Briga entre EUA e Huawei pode afetar futuro da empresa chinesa

Por Rafael Rodrigues da Silva | 28 de Agosto de 2019 às 16h50
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Apesar da Huawei nunca ter tido grande influência no mercado dos Estados Unidos, isso não quer dizer que a empresa não possui interesse nele. E esse interesse ficou bem claro quando, em 2001, a empresa inaugurou nos EUA a Futurewei, um laboratório de pesquisa e desenvolvimento que tornou a empresa chinesa parte integrante de toda a onda de desenvolvimento existente no país no início do século e que culminou no atual mercado de smartphones.

Mesmo tendo o foco de suas vendas na China e na Europa, a existência da Futurewei — assim como os bilhões de dólares investidos nela — permitiu que a Huawei participasse ativamente das mesmas discussões, simpósios e grupos de pesquisa que a Apple, a Google e diversas outras empresas americanas, fazendo da chinesa uma participante ativa na evolução das tecnologias que ocorreram dentro do território americano.

A importância da Futurewei

Uma das sedes da Futurewei nos Estados Unidos (Imagem: Huawei)

Pelos planos da Huawei, a Futurewei seria o primeiro passo de uma expansão para o país, e os investimentos e participação direta no cenário de pesquisas ajudariam a preparar o cenário não apenas para o oferecimento de smartphones, mas principalmente para mostrar que a Huawei é uma empresa dedicada ao desenvolvimento de novas tecnologias, além de abrir caminho para oferecer às operadoras americanas os equipamento para a instalação de redes 5G — setor este que a empresa sempre liderou, tanto em qualidade quanto em preço.

Mas a recente ofensiva do presidente dos Estados Unidos à marca — ataque esse que se iniciou em 2018 e chegou em seu ápice quando a Huawei foi colocada numa lista negra que a impede de fechar negócios com qualquer companhia dos Estados Unidos — acabou obrigando a empresa a demitir funcionários ao fechar escritórios da Futurewei, além de finalizar as parcerias que mantinha com universidades do país.

Ainda que o motivo das sanções seja primariamente comercial, já que os Estados Unidos veem a Huawei como o principal empecilho para que o país domine a transição para o 5G do mesmo modo que dominou a transição para o 4G, o ato de colocar a Huawei e outras 69 subsidiárias da empresa chinesa na “lista negra” do país acaba sendo um enorme golpe também contra a Futurewei, já que esse bloqueio também significa que todos os seus laboratórios e escritórios transfiram propriedade intelectual ou troquem segredos de produção com a empresa chinesa, o que significa que qualquer projeto que seja completado pela Futurewei depois da inclusão da Huawei na “lista negra” não poderá ser usado em um novo produto da empresa.

Isso acontece porque, apesar de ter sido uma criação da Huawei, a Futurewei funciona como uma organização independente e, como foi criada nos Estados Unidos, para fins fiscais é considerada uma empresa americana. Assim, as sanções feitas à Huawei que impedem a empresa de, por exemplo, comprar chips da Intel, também a impedem de trocar informações com o seu próprio braço de desenvolvimento dentro dos Estados Unidos.

Por isso que, no mês passado, a empresa demitiu 600 funcionários da Futurewei — número que significa que a empresa mandou embora praticamente metade do seu time de pesquisas no país. O restante da equipe continuará alocado para finalizar projetos que já estão em andamento, mas ainda há uma enorme preocupação com o futuro da Huawei como parte do ecossistema de pesquisa em inovações tecnológicas nos Estados Unidos.

Esses projetos continuarão, como uma forma de manter a empresa no país enquanto os executivos da Huawei insistem em negociar com a Casa Branca pelo fim das sanções comerciais à companhia. Mas, de acordo com analistas de mercado, essas conversas podem demorar muito mais do que o tempo suficiente para a finalização desses projetos, o que praticamente obrigaria a Huawei a fechar todo o seu setor de pesquisa e desenvolvimento e abandonar de vez o país — e isso poderia feri-la muito mais do que qualquer proibição de venda.

Golpe no futuro

Mesmo que a Futurewei não represente a maior parte da receita da Huawei para desenvolvimento e pesquisa, o órgão possui um papel muito importante no desenvolvimento da companhia, pois o fato de estar localizado no mesmo pólo onde existem algumas das melhores universidades de tecnologia, as maiores empresas de inovações tecnológicas e os principais investidores do mercado de tecnologia faz com que ela tenha uma importância estratégica que nenhum outro laboratório da empresa chinesa possui.

Ainda que não seja possível medir com exatidão o que significaria o fim da Futerewei — até porque é impossível mensurar algo como “futuras inovações tecnológicas que ainda não existem” — uma olhada rápida para a história dessa empresa de pesquisa deixa claro qual a importância dela para a Huawei. Isso porque a Futurewei está diretamente ligada à inovações de todos os setores mais importantes da Huawei, sendo responsável, por exemplo, pelo desenvolvimento do algoritmo que permite a encriptação em tempo real de todos os dados transmitidos por uma rede 5G.

Por isso, abandonar o país nas condições atuais seria um desastre para a Huawei, pois ela não apenas seria expulsa do melhor ecossistema para inovação tecnológica que existe hoje no mundo, como ainda seria obrigada a abrir mão das patentes de todas as suas invenções mais recentes — por causa do bloqueio comercial, todas as patentes da Futurewei que foram registradas depois da entrada da empresa chinesa na “lista negra” do país não pertencem mais à Huawei, mas ao governo americano.

Por enquanto, a impressão é de que a Huawei estaria tentando ao máximo “enrolar” seus projetos e garantir alguma — mesmo que pouca — presença nos Estados Unidos por pelo menos mais dois anos. Afinal, em 2020 haverá eleições, e a possibilidade de uma mudança na administração do país poderia garantir uma maior abertura de negociações para a empresa chinesa. Mas alguns analistas políticos não tratam a questão com otimismo: a Huawei seria vista como uma ameaça à soberania nacional e aos interesses americanos por congressistas dos dois maiores partidos do país, então é bem provável que as sanções à empresa não mudem mesmo no caso de Trump não ser reeleito.

Isso quer dizer que, mesmo que a empresa não tenha nenhum plano de sair dos Estados Unidos, caso não ocorra nenhuma mudança na situação política do país nos próximos meses, ela pode não ter outra opção a não ser abandonar tudo o que já produziu no país, além de se desfazer de todas as suas tecnologias desenvolvidas de maio deste ano para frente — uma perda inestimável mesmo para aquela que é hoje a segunda maior fabricante de smartphones do mundo.

Claro, a companhia já está se preparando para o eventual abandono dos Estados Unidos, e além de já ter fechado parcerias com mais de 300 universidades ao redor do mundo, já iniciou o desenvolvimento da pesquisa para a tecnologia 6G no Canadá. Como líder global no segmento de telecomunicações, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento da Huawei não têm data para parar. Mas é uma pena para todos os envolvidos que as chances dos Estados Unidos não fazerem parte desse futuro é cada vez maior.

Fonte: CNN

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