas como investimentos estrangeiros e aquisições corporativas, aliado à intrusões cibernéticas e espionagem corporativa", disse o diretor do FBI, Christopher Wray.

Seja o recrutamento online agressivo de talentos em tecnologia ou abordagens privadas no LinkedIn que cruzam a linha da espionagem corporativa, o fato é que os esforços online da China podem ser bem eficazes. Um comunicado de imprensa divulgado no dia 30 de março, promovendo uma competição online - onde os profissionais de tecnologia americanos deveriam lançar projetos empresariais de 5G - de alguma forma chegou ao site de uma afiliada da rede de TV CBS, em Charlottesville, Virgínia . As startups vencedoras podem receber até US$ 1,4 milhão em prêmios, além de mais US$ 1,4 mihão em financiamento e um subsídio de moradia.

E por que isso chama a atenção? Porque Charlottesville é a sede da Universidade da Virgínia, um dos principais centros de pesquisa 5G dos EUA e que luta contra a influência estrangeira indevida em seus trabalhos.

Para Levesque, o comunicado à imprensa, provavelmente, não foi obra de membros de uma conspiração contra os EUA - mas também não chegou lá acidentalmente. Para ele, este é um sinal de quão eficaz é uma proposta online feita pelo governo da China, no momento em que trabalhadores americanos foram atingidos pela recessão e estão vulneráveis.

Ainda de acordo com o CEO da Strider, entre as ações promovidas pela China, há outros casos de espionagem, nos quais funcionários chineses de biotecnologia são pagos para permanecer em empresas americanas e fornecer informações confidenciais. "Alguns dos recrutas são entrevistados por funcionários do governo, que desejam que eles forneçam conhecimentos técnicos e de propriedade intelectual. Vimos casos de indivíduos que são solicitados a permanecer em suas posições dentro de empresas nos EUA, e é onde eles estão agora", declarou Levesque.

Fonte:  Strider Tech / Business Insider 

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