Tecnologia no campo: agropecuária aplica virtualização para melhorar desempenho

Por Rafael Romer | 19 de Setembro de 2013 às 17h30

Para quem ainda não está familiarizado com o processo, a virtualização é o nome dado à técnica de separação de aplicações e/ou sistemas operacionais dos componentes de hardware dentro de uma empresa. A vantagem do processo, além do custo mais baixo para o upgrade de informações, é que máquinas virtuais mantém todas aplicações e sistemas, mas estes não ficam presos ao software da máquina e podem estar disponíveis em diversos ambientes e ser operados remotamente, conforme a necessidade. O processo já não é novidade, mas começa a ganhar cada vez mais espaço conforme tecnologias como mobilidade e computação em nuvem avançam entre novas empresas.

E não são só corporações de áreas como TI, Telecom ou comércio que podem tirar proveito do processo: com sede na cidade de Campo Mourão, no noroeste do Paraná, a empresa Agropecuária Ipê atua no setor do agro-negócio, principalmente na produção de grãos de soja, milho, trigo, aveia e sementes para a plantação dos mesmos grãos.

A ideia de virtualizar o ambiente de produção da empresa surgiu ainda em 2008, partindo das dificuldades de se trazer e operar equipamentos físicos, como desktops, para a fazenda da empresa. "Para a gente, dentro da agropecuária, é um processo completamente diferente do da grande maioria. É um cenário de campo, um cenário bem mais sujo", afirma André Cardeal, Gerente de TI da Agropecuária Ipê.

Nas suas primeiras experimentações na área, a empresa virtualizou seus ambientes de thin clients. "A gente tinha muito problema em usar desktop. E se parasse lá no meio do campo, o que fazer? Colocávamos o desktop debaixo do braço e iámos lá [na cidade] trocar", brinca Cardeal. Hoje, a empresa já integrou tablets, smartphones e palms na produção.

O início da implantação do sistema virtualizado mobile começou no ano passado, após as respectivas safras do ano, quando a empresa recebeu seu aporte de recursos para se manter durante o ano. A virtualização mobile foi integrada aos processos de plantio e colheita de sementes. Desde o controle de lugares de plantio à variedade de sementes plantadas, todo o gerenciamento passou a ser feito em um ambiente virtualizado.

Um dos principais problemas da empresa, e o que motivou a virtualização, era o controle da variedade e distribuição de grãos. No ano passado, um caminhão da categoria de sementes para plantio, de alto valor agregado, foi depositado no silo errado, reservado para sementes de consumo, o que comprometeu parte da colheita. "Tudo teve que ser vendido como consumo, bastou isso para perder 600 mil quilos do produto. Todo o valor agregado, a gente perdeu", explica o gerente de TI.

Agora, durante a colheita, são entregues os chamados "romaneios" aos caminhoneiros que deixarão os campos com os grãos, nos quais estão todos os dados sobre a entrega do produto ao lugar certo. Cada caminhão também é identificado com uma tag RFID própria. Quando chegam às moegas, locais onde os grãos são entregues, os caminhoneiros podem se identificar por códigos de barra para que os funcionários saibam exatamente onde descarregar. As cancelas de cada moega só são abertas caso a identificação aconteça corretamente. "Se o caminhão chegar ao local errado, a cancela não abre e toca uma sirene", afirma o Cardeal. Segundo o gerente de TI, o novo processo ajudou a empresa a mitigar a mistura de grãos, que chegava a 10% da produção todo ano.

Para o controle dos sistemas, os funcionarios utilizam tablets com o sistema Android e aplicações específicas para as funções que vão desempenhar. Como o controle do ambiente é completamente virtualizado, a empresa enfrentou o desafio de manter todo o sistema sempre conectado, já que a distância entre o ambiente físico e o virtualizado é de quase 40 km. "Quando a gente pensou em montar esse cenário para resolver nosso problema de mistura de grãos, a gente tinha que garantir que os dados estivessem lá [nos tablets utilizados na operação]", explica. Para isso, a empresa replicou todo o ambiente virtualizado em tablets de sua sede para dentro da fazenda, além de fazer uma redundância de dados. Assim, mesmo que a comunicação com a sede caísse, o ambiente da fazenda continuaria funcionando.

Toda a transformação do ambiente, segundo Cardeal, custou em torno de R$ 400 mil, sem contar o desenvolvimento interno de aplicações – devido à inexistência de soluções para a área de agropecuária disponíveis no mercado, a empresa foi forçada a manter um time interno de desenvolvedores para a criação de seus próprios sistemas de controle.

A companhia também investiu pesado no levantamento de torres dentro da fazenda para garantir o sinal mobile em áreas mais afastadas, como as plantações, além de cabos de fibra óptica e de geradores para garantir a energia. Para resolver o problema das áreas sem sinais, o ambiente utiliza o SQLite para fazer sincronizações rápidas quando o sinal estiver disponível.

Entre os benefícios do ambiente, André aponta que agora a empresa pode atuar com muito mais agilidade nos processo e na tomada de decisões dentro da fazenda, assim como ter, em tempo real, todos os processos acompanhandos pela chefia. "Na parte de TI, teve o suporte ao usuário do campo. Ele está na fazenda e a gente consegue acessar o desktop dele", afirma. Da safra anterior para a deste ano, já no ambiente virtualizado, a média de unidade de cargas cresceu de 66 para 97, com 54% de ganho de agilidade no processo. "Só as perdas que sofríamos justificou todo o investimento que fizemos", encerra Cardeal.

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