Apetite por ‘sair na frente’ faz mercado de TI se descolar da crise

Por Colaborador externo | 14.09.2016 às 22:36
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Por Marcus Giorgi*

Segundo o último relatório da Association of Executive Search Consultants (AESC), as consultorias de retained executive search em todo o mundo apresentaram crescimento tanto na receita quanto no número de projetos de search de executivos, comparando-se o último trimestre de 2014 com o mesmo período de 2015. A expectativa era que essa tendência de crescimento se mantivesse para o primeiro trimestre de 2016. Mas essa era a expectativa global, infelizmente não aplicável para a América Latina. No último trimestre de 2015 nossa região teve queda de 12.6% no número de projetos de search de executivos em comparação com o mesmo período de 2014. Com o Brasil representando mais de 60% da região, puxamos consideravelmente esse número para baixo. Nossos motivos são bastante conhecidos e já amplamente debatidos. Analisando nosso mercado interno, o cenário político-econômico é o principal fator que contribuiu para uma retração generalizada, impactando substancialmente até mesmo os setores que outrora eram imunes à crise. Com o índice de desemprego no país batendo a casa dos 12%, ainda observamos hoje o triste descompasso de mais profissionais sendo demitidos do que contratados.

Por outro lado e globalmente falando, é importante destacar o setor de tecnologia que apresentou crescimento de 5.5% em projetos de search no último trimestre de 2015 versus o mesmo período de 2104.

A pergunta é: o setor de tecnologia (TI/Telco) no Brasil acompanhou e acompanhará essa tendência de crescimento?

É verdade que no Brasil os segmentos de hardware (em TI) e o de telecomunicações em geral ainda apresentam um balanço negativo na gangorra contratações vs. demissões, pois esses segmentos são normalmente muito impactados numa economia combalida, pois são diretamente dependentes da confiança do consumidor e das estratégias de crescimento das empresas. Por outro lado, o segmento de software foi bem menos impactado, uma vez que as empresas buscam na tecnologia os benefícios diretos da mesma, como a melhora na eficiência operacional e nas formas de atendimento ao cliente.

Aportando no setor, temos visto um movimento positivo por parte de fundos de private equity – normalmente dolarizados e com maior apetite para risco – se mobilizando e saindo na frente na contratação de altos executivos. Essa é normalmente uma das pontas da cadeia que acaba puxando o mercado para voltar ao cenário de pró-investimento como um todo.

Mas quem são esses profissionais demandados para colocar a empresa na frente da concorrência numa retomada econômica? Eu tentaria resumir esse perfil desejado em três habilidades imprescindíveis: resiliência, inteligência emocional e liderança.

A resiliência se traduz em saber navegar em tempos de mares bravios sem perder o rumo e o comando do barco. Já a Inteligência emocional está mais diretamente relacionada à sociabilidade e a capacidade de networking de um profissional, tanto dentro da empresa na qual trabalha quanto no mercado. As companhias buscam também perfis de liderança mais antenados com a nova economia, característica essa primordial nas empresas de tecnologia, mas também cada vez mais almejada em indústrias onde a tecnologia possa ser tanto um diferencial competitivo quanto um gerador de mais receitas e novos negócios.

Devido à recessão dos últimos anos e ao baixo investimento público-privado, o corte de mão de obra na maioria das empresas é um fato inexorável. Podemos claramente observar a presença de excelentes profissionais infelizmente desempregados. Enquanto alguns destes acabam por se enveredar em consultorias pessoais ou projetos de empreendedorismo, outros procuram serviços de coaching de carreira e também cursos ligados à nova economia, como marketing digital, por exemplo, para se atualizarem e se manterem competitivos em uma eventual recolocação no mundo corporativo.

É fato que a economia se caracteriza por ciclos, sendo estes de crescimento, estabilidade ou recessão. Em um cenário de crise como o atual, mas com perspectiva de crescimento já para 2017 na casa de 1,7%, destacam-se empresas e investidores com maior apetite ao risco, dinheiro em caixa e com estratégias já desenhadas para largar na frente.

Não é novidade que as melhores e mais vantajosas negociações são realizadas em cenários austeros. Uma vez a economia se recuperando, essas empresas se encontrarão melhor posicionadas e, consequentemente, se beneficiarão do apetite dos consumidores e dos seus clientes antes das suas concorrentes.

Isso inclui a contratação e remontagem dos times, preferencialmente buscando e alocando os melhores profissionais nas posições-chave. O capital humano é o driver principal de qualquer organização e jamais pode colocado em segundo plano numa retomada de crescimento. Os custos de tal negligência podem sair bem mais altos lá na frente.

*Marcus Giorgi é Sócio do Fesap Group, consultoria de executive search e de estratégia de Capital Humano. Representa as marcas Fesa, Asap e Fesa Advisory.