O que o The Washington Post pode esperar do seu novo dono, Jeff Bezos?

Por Fernanda Morales | 06 de Agosto de 2013 às 13h07

Jeff Bezos, fundador e atual CEO da Amazon, oficializou a compra do jornal The Washington Post nesta segunda-feira (5) por cerca de US$ 250 milhões (R$ 575 milhões). A compra de uma das publicações mais importantes dos Estados Unidos foi feita pelo próprio Bezos e não pela Amazon, como muitos suspeitavam no começo. Mas, o que será que a publicação pode esperar da aquisição e administração de seu novo dono?

No momento da aquisição, Bezos disse em um comunicado para os funcionários que "o jornalismo desempenha um papel crítico em uma sociedade livre e o The Washington Post, como o jornal mais importante da capital dos Estados Unidos, é especialmente importante".

Mas, segundo o Gawker, o "papel crítico" do jornalismo ao qual se referiu o empresário deve ser cada dia menos desempenhado na versão impressa. Em uma entrevista concedida no ano passado ao jornal alemão Berliner Zeitung, Jeff Bezos descreveu os jornais como um artigo de luxo que se aproxima de sua extinção. "Há uma coisa que eu tenho certeza: jornais impressos deixarão de existir em vinte anos. Talvez como artigos de luxo em alguns hotéis que devem querer oferecê-los como um algo extravagante. Jornais impressos não serão mais normais daqui a vinte anos".

Ainda não se sabe como será conduzido o investimento de Bezos em uma empresa de comunicação que vive um período conturbado – a não ser para manter o jornal em funcionamento pelo menos por enquanto. O Post afirmou em maio deste ano que teve "uma queda de 85% em seu lucro líquido no primeiro trimestre devido aos negócios fracos no setor de educação e de jornais".

O que Bezos planeja fazer é um pouco mais óbvio para o pessoal do BuzzFeed: "um homem poderoso deseja mais poder, e decidiu que os meios de comunicação ofereciam uma forma bastante barata e rápida de adquirir este poder". Brad Stone, da BusinessWeek, acredita que mesmo tendo adquirido o jornal de forma independente, ele poderá atuar como mais um mecanismo estratégico de negócios para a Amazon, principalmente no Kindle, que compete diretamente com os produtos do Google e da Apple.

Capa Washington Post compra Jeff Bezos

Capa da edição de hoje (6) do The Washington Post anunciando a venda do jornal (Reprodução: The Washington Post)

No registro de compra enviado à Securities and Exchange Comission (SEC) dos Estados Unidos, o comprador do jornal é apontado como Nash Holdings LLC, uma empresa de Delaware listada pela primeira vez na última sexta-feira (2). Isso poderá garantir algum tipo de isolamento para Jeff Bezos, apesar do fiador da compra ser a Explore Holdings LLC, outro nome para a Bezos Expeditions, empresa de investimentos do empresário.

O site Gawker listou alguns pronunciamentos de Jeff Bezos em reuniões de acionistas, entrevistas ou reportagens que podem indicar o que o futuro reserva ao The Washington Post sob nova direção:

  • "Na web, as pessoas não pagam para ler notícias e acho que está muito tarde para que isso mude".
  • "Nós [Amazon] percebemos que as pessoas estão dispostas a pagar por assinaturas de jornais em tablets. Num futuro próximo, cada família terá vários tablets. Isso vai ser um padrão, e dará um impulso para os jornais também".
  • Há alguns anos, Bezos cultivou relações amistosas com editoras e tentou fazer sua companhia de e-commerce rentável. Em 1999, quando a BusinessWeek lhe perguntou se ele nunca iria mudar do negócio de venda de livros para o de produção de livros, Bezos objetou: "somos muito, muito bons em uma única coisa, que é ajudar os clientes a descobrir coisas que possam comprar online. E isso é o suficiente".
  • "Nosso objetivo é nos movermos rápido para solidificar e ampliar nossa posição atual, enquanto nós começamos a buscar as oportunidades de comércio online em diferentes áreas. Vemos oportunidades nos grandes mercados. Esta estratégia não é sem risco: requer investimento sério e execução firme contra líderes de franquias já estabelecidas".
  • Reportagem recente do site Slate afirmou que Bezos é muito astuto, principalmente, quando o assunto é o código tributário dos Estados Unidos. A matéria afirma que o executivo gastou milhões de dólares para proteger seu negócio com a contratação de lobistas, de advogados e cultivando aliados políticos com grandes contribuições para campanhas.
  • Bezos já se viu em uma situação conturbada em que teve que pedir desculpas públicas por algumas decisões da companhia. "Este é um pedido de desculpas pela forma como lidamos anteriormente com a venda de cópias ilegais de '1984' e outros romances para o Kindle. Nossa 'solução' para o problema foi estúpida, impensada, e dolorosamente fora de sintonia com nossos princípios. É totalmente auto-infligida, e nós merecemos as críticas que recebemos. Nós vamos usar essa cicatriz dolorosa para nos ajudar a tomar melhores decisões daqui para frente, aquelas que correspondem com a nossa missão".
  • Muitos dos empreendedores que receberam investimentos da Bezos Expeditions afirmam terem tido ao menos uma conversa pessoalmente com Jeff Bezos. "Ele investe em coisas onde a tecnologia da informação pode perturbar modelos existentes", afirma Rodney Brooks, professor de robótica do MIT por trás do Robotics Rethink. "Ele não é certamente proativo, mas ele tem sido uma boa pessoa para conversar quando as dúvidas surgem. Quando lhe fazemos perguntas, vale a pena ouvir suas respostas".
  • Bezos costuma não ser muito simpático com situações que impeçam a inovação em suas plataformas e negócios. "Quando uma plataforma é self-service, até as ideias mais improváveis podem ser testadas, porque não há nenhum especialista pronto para dizer 'isso nunca vai funcionar'. E muitas dessas ideias funcionam e a sociedade se torna a grande beneficiária dessa diversidade".
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