A transformação digital como proteção ou ataque

Por Colaborador externo | 27 de Abril de 2016 às 06h35

Por Matthew Gharegozlou*

O conceito de transformação digital vem se tornando mais fácil de entender à medida em que a discussão sobre este tema envolve mais e mais as diferentes esferas de negócio.

Um dos consensos que se formam é de que este tipo de transformação não se explica pela simples intensificação da automação de tarefas, tal como ocorre na computação tradicional.

A verdadeira transformação acontece quando um ou vários aspectos essenciais do negócio são efetivamente afetados pela tecnologia digital.

Um exemplo claro do fenômeno foi o surgimento dos modelos de computação em nuvem, cujas consequências se desdobram em diversas novas formas de organização do ciclo de geração de valor para as áreas de software, hardware e de aplicações.

A rápida evolução das novas formas de entrega e de conexão de ferramentas e serviços empregadas pela indústria de TI (tais como SaaS, PaaS, BYOD etc) nos permite avaliar o quão velozes vão se tornando as ondas de transformação. Principalmente nesses últimos cinco anos, quando o aprofundamento da mobilidade e da virtualização passou a ser a tônica dominante.

Outro consenso que se forma é o de entender o avanço da transformação digital, ao mesmo tempo, como causa e consequência dos movimentos de disrupção que se mostram cada vez mais vigorosos em todas as áreas de negócio.

A disrupção, não custa lembrar, é uma nova classe de ameaça àquelas corporações "incumbentes", cuja liderança está muitas vezes consolidada ao longo de muitas décadas, bem como a setores industriais inteiros, calcados na tradição. É o que aconteceu, há algum tempo, com o outrora vigoroso segmento de listas telefônicas e catálogos impressos de produtos dos quais hoje ninguém mais se lembra.

Uma característica recente da disrupção é que esta nova ameaça não parte de um concorrente conhecido ou presumível, com porte, experiência e estrutura. Ela surge no horizonte na forma de iniciativas novas, tocadas por empreendedores entrantes, muitas vezes, até então, estranhos àquele segmento de negócio.

Quando associada a um processo de inovação avassaladora, a disrupção produz exemplos como o da Airbnb, da Uber ou da Netflix, que chegam, de uma hora para outra, rompendo paradigmas altamente consolidados e desfigurando completamente a visão que se tinha até então de certo segmento da indústria.

Assim, é preciso que as empresas tradicionais encarem a transformação digital a partir de uma dimensão dupla. De um lado, é preciso que elas acompanhem os anseios de um tipo de consumidor cada vez mais impaciente, mais conectado, mais infiel e mais ávidos pela constante atualização de suas experiências no mundo digital.

Elas precisam se posicionar um passo à frente da concorrência para obter e manter a adesão e o engajamento do consumidor e não apenas a sua atenção passiva e persistente, como acontecia até recentemente.

De outro lado, as grandes empresas incumbentes precisam se proteger contra as novas invasões bárbaras, representadas por startups altamente calcadas na estrutura digital e dispostas e desafiar de maneira ousada e irreverente os conceitos de produção, relacionamento, logística, formação de preço e geração de valor nos mais diferentes setores.

Esses novos aventureiros podem contar com o acesso abundante e barato a alta tecnologia e de design, interconexão e processamento. Algo que há pouco tempo estava restrito àquelas companhias de lastro financeiro mais robusto.

Tendo muito pouco a perder, e precisando de pouco para se pôr em guerra, as startups inovadoras têm muito a ganhar e dispõem de grande flexibilidade para a tentativa e erro ao criar novos modelos de negócios a fim de desafiar os gigantes.

A indústria, de modo geral, já percebeu esta conjuntura; e a Transformação Digital dos Negócios está definitivamente na agenda da estratégia empresarial, embora sua adoção pelas companhias ainda encontre as velhas barreiras da cultura e de certa visão conservadora da TI.

Uma destas barreiras é, sem dúvida, a permanente necessidade de contenção de custos e o foco na manutenção do dia a dia dos negócios. Algo que obriga o CIO e suas equipes a gastar quase 100% dos recursos em gestão da infraestrutura e dos processos já instaurados, pouco sobrando de fôlego para se pensar - e agir - no avanço da digitalização um passo à frente da demanda.

Ou seja, em grande parte dos casos, o avanço ainda acontece de forma reativa aos novos contextos dinâmicos do ambiente de negócio. Mas numa visão de conjunto podemos dizer que, pelo menos, em muitas áreas, estas mudanças vêm ocorrendo e são mudanças abrangentes e não simples automação de processos isolados.

Em meados de 2015, um levantamento realizado pelo Global Center for Digital Business Transformation (DBT Center), constatou que, em setores como hotelaria, mídia e varejo 50% das empresas já veem como alto o risco de serem fortemente abaladas por processos mais ou menos disruptivos nos próximos cinco anos.

Em tais nichos, as mais proativas já se mexem para resistir (ou para aproveitar) a onda de transformações dos negócios, como e o caso das redes de varejo que passaram a assumir uma face virtual extremamente sintonizada com a sua face física.

É um jeito que estas redes encontram hoje de equacionar um novo tipo de comportamento do consumidor conectado que os marqueteiros do varejo batizaram de "showrooning".

Ao invés de ir á loja física adquirir seu produto, como vinha fazendo há séculos, o comprador (sempre munido de smartphone) passou a visitar a loja física unicamente para conhecer o produto de perto, e depois realizar a compra on-line, a partir de comparadores de preço.

Para se salvar dessa armadilha, os especialistas em varejo precisaram se reunir aos especialistas em TI para descobrir formas de fazer com que o cliente da loja física pudesse ser "fisgado" pela loja virtual da mesma rede (e vice-versa), de modo que a experiência de visita ao PoS passassem a ser uma continuidade quase natural da navegação no site e vice-versa.

Foi assim que surgiu a nova tendência de varejo "omni-channel", conforme descreveu o IDC Retail Insights.

Seja para reagir ou para ameaçar, o uso correto da TI é essencial para que as empresas construam sistemas de "hyperwareness", capazes de sintonizá-las com as flutuações das propensões da multidão (ou as movimentações da concorrência e do contexto de negócios). Ao mesmo temo em que as permitam a conhecer intimamente o consumidor individual para oferecer a ele uma experiência realmente atraente.

Abre-se, assim, uma oportunidade nova para aquele profissional de TI que estiver apto ao diálogo com os demais gestores do negócio, no sentido que ele aja como um incentivador da Transformação Digital dos Negócios.

Uma grande vantagem a seu favor é que todas estas formas de "awareness" (baseadas em analytics e em sensores multicanais) introduzem na companhia uma massa de informações mensuráveis sobre a performance do negócio como um todo e sobre cada uma das táticas de negócio empregadas.

Ao lado disto, o homem de TI conta hoje com facilidades adicionais de ferramentas para o desenvolvimento ágil que contemplam a nova face bimodal da TI (garantindo um equilíbrio interessante entre vertentes disruptivas e as exigências de compliance).

Em síntese, o que podemos constatar é que a indústria global de TI vai fornecendo os instrumentos que já estão propiciando processos contínuos e seguros de transformação digital de negócios.

E também que haverá um equilíbrio entre o aumento da disrupção, em todas as áreas da indústria, e a afirmação cada vez mais sólida de políticas de transformação, paulatinas e planejadas, por parte das empresas incumbentes nas quais a transformação acontece de modo mais cauteloso.

*Matthew Gharegozlou é Vice-Presidente da Progress para a América Latina e Caribe.

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