Para biógrafo de Steve Jobs, executivo equilibrava beleza, tecnologia e negócios

Por Rafael Romer | 06 de Novembro de 2013 às 09h20
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“A sua paixão era a conexão da beleza com tecnologia e o negócio”, afirmou o jornalista Walter Isaacson, autor da biografia autorizada do fundador da Apple, Steve Jobs, durante sua apresentação para CEOs no evento de gestão HSM Expo Management 2013, que acontece nesta semana em São Paulo. "E o Brasil é o país que eu acredito que tem todas essas três qualidades: é maravilhoso com as artes – a beleza do design, das artes e da música do Brasil está na alma do país – mas também é um país muito bom com engenharia e tecnologia e muito bom com negócios”, brincou.

O jornalista conta que conheceu Steve pela primeira vez quando ainda trabalhava como repórter da revista Time, em 1984, quando o cofundador da Apple levou seu novo Macintosh para ser apresentado à redação. Já naquela época, Steve se preocupava em explicar os mínimos detalhes do dispositivo, utilizando linguagens complicadas de design para mostrar as curvas e capacidades do computador. “Eu vi a paixão do Steve por beleza e tecnologia naquela reunião”, afirmou. “E foi lá que eu aprendi a primeira lição com Steve. Naquela reunião, eles nos disse: ‘algumas companhias focam em fazer grandes lucros, eu foco em fazer grandes produtos’”.

Pouco tempo depois de deixar a Time, Isaacson foi contactado por Steve, que pediu para que ele fizesse sua biografia. Isaacson, que já escreveu biografias de personalidades como Albert Einstein, Henry Kissinger e Benjamin Franklin, a princípio recusou a idéia, mas voltou atrás logo que descobriu que o pedido de Steve tinha acontecido no dia seguinte ao diagnóstico de seu câncer. “Eu entendi que poderia aprender outras lições com Jobs, não só sobre a qualidade de um produto ou sobre os lucros”, disse.

Uma das coisas que Isaacson conta ter visto de perto durante os dois anos que levou para escrever o livro foi a famosa “dureza” de caráter do fundador da Apple, que ficou famoso pela forma extremamente honesta com a qual tratava pessoas e funcionários. Segundo ele, a característica marcante de Jobs foi refletida até no próprio livro, quando Jobs afirmou a Isaacson que também desejava que a biografia fosse completamente honesta.

Para o autor, essa dureza de caráter de Jobs refletia-se também no perfeccionismo com que o executivo conduzia todas as tarefas do seu cotidiano. Para Jobs, até os menores detalhes dos projetos da Apple eram importantes: como quando o executivo atrasou em seis semanas o lançamento da primeira versão do Macintosh para que um componente interno do computador fosse redesenhado para ficar simétrico, conta Isaacson. “Para ele, era isso que mostrava a paixão pelo produto. Ninguém tomaria conhecimento do detalhe, mas ele saberia se não estivesse perfeito”, disse.

Mas se por um lado Steve era visto como um homem duro, o jornalista conta que o executivo sempre foi capaz de inspirar a mesma visão que tinha nas pessoas à sua volta. Jobs tinha, como ficou conhecido dentro da Apple, uma espécie de “campo de força de distorção da realidade”, que era utilizado constantemente para estimular e desafiar as pessoas dentro da empresa. “Ele acreditava que se conseguisse incentivar as pessoas com força suficiente, ele conseguiria que elas fizessem o impossível”, explicou.

Uma das primeiras “vítimas” do campo de força de Steve teria sido o próprio co-fundador da Apple, Steve Wozniak, quando ele e Jobs trabalharam juntos no desenvolvimento do game Breakout (1976), da Atari. Segundo Isaacson, Jobs teria conseguido convencer Woz a programar todo o jogo em apenas quatro dias, algo que poderia ser considerado impossível, para que ambos pudessem voltar a dedicar suas energias aos projetos da Apple no fim da mesma semana. “Wozniak me contou que Jobs conseguia olhar para você por muito tempo sem piscar e que aquilo era assustador”, contou Isaacson. “E ele só dizia ‘não tenha medo, você consegue fazer isso'”.

Steve também tinha a capacidade de manter toda a empresa focada em alguns poucos projetos de uma vez, modelo de negócio que garantiu sucesso à Apple, segundo Isaacson. A crença também se refletia no formato end-to-end de se produzir produtos na empresa: sob o comando de Jobs, a Apple sempre criou e desenvolveu seus produtos de forma fechada e integrada, em oposição a empresas como a Microsoft, que licencia diversos de seus softwares e produtos para serem usados por outras empresas. “Era um sensibilidade artística de controlar as coisas de uma ponta a outra”, explica o jornalista. “Não necessariamente o melhor modelo de negócio, mas Steve acreditava que assim ele mantinha o produto perfeito”.

Isaacson também falou sobre outro grande traço do fundador da Apple: a paixão pela simplicidade. Jobs se inspirava em figuras como o próprio Einstein para "pensar diferente" e eliminar tudo o que considerava supérfluo e complicado demais nos produtos da empresa. Foi com decisões assim que ele optou por nem incluir, por exemplo, um botão de ligar e desligar no iPod original. “Essas noções de foco, simplicidade e de ser responsável por seus produtos foram as lições que Steve imprimiu no DNA da Apple”, conta.

Em uma de suas últimas conversas com Jobs, há cerca de dois anos, pouco tempo antes de sua morte, Isaacson perguntou ao CEO qual era o melhor produto que ele já tinha criado na empresa. Esperando por uma resposta como iPhone ou iPad, o jornalista se surpreendeu quando Jobs afirmou que o melhor produto tinha sido a própria Apple. "Ele me disse que o grande desafio não é criar um produto, mas uma companhia que continuasse a inspirar pessoas a serem criativas, a quebrarem regras, se rebelarem e criarem novos produtos", contou.

Nos últimos meses de vida, Isaacson conta que Jobs ficou cada vez mais reflexivo e os dois conversaram muito sobre assuntos como o significado da vida. Jobs teria feito uma metáfora de que a vida é um rio no qual você deve retirar coisas boas, utilizá-las para criar suas próprias coisas boas e jogá-las e volta no rio, para que no futuro outras pessoas possam fazer a mesma coisa. "Isso foi o que resumiu tudo [sobre Steve Jobs]: da paixão pelo produto ao foco, à crença na beleza e à intersecção entre a arte e a ciência", encerrou.

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