Após dobrar receita da Red Hat, CEO quer open souce como novo padrão de TI

Por Rafael Romer | 30.03.2016 às 07:15
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Em setembro do ano passado, durante o anúncio de seus resultados do segundo trimestre do ano fiscal de 2016, o CEO da empresa de soluções de software open source Red Hat, James Whitehurst, prometeu aos acionistas que a organização atingiria a marca de US$ 2 bilhões em receita até o final daquele ano - o que tornaria a norte-americana a primeira empresa do setor open source a atingir a cifra. Na última terça-feira (22), ela entregou os resultados consolidados do ano fiscal, confirmando a previsão de Whitehurst e um crescimento total de 15% em relação à receita do ano anterior.

A multinacional precisou de quatro anos para saltar de seu primeiro bilhão, atingido em 2012, até a receita atual de US$ 2 bilhões. Mas essa jornada não deve parar por aí. No Brasil para o evento de abertura do ano fiscal de 2017 da Red Hat na América Latina, o presidente executivo comentou em entrevista ao Canaltech nesta segunda-feira (29) que a nova meta agora é de atingir uma receita de US$ 5 bilhões nos próximos cinco anos.

O plano pode ser ambicioso, mas se baseia não só no crescimento positivo que a Red Hat tem visto na última década, mas também do bom momento do software de código aberto no mercado, que tem ganhado cada vez mais espaço entre grandes empresas que buscam reduzir gastos e ganhar liberdade para operar com múltiplos parceiros.

De acordo com Whitehurst, um dos principais motivos que levou a empresa a atingir seu segundo bilhão no ano passado foi o avanço da tendência de adoção de multi-cloud entre empresas do nível enterprise, que buscam agora adotar múltiplas plataformas de cloud para evitar tornarem-se reféns de um único provedor em suas implementações em nuvem. De olho nesse mercado, a Red Hat tem buscado garantir que sua infraestrutura ofertada rode em qualquer lugar.

Para continuar o crescimento, no entanto, o executivo explica que a estratégia de sua empresa deverá agora se basear em múltiplas frentes com potencial de crescimento: desde novas iniciativas em áreas de mobilidade e Plataforma como Serviço (PaaS) até mercados como telecomunicações. Confira a entrevista completa com o executivo abaixo:

Jim Whitehurst

Jim Whitehurst esteve no Brasil nesta semana para a abertura do ano fiscal de 2017 na Red Hat na América Latina (foto: Reprodução)

Canaltech: Vocês anunciaram os resultados do ano fiscal de 2016 na semana passada e atingiram uma receita de US$ 2 bilhões, um resultado que você atribuiu principalmente ao crescimento da adoção de multicloud por empresas, que movimentou o negócio da Red Hat. De onde virão os próximos US$ 2 bilhões da empresa e quando isso deverá acontecer?

James Whitehurst: Acho que US$ 4 bilhões é um número esquisito. Isso não é uma diretriz financeira, mas nossa aspiração é atingir US$ 5 bilhões em cinco anos. Isso virá de uma combinação de fatores: uma parte importante do que nós faremos é prover a infraestrutura para aplicações que estão sendo desenvolvidas e rodam na nuvem. Nós continuamos a ver um mercado robusto on-premise para escalagem de infraestrutura, nós temos vários casos de sucesso com empresas que querem implementar on-premise com OpenStack. Nós vemos que o setor de Telecomunicações com a virtualização de funções de rede (NFV) é uma enorme oportunidade, já estamos com várias operadoras pelo mundo e é um pilar novo. Nós temos iniciativas interessantes com a Internet das Coisas, onde estamos aplicando nossa plataforma core de open source em IoT.

CT: Então são várias estratégias em diferentes áreas com potencial. Vocês não têm um foco específico de crescimento.

JW: Sim. Se você pensar nas verdadeiras grandes empresas na área de software, só há cinco que chegaram a mais de US$ 5 bilhões de receita: SAP, Oracle, Microsoft, VMWare e Salesforce. Para chegar aos cinco bilhões é difícil fazer uma única coisa - em geral, por causa dos preços que praticamos, nós precisamos de progresso em diferentes níveis. Se eu pudesse colocar em poucas palavras, eu diria que nosso foco é tornar o open source a escolha padrão para a próxima geração de infraestrutura de TI.

CT: A Red Hat está há alguns anos em uma trajetória de crescimento de receita e parece não ser afetada por algumas oscilações do mercado. Isso não acontece com os competidores de vocês, de software proprietário. Por que essas oscilações não atrapalham o negócio da empresa?

JW: Há alguns motivos: um deles tem a ver com nosso modelo de negócio, nós temos um modelo de subscrição e poucos clientes reduzem seus gastos de TI. Então uma vez que estamos lá, é consistente. Nós não começamos do zero todo ano, já temos uma base instalada. Claro, temos de renovar negócios e alguns clientes desistem de aplicações, mas em geral começamos com grande parte da nossa receita já garantida. Mas uma das coisas mais sutis e que as pessoas não entendem sobre a Red Hat é que a principal diferenciação da empresa é o sistema de produção open source, não é uma categoria de produto - nós geralmente conquistamos participação no mercado em cima de Unix e Windows. Então se a categoria de sistemas operacionais não crescer no ano que vem, nós ainda crescemos conquistando participação.

CT: Mas isso também significa um crescimento em índices menores.

JW: Nós temos um crescimento estável, é muito difícil para nós crescermos a índices de 30% ao ano - quando você está no processo de conquistar participação no mercado, há muito trabalho junto aos clientes, e no modelo de anuidade também é difícil ter picos. Mas isso será interessante no futuro, nós estamos fazendo algumas coisas nas áreas de mobilidade e plataforma como serviço (PaaS) que são novas categorias e elas podem explodir.

CT: Você comentou que a Red Hat acredita que o open source será o novo padrão e já há até uma movimentação de grandes empresas de software proprietário em direção ao código aberto. Isso preocupa a Red Hat? Vocês agora terão mais competição nesse negócio.

JW: Certamente há mais competição, mas, da mesma forma, se mais pessoas contribuem com código aberto, o ecossistema cresce. E a Red Hat sempre foi muito capaz de competir bem com outros em open source. A Oracle está trabalhando com um sistema operacional open source há muito tempo, com pouco sucesso. Em middleware, o JBOSS continua crescendo bem. Nós nos sentimos confortáveis competindo com qualquer um, e quanto mais empresas quiserem colaborar com o código, melhor. Eu tenho confiança que a Red Hat tem boas relações com clientes, sabe como trabalhar com open source e vamos descobrir maneiras de agregar valor e continuar crescendo com nosso negócio.

CT: A Microsoft é uma das empresas que está se movendo mais em direção ao open source, algo que não era imaginável há alguns anos. Abriu o .NET, suporte da base de dados SQL Server para Linux. Recentemente a empresa certificou o sistema operacional Red Hat Enterprise Linux (RHEL) para ser utilizado na nuvem Azure. Isso é resultado de demandas de usuários ou uma nova estratégia da empresa?

JW: Eu respeito muito o Satya [Nadella, CEO da Microsoft] e o que ele está fazendo, nós nos conhecemos antes dele se tornar CEO e ele era muito aberto, ele ouvia muito o feedback de clientes sobre isso. Acho que o que ele reconheceu é que os desenvolvedores estão indo para o open source. Se você voltar aos anos 90, um dos grandes sucessos da Microsoft era a Rede de Desenvolvedores (MSDN), eles tinham desenvolvedores na plataforma e isso alavancou a plataforma. O nexus de inovação se moveu para o open source, acho que Satya percebeu isso e reconheceu que eles precisam entrar no jogo. Iniciativas como abrir o .NET, por exemplo, é um apelo para trazer desenvolvedores de volta para a Microsoft. Eu estou empolgado que eles estão contribuindo com códigos, isso ajuda desenvolvedores e estou mais que contente em competir com a Microsoft avançando.

CT: Ainda sobre a liberação do RHEL para a nuvem Azure, vocês já estão vendo impactos positivos?

JW: Ainda é um pouco cedo, mas estamos vendo grandes clientes que estão trabalhando ativamente com isso. O que nos deixa empolgados em trabalhar com o Azure é que é uma nuvem focada em enterprise, a Microsoft tem um DNA de enterprise. E clientes enterprise esperam um nível alto de performance, então temos uma grande quantidade de testes com empresas que estão trabalhando com workloads em RHEL. Os principais clientes de nível enterprise que provavelmente serão os primeiros a implementar são os grandes varejistas - eles não querem rodar na Amazon porque a enxergam como uma competidora.

CT: E o qual o desafio para a Red Hat e seu modelo de negócio no futuro com essa nova movimentação da indústria para o open source?

JW: O mais difícil para a empresa é que nosso principal movimento para o mercado era comoditizar infraestrutura. Nós íamos até os usuários de Unix ou Windows e mostrávamos que podíamos fazer aquilo a um terço do preço. Agora que o open source está acelerando a inovação, nós temos de construir novas competências internamente. Nós temos de vender OpenShift, nosso PaaS, mas quem é o comprador? São os times de operações, linhas de negócios? Eu não sei, isso depende. E qual é o preço? E qual o ciclo de vendas? Nós temos de entender qual a proposta de valor, porque não é mais uma oferta para substituir um concorrente. Então seja com OpenStack, OpenShift, mobilidade, ferramentas de orquestração, coisas que não existiam antes, nós temos de construir novas capacidades comerciais ao redor disso. É um problema complexo, mas nós estamos trabalhando nisso.