Especial: Nova Zelândia mira no Brasil e América Latina para expandir negócios

Por Rafael Romer | 21.01.2014 às 16:56 - atualizado em 22.01.2014 às 15:57

*de Christchurch, Nova Zelândia

Chegar à Nova Zelândia partindo do Brasil (e vice-versa) não é uma tarefa fácil. São duas as opções principais, nenhuma delas amigável. Saindo de São Paulo, você pode voar até Santiago, Chile, e, em seguida, para para a principal cidade neozelandesa, Auckland, com trajetos que duram uma média de 18 horas. Se preferir o caminho mais longo, é possível ainda seguir até Dubai, nos Emirados Árabes, e provavelmente aguardar uma noite na cidade até o próximo voo com destino a Auckland. Neste caso, o período de trânsito pode chegar a 45 horas. E não se esqueça: grande parte das rotas incluem uma parada obrigatória na Austrália, que além de cansativa, exige a retirada de um visto de trânsito.

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Mas apesar de ameaçador, o longo trajeto que separa os dois países tem se mostrado cada vez mais simpático para kiwis (apelido dado a grande parte das coisas que têm origem na Nova Zelândia) e suas empresas, que começam a ver o Brasil e a América Latina com novos olhos empreendedores.

Christchurch

Christchurch, Nova Zelândia

Principal agência do governo de promoção de empresas neozelandesas fora do país, com escritórios em 36 países, a New Zealand Trade & Enterprise (NZTE) é atualmente a responsável por "preparar o terreno" no Brasil para a chegada de companhias kiwis que desejam atuar por aqui, dando suporte e informações sobre o mercado local, legislação, taxas, práticas de comércio e diferenças culturais. Atualmente, a agência divide espaço com o Consulado Geral da Nova Zelândia em um escritório em São Paulo, comandado pelo Comissário de Comércio Ralph Hays.

Hays, que assumiu o cargo no Brasil há alguns meses, após atuar como gerente de desenvolvimento de negócios para a NZTE na Espanha durante três anos, afirma que vê o Brasil como um mercado relativamente recente para a Nova Zelândia, apesar de já ter empresas kiwis operando por aqui há mais de 20 anos. "Tradicionalmente, empresas neozelandesas iriam para mercados anglo-saxões, como Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha ou Austrália, lugares com cultura semelhante ou que falam a mesma língua", explica. "Há oportunidades e é um momento bom para fazer negócios, há dinheiro disponível, a classe média está se movendo. Eu converso com meus colegas na Nova Zelândia sobre o tamanho do mercado e eles estão realmente impressionados. Acho que é um bom momento para se estar aqui".

Em março de 2013, o atual primeiro ministro neozelandês, John Key, veio ao Brasil pela para uma sequência de visitas a países da região latino-americana. Esta foi a segunda vez que um Primeiro Ministro neozelandês esteve no país; a primeira aconteceu em 2001. Na visita de três dias, Key se encontrou com empresários locais e com a presidente Dilma Rousseff, fechando um acordo de cooperação científica, tecnológica e de inovação entre os dois países.

Key-Rousseff

John Key e Dilma Rousseff fecham acordo de cooperação científica, tecnológica e de inovação entre os países (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Também foi assinado um acordo aéreo que permitirá que empresas brasileiras e neozelandesas operem sem limitações tarifárias ou de passageiros entre os dois países. O objetivo do acordo é aproximar as conexões entre Brasil e Nova Zelândia e aumentar o fluxo comercial e turístico.

A visita já trouxe alguns frutos positivos e atiçou o interesse do governo kiwi na região. No Brasil, a equipe da agência NZTE deverá saltar de seus atuais quatro funcionários para onze em 2014. Um novo escritório também deverá abrigar representantes das agências de promoção de Turismo e Educação do país, dois mercados chave de interesse da Nova Zelândia no Brasil.

De acordo com o Comissário, grande parte do interesse no Brasil parte de empresas das áreas de tecnologia da informação, biotecnologia e agrotecnolgia, que veem um amplo potencial de expansão em áreas rurais do país. O setor do agronegócio e principalmente dos laticínios é o principal motor da economia da Nova Zelândia atualmente, e diversas empresas fornecem alta tecnologia que pode agregar valor à produção e qualidade de produtos brasileiros do setor. "A Nova Zelândia é um país com economia baseada na agricultura e tem algumas semelhanças com o Brasil. E nesse mercado ela pode fornecer soluções para adicionar valor à produtividade, assim como adicionar qualidade à produção", afirma.

Mas o mercado brasileiro não é completamente desconhecido por neozeolandeses. No momento, uma série de empresas neozelandesas já opera ou mostra interesse mais próximo do Brasil, principalmente nas áreas de telecom, com soluções de rádio e comunicação global, e alimentos e bebidas, com soluções de automatização de empacotamento e de expansão de vida útil de produtos perecíveis.

Tait

Baseada em Christchurch, a maior cidade da Ilha Sul do país, a empresa de tecnologia de rádio comunicação Tait é uma destas companhias que já operam no Brasil há mais de 20 anos. Tradicionalmente operando no desenvolvimento, suporte e montagem de equipamentos de comunicação de rádio, a companhia passa por uma transformação interna e começa a focar no desenvolvimento de soluções e serviços integrados a seus produtos. "Grande parte dos nossos produtos foca em clientes que lidam com comunicações de missão crítica, o que significa que eles lidam com riscos altos e não podem ficar offline", explicou o Diretor de Marketing da Tait, James Kyd, em entrevista ao Canaltech Corporate na sede da empresa.

"O Brasil é um dos nossos mercados de foco para crescimento, e investimos em relações fortes com nossos clientes", afirma. No país, a empresa atua hoje com companhias como Petrobrás, Vale e a Polícia Militar de São Paulo. Segundo o relatório anual sobre a indústria da tecnologia neozeolandesa TIN 100, a Tait é atualmente a quarta maior companhia no país, com lucros de NZ$ 214 milhões (US$ 178 milhões) em 2013. A Tait não revela números detalhados, mas a região das Américas representa hoje cerca de 40% dos negócios

De acordo com Kyd, o Brasil representa uma fatia cada vez maior desse total, e a Tait já "olha com atenção" para a possibilidade de abrir um escritório no país em 2014. Caso confirmado, o escritório seria o primeiro da empresa na América Latina. O Brasil também é um primeiros países nos quais a empresa já opera seu novo serviço de gerencialmento tercerizado de redes de comunicação, que inclui toda a administração end-to-end de serviços críticos de comunicação de empresas de áreas como petróleo, gás, mineração, além do setor público, como segurança, água e rede elétrica. Por enquanto, uma única empresa utiliza o sistema, na região de São Paulo, mas o case ainda não foi divulgado pela Tait.

SLI

Do lado oposto de empresas tradicionais como a Tait, estão companhias relativamente novas, como a SLI Systems, fundada em 2001. Baseada também no polo de Christchurch, a companhia desenvolve uma tecnologia por trás de mecanismos de busca de sites de e-commerce que aprende com cada item pesquisado pelos usuários, dando destaque nos resultados para produtos mais populares.

"Nós vimos muito potencial, e nossos principais competidores não estavam por lá", afirmou o CEO e co-fundador da empresa, Shaun Ryan. "O setor de e-commerce parece estar explodindo no Brasil e a classe média comprando muito". A operação da SLI no país tem pouco menos de um ano, e conta com cerca de 20 clientes da área de e-commerce, como Ponto Frio, Saraiva e Centauro. "Uma das coisas que nos encorajou é o tamanho dos verejistas, são companhias grandes e para nós é bom começar no topo do mercado. Nós temos quatro dos dez maiores verejistas como clientes no Brasil e estamos negociando com outros", afirma. Apesar do pouco tempo de operação, o Brasil já representa 5% do total dos lucros da empresa.

Para Ryan, o Brasil hoje tem espaço de sobra e alta demanda para empresas focadas em serviços e softwares de nicho, área em que a Nova Zelândia vem se especializando nos últimos anos. "Converso com alguns de nossos clientes e as equipes de TI estão transbordando com projetos de infraestrutura. Ninguém mais tem tempo para essas coisas", brinca. Atualmente, a SLI conta com quatro desenvolvedores brasileiros na equipe de 121 pessoas.

Na região latino americana, outro foco principal do governo neozelandês continua no Chile, país mais próximo e com laços econômicos mais estreitos do que o Brasil. Com o período de instabilidade que enfrenta nos últimos anos, a Argentina vem perdendo espaço aos olhos de empresas kiwis, que têm dificuldade em retornar seus lucros de operação no país. Do outro lado, a Colômbia passa a despontar como um ponto interessante de negócio, e deve ter um representante da NZTE a partir de 2014.

*Durante sua estadia na Nova Zelândia, o repórter viajou para Christchurch a convite da agência New Zealand Trade Enterprise.