Briga com editoras pode afetar negócios da Amazon no Brasil

Por Sérgio Oliveira | 15.08.2014 às 13:50

Há três meses a Amazon vem travando uma batalha digna da saga bíblica de Davi e Golias com a comunidade literária que alega estar sendo prejudicada pela varejista norte-americana. O conflito de interesses veio à tona depois que o jornal The New York Times noticiou que as duas partes estavam em rota de colisão devido a clásulas contratuais.

Irritada com a insatisfação de algumas centenas de editoras e autores, a Amazon decidiu retaliar, aumentando os preços e o prazo de entrega dos livros de quem estava reclamando. Como se não fosse suficiente, o site ainda passou a oferecer livros similares de outras editoras com preços menores.

A prática, vista pelos autores como desleal, foi o estopim e na última semana o mesmo The New York Times publicou uma carta assinada por nada mais nada menos que 909 escritores. Nela, nomes de peso como Stephen King, Paul Auster e James Patterson pedem que a Amazon "pare de prejudicar a vida dos autores com os quais construiu negócio". Além disso, eles convocam os leitores a entrar em contato com Jezz Bezos, fundador e presidente executivo da Amazon, para "dizer a ele o que pensam sobre isso".

A Amazon, por sua vez, já se defendia antes mesmo do ataque dos autores. Em uma mensagem divulgada no último sábado (9), a norte-americana disse que "nunca desistirá" de lutar por "preços razoáveis". A luta a que a companhia se refere diz respeito à tentativa de reduzir os preços dos e-books da editora Hachette, a quarta maior do mundo, para US$ 9,99, enquanto ela quer cobrar mais por eles.

Ao jornal Folha de S.Paulo, Arnaud Nourry, diretor-executivo da Hachette, disse que não se trata de reduzir ou aumentar os preços, mas apenas de negociação de boa fé. "Essa disputa começou porque a Amazon está buscando lucrar muito mais em detrimento dos autores e das editoras", disse o executivo. "Mais uma vez, pedimos que a Amazon retire as sanções. Queremos negociar de boa fé", exclamou.

Briga pode influenciar negócios no Brasil

Embora o mercado há muito aguarde o pontapé inicial da venda de livros físicos da Amazon no Brasil e várias editoras do país já tenham fechado contrato com a varejista, a verdade é que há um clima de apreensão no setor devido às brigas da companhia com a comunidade literária nos Estados Unidos.

Desde 2012, quando a empresa passou a vender e-books no Brasil, várias datas para o início das operações foram divulgadas, mas nenhuma cumprida. A mais recente previsão aponta que o início das vendas de impressos pela Internet começará durante a Bienal do Livro de São Paulo, no fim deste mês. Contudo, ao contrário do que se esperava, o sentimento é de preocupação.

"Fico muito preocupada. A cadeia tem três pontos: o autor, o editor e o varejista. Se um deles tem força demais, prejudica toda a indústria", disse Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Estores de Livro (Snel) à Folha.

Para Marcos Pereira, editor da Sextante, é crucial que a varejista chegue a um acordo com as editoras internacionais para acalmar os ânimos do setor aqui. "Seria muito ruim se a Amazon dobrasse o mercado. Espero que eles cheguem a um acordo lá fora, até para termos mais tranquilidade para lidar com eles no Brasil", disse Marcos.

Para Roberto Feith, diretor da Objetiva, no entanto, a chegada da gigante da Internet não é uma ameaça concreta. "Aqui o e-book ainda engatinha e nossas varejistas são empresas sólidas. A concorrência vai ser difícil", comentou o executivo.