Steve Wozniak no Brasil: co-fundador da Apple fala sobre criatividade e inovação

Por Luciana Zaramela | 03 de Maio de 2013 às 20h08

* de Brasília, Distrito Federal

Quinta feira, 2 de maio de 2013. Stephen Gary Wozniak, co-fundador da Apple e companheiro de Steve Jobs, veio ao Brasil para falar um pouco sobre criatividade, inovação e, claro, contar sua história ao lado de Steve Jobs e da Apple dos anos 70 e 80. A palestra ocorreu na UniCEUB, em Brasília, e contou com a participação de alunos, professores, profissionais, entusiastas e fãs do engenheiro e cientista da computação que programava para se divertir. Desde criancinha.

Woz — como gosta de ser chamado — usou sua experiência como exemplo e incentivo aos jovens criativos e inovadores. Para ele, educação e criatividade andam juntas e precisam ser muito bem exploradas. "Meus lugares preferidos sempre foram as Universidades, porque as coisas mais importantes que aprendi na vida tomavam forma quando eu frequentava essas instituições. Foi onde tive toda a liberdade de explorar, descobrir e aprender coisas novas, de diversas maneiras". Mas Woz não veio ao país para falar de educação, e sim de inovação.

O menino Woz

Como toda boa história deve ser contada, Woz relatou episódios de sua vida desde a infância, quando construiu seu primeiro transmissor de rádio, ainda com 11 anos. Mas o pequeno inventor não encontrava ninguém da sua idade para "brincar" ou conversar a respeito. Ele teve, pela primeira vez, a certeza de que era um nerd, um geek nato. Nada de festinhas, nada de jogar baseball no campo com os amigos, nada de curtir a adolescência com as gatinhas e fazer parte do time da escola. O negócio dele era mesmo inventar, construir, imaginar, criar, ver funcionar. Seus brinquedos eram cabos, transístores, válvulas, placas de circuitos, parafusos e fios.

Woz no Brasil

Woz conta como era sua adolescência (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Quando estudante, Woz foi apresentado por um colega de faculdade a seu futuro colega de profissão: Steve Jobs. Os dois se entenderam, embora fossem bastante diferentes: Woz era tecnológico, apaixonado por engenharia e gostava da exatidão dos números. Jobs já era sonhador, criativo, inventivo, enxergava além dos números e algoritmos. Woz e Jobs trabalhavam na Hewlett-Packard, mas decidiram abdicar seus cargos para criar algo novo.

A mistura entre duas personalidades marcantes teve um objetivo comum: utilizar uma ciência exata para facilitar a vida das pessoas. Um lema era levado a sério pela então incipiente parceria entre os dois Steves: pensar, em primeiro lugar, nas pessoas. Só depois, na tecnologia. Era necessário construir algo que trouxesse praticidade na vida das pessoas. Os jovens empreendedores pensavam em transformar elementos de televisão e máquinas de escrever em algo que realmente fizesse a diferença, mas ainda não sabiam muito bem como isso poderia se transformar em algo concreto. Começaram a surgir os primeiros esboços do que viria a ser um computador pessoal no futuro.

Os primórdios da Apple

Enquanto um programava e testava, o outro criava e vendia. E assim nascia a Apple, com dois jovens sem nenhuma grana no bolso, sem ajuda dos pais, sem amigos para emprestar dinheiro e sem a mínima experiência de negócio — usando apenas o que tinham de melhor em suas personalidades, gostos e prazeres. De acordo comum, resolveram partir do zero. Criaram o primeiro computador pessoal, na garagem da casa onde Steve Jobs morava, em Palo Alto, na California. Do esforço dos dois, nascia o Apple I — um computador portátil, dotado de uma placa de circuitos integrados e com elementos gráficos em uma tela.

Apple 1

Apple I, o pioneiro (Foto: Divulgação)

"Eu inventava porque gostava, construir era meu hobby, sempre amei engenharia e computação. Mas o Steve (Jobs) pegava o resultado e vendia, transformava aquilo em dinheiro (risos). Esse era o hobby dele". Woz, mesmo em tom de brincadeira, acredita que essa é a chave para o sucesso — trabalhar por gostar, sentir prazer no que faz. "Quem mescla trabalho com hobby não se estressa, as coisas simplesmente fluem, quando você menos espera, vê acontecer. É claro que temos de ser persistentes, mas sem deixar passar os bons momentos, as risadas com os amigos".

Uma das grandes premissas de Woz sempre foi a importância de atitudes e valores. Com isso, ele ilustra muito bem a mensagem que veio passar aos jovens brasileiros: "A vida não se baseia em quantos gadgets nós temos, nem em quantos amigos contabilizamos nas redes sociais, mas sim em nossos valores como pessoas e naquilo que fazemos".

Dois jovens imaturos, um grande sonho

Fascinado por tudo que era analógico nos anos 70 e 80, Woz tinha em mente que podia transformar sinais sonoros, ondas e osciladores em algo mais palpável, digital. Aqueles trambolhos utilizados desde os anos 60 não poderiam ficar restritos apenas aos engenheiros e técnicos de informática. Máquinas sem interface, dotadas de botões e alavancas e alguns indicadores não trariam praticidade ao público comum, mais tarde chamado de usuário.

Pensando em trazer a praticidade dos até então inacessíveis computadores da época, os dois Steves criaram elementos importantes, porém ainda muito 'verdes', que se tornariam indispensáveis nos computadores do futuro: software, gráficoa e interface física. Por essa última, Woz se refere aos teclados alfanuméricos dos computadores, que em pouco tempo substituiram as alavancas, botões e osciliscópios analógicos. Era necessário ter um elo entre o ser humano e a máquina, de forma que se tornasse visível a comunicação entre ambos. Assim, utilizando os televisores como inspiração, nasciam os monitores com suas imagens geradas por chips de computadores.

Woz no Brasil

Steve Wozniak relembra os primórdios da Apple e fala sobre criatividade (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Enquanto Woz programava e quebrava a cabeça com os algoritmos, Jobs tinha suas ideias visionárias, cheias de elementos de publicidade, mercado e geração de valor aos futuros usuários. Típicas ideias de um jovem inexperiente, mas no auge de sua capacidade inventiva. "No início, Steve (Jobs), assim como eu, era muito imaturo, muito 'verde'. Mas ele não tinha vergonha de tentar de novo até acertar. Ele tinha sede de aprender sempre mais. Meu papel era ficar no laboratório estudando, aplicando meus conhecimentos de engenharia e programação. Comprávamos as peças por 20 dólares, e Steve vendia o produto final pelo dobro do preço. Nós não tínhamos um ambiente empresarial, tudo que fazíamos era em uma garagem. Não tínhamos um ambiente de negócios. Steve negociava em seu próprio quarto, comprando componentes, vendendo computadores, investindo em publicidade… e assim começamos a fazer dinheiro. Nada exorbitante, mas a partir do momento em que vendemos nosso primeiro computador (o Apple I), criado por nossos próprios rascunhos e a partir do nosso próprio esforço, pensamos em trabalhar melhor em design e criar novas máquinas".

Após o sucesso do Apple I, os jovens empreendedores tiveram um longo caminho tortuoso pela frente. Tiveram que aprender com seus próprios erros. Acharam que o Apple II venderia mais que o primeiro, mas não foi bem assim que aconteceu. O computador não fez sucesso e, a partir de então, os dois Steves se reuniram e tentaram corrigir o erro, mas usando mais complexidade, ao invés de simplicidade. Criaram o Apple III, que era uma versão voltada a negócios do Apple II. Este, infelizmente, foi um fracasso maior que seu antecessor. O que estava faltando, afinal?

Depois de muito quebrar a cabeça e pensar em uma solução para melhorar os negócios, Woz e Jobs encontraram Jef Raskin, que tinha sua aposta: computadores deveriam ser fáceis de usar. Não poderiam ser complexos. A palavra-chave era intuitividade. Algo direcionado ao mais leigo dos usuários. Raskin foi quem deu à luz a criação da primeira interface gráfica intuitiva e fácil de usar. A partir das ideias dele, Jobs e Woz, inspirados pelas músicas de Bob Dylan e dos Beatles, projetaram o próximo sucesso da Apple, que estava prestes a surgir no mercado: o Macintosh — um computador que executava cálculos e possuía algoritmos tão complexos como qualquer outro dos anos 70, mas que traduzia tudo aquilo de maneira simplificada e convidativa para o usuário.

O Macintosh foi o primeiro computador pessoal a popularizar a interface gráfica, preconizada por Raskin. Lidando com elementos de vídeo, imagem e som, o projeto desenvolvido no final dos anos 70 e colocado no mercado no início dos anos 80 foi considerado revolucionário na história da computação e informática.

De Woz para os jovens criativos

Woz não entrou em detalhes a respeito dos novos desafios que a Apple enfrentaria pela frente, muito menos da saída de Jobs, da NeXT, da Atari e de sua própria saída da empresa. Mas deixou claro que, a partir de muita persistência e amor pelo trabalho, ele e Steve Jobs conseguiram transformar uma garagem cheia de componentes eletrônicos em uma empresa de vanguarda e inovação.

Woz no Brasil

De um inventor para futuros inventores: "Nunca desistam de sonhar alto" (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Contando essa história, o engenheiro computacional, inventor e programador demonstrou que por trás de grandes sucessos existem grandes sonhos. E finalizou com alguns conselhos importantes aos jovens criativos da atualidade: "Façam aquilo que vocês mais amam, mas façam em seu tempo. Há pessoas que levam quatro anos para fazer o que outras fazem em um. Não importa. Persistam e sonhem, sonhem alto. Tenham sede de conhecimento, nunca parem de aprender. Dêem muito valor às instituições por onde passaram. Não pensem em sua própria carreira, ou em quanto vão ganhar, com a cabeça fechada. Pensem grande, no que poderão fazer para melhorar o mundo. Quebrem conceitos, ampliem seus horizontes, sigam seu coração. Sejam apaixonados. Sejam especiais".

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