Cientistas descobrem o que acontece no cérebro de um usuário de LSD

Por Redação | 13 de Abril de 2016 às 06h29

Pela primeira vez na história, pesquisadores monitoraram as funções cerebrais de uma pessoa enquanto ela usava LSD para observar, de fato, quais os efeitos do ácido lisérgico no cérebro do usuário. Os resultados foram publicados na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), que é a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

O time de cientistas foi liderado por Robin Carhart-Harris, do Imperial College de Londres, e demonstrou o quanto a substância alucinógena ativa determinadas regiões do cérebro, enquanto reduz a função de outras. Além desse estudo ajudar pesquisas sobre a consciência humana, um outro benefício do projeto é incentivar o interesse da comunidade médica no uso de drogas psicodélicas para fins terapêuticos, além de inspirar outros pesquisadores a continuarem estudando os efeitos do LSD no cérebro humano.

efeitos do LSD no cérebro

A imagem mostra a diferença entre um córtex visual normal (à esquerda) e o de um cérebro sob o efeito do LSD (à direita). (Reprodução: R. Carhart-Harris/Imperial College London)

Mesmo com inúmeros indícios e pesquisas não-científicas sobre o uso benéfico da droga no nosso organismo, ainda há pouco interesse por parte de médicos e cientistas no estudo dos efeitos positivos de substâncias alucinógenas no cérebro. Isso porque no final da década de 1960 o LSD foi criminalizado e ainda tem seu comércio e uso proibido em diversos países do mundo (incluindo o Brasil). Sendo assim, até mesmo estudiosos das ciências médicas têm dificuldade para conseguir autorização para conduzir estudos com essa substância.

Para o estudo, a equipe de cientistas recrutou vinte voluntários saudáveis que já tiveram experiências com a droga anteriormente - critério importante para saber que o indivíduo não teria problemas de saúde após seu uso. Além disso, colocar em um scanner cerebral uma pessoa sob efeito alucinógeno que nunca experimentou o LSD anteriormente poderia gerar episódios de ansiedade e claustrofobia. Foram usadas diferentes técnicas de obtenção da imagem cerebral, incluindo a imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) e a magnetoencefalografia (MEG) nos participantes que receberam uma dose padrão da droga (75 microgramas), enquanto outros receberam uma substância placebo feita de uma solução salina inofensiva. Então enquanto os voluntários que receberam a dosagem de LSD tinham seus cérebros escaneados, as máquinas registravam as alterações no órgão - e os resultados foram comparados com os relatos da “viagem” feitos pelos usuários em seguida.

Os resultados mostraram exatamente em qual parte do cérebro consta a alteração necessária para justificar as alucinações visuais dos usuários - o córtex visual. “Sob a influência do LSD, a rede neural dentro do córtex visual experimenta uma expansão marcante na comunicação”, disse Carhart-Harris, que também revelou que essa comunicação “fica muito menos restrita e confinada ao sistema visual, resultando em mais áreas do cérebro contribuindo para a experiência visual”.

efeitos do LSD no cérebro


As comunicações que acontecem no córtex visual sob o efeito do placebo em comparação aos cérebros sob efeito do LSD, e a diferença entre os dois (Reprodução: Imperial College London)

Outra conclusão relevante foi com relação à chamada “morte do ego”, em que a pessoa sob influência do ácido tem uma experiência quase que transcendental com relação ao “eu”, muitas vezes tendo revelações sobre quem somos, de onde viemos e o que estamos fazendo aqui na Terra. “Drogas psicodélicas são um lembrete austero de que nosso senso de ‘self’ é precário. Sob o efeito do LSD, a consciência permanece intacta, mas o que se perde é a sensação de ter um ego”, explicou o líder do estudo. A razão científica para que esse efeito ocorra estaria ligada a uma rede particular dentro do cérebro que é responsável pela autoconsciência - o hipocampo e o córtex retrosplenial. Quando sob o efeito do alucinógeno, o cérebro apresenta uma redução na conectividade dessas áreas, resultando nessa sensação de perda do ego.

O LSD é composto basicamente por uma mistura feita com ácido lisérgico e dietilamida, sendo popularmente conhecido como “ácido” ou “doce” - esse último termo mais popular entre os usuários cativos da droga -, e foi sintetizado inicialmente por um cientista suíço chamado Albert Hofmann em 1938. “Viagens” com ácido têm semelhanças notáveis com certos distúrbios psicológicos, como a fase inicial da psicose, esquizofrenia e depressão, então os cientistas esperam que drogas como essa possam ser utilizadas para dar uma espécie de “reboot” no cérebro dos pacientes, como uma maneira de remover essas instabilidades. No entanto, o líder da equipe científica admite que isso pode levar muito tempo para acontecer, uma vez que a sociedade ainda não aparenta estar aberta ao uso de drogas ilícitas como drogas terapêuticas.

Fonte: Gizmodo