Empreendedores além do lucro: é possível criar negócios sociais e competitivos

Por Rafael Romer | 03 de Outubro de 2013 às 14h20

Na economia atual, cada vez mais temas como sustentabilidade e responsabilidade social estão em voga e muitas empresas passam a alçar seus objetivos além do simples lucro. Um número cada vez maior de empreendedores começa a pensar em modelos de inovação focados em resolver problemas sociais e ambientais do nosso cotidiano, mas sem deixar de lado as oportunidades de mercado. Essa é a ideia por trás do modelo dos chamados empreendedores sociais: agentes de transformação que investem em ideias economicamente interessantes, mas sempre com um fundo de desenvolvimento humano por trás.

A paulistana Gica Mesiara é uma das pessoas que decidiram investir em uma área pouco explorada, mas com grande potencial de mercado e sustentabilidade. Aos 26 anos de idade, com uma carreira firme no setor financeiro – aos dezoito anos Gica já atuava como gerente –, ela resolveu deixar de lado a posição estável, bom salário e contatos no ramo para se dedicar a outra paixão antiga: a natureza. "Eu precisava do verde e decidi usar minha força e minha energia para trazê-lo ao mundo em uma época que falar de meio ambiente ainda não era pauta", conta.

Com o intuito de transformar as cidades em "oásis" e de democratizar os espaços verdes, Gica fundou a Quadro Vivo, empresa voltada para projetos de jardins verticais para ambientes internos e externos. Aos poucos, o foco da empresa foi se modificando, e hoje Gica já a classifica como uma empresa de tecnologia verde. Entre as tecnologias desenvolvidas, grande parte já com patente internacional reconhecida, estão telhados verdes e a chamada Fitoremediação – que aumenta a capacidade depurativa das plantas de substâncias que podem ser tóxicas no ambiente. "A gente quer reflorestar a cidade, então estamos ocupando todos os espaços possíveis", explica.

Mas diferentemente do desejo da empreendedora de tornar um antigo sonho realidade, o médico endoscopista Roberto Kikawa conta que a inspiração para seu projeto social surgiu a partir de um episódio triste de sua vida. No segundo ano do curso de medicina em Londrina, o pai de Kikawa foi diagnosticado com um câncer de laringe já em estágio avançado. Após um início de tratamento conturbado, em um hospital que não tinha condições de ajudar o quadro de seu pai, Roberto conta que recebeu o apoio de dois médicos do instituto National Cancer Center do Japão, que deram um tratamento muito mais humano.

Apesar de ter falecido, o cuidado dos médicos japoneses com o pai de Roberto o inspiraram a criar um modelo semelhante de tratamento de pacientes com câncer, o que acabou se tornando, em 2008, o Centro de Integração de Educação e Saúde (CIES). O projeto utiliza as chamadas "Carretas da Saúde", unidades móveis que promovem exames de média complexidade para populações carentes. "A ideia é que a pessoa não sinta que está sendo uma cobaia, mas sim atendida de uma forma humana", explica. Quatro anos e meio depois, o projeto já recebeu diversos prêmios, entre eles o de Empreendedor Social de 2010, e hoje já conta com mais de 100 mil pessoas atendidas em cinco estados.

Hoje, a CIES já está organizada e é classificada como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) – a primeira do país na área da saúde. "Essa era a melhor forma de fazer parcerias público-privadas", explica o médico. Com a OSCIP criada, Roberto conta que foi necessário desenhar um plano de escalabilidade para sustentar o projeto, que logo começou a ver um grande número de municípios interessados. O setor público é atualmente uma de suas principais fontes de renda.

O segundo passo foi a criação de uma Empresa Social, que hoje divide a organização entre a parte administrativa, de criação e venda de unidades de saúde, e o próprio CIES, que foca no atendimento médico. Atualmente, 51% de todos os lucros da empresa são retornados em investimento para a escalabilidade do processo. A expectativa para 2013 é aumentar a operação do projeto para 280 mil pacientes atendidos até o final do ano. "Aí a gente precisa parar um pouco para crescer com qualidade", afirma Roberto.

"A gente entendia que precisava sobreviver, que a gente precisava ser rentável. Mas um compromisso nosso era sempre reinvestir o excedente na própria empresa", explica Gica. Segundo a empreendedora, os onze anos que atuou no setor financeiro foram muito importantes para a experiência de como desenvolver o negócio social sem perder o foco no mercado – algo essencial para quem deseja empreender desta forma. A empresa começou atuando junto a grande players de mercado, na tentativa de ganhar visibilidade ao mesmo tempo que se estabelecia como líder no setor. Logo, a característica da empresa de manter o nível dos projetos garantiu à Quadro Vivo uma boa imagem no mercado. "O que muda é que o dinheiro não vem à frente. Se um projeto não vai funcionar, a gente simplesmente recusa", conta.

Atualmente, iniciativas como as de Gica e Roberto já são bem aceitas e até estimuladas pelo mercado, através de uma série de associações ao redor do mundo. Entre elas está a Ashoka, criada pelo empreendedor norte-americano Bill Drayton, considerado o pai do termo "empreendedorismo social". Sozinha, a Ashoka já possui uma rede de mais de 2,7 mil soluções inovadoras e estimula novas iniciativas através de bolsas-auxílio para o início de operações e programas de sustentabilidade. No Brasil, o prêmio Empreendedor Social, realizado pelo jornal Folha de S.Paulo em parceria com a Fundação Schwab, também estimula e premia anualmente empresas que inovam nesta área.

Mas ainda que empolgantes, os empreendimentos sociais costumam sofrer com o mesmo tipo de dificuldade que qualquer negócio comum. Segundo Roberto, é importante que o empreendedor procure conhecer o mercado no qual quer entrar e busque conselhos ou até mesmo cursos que orientem os primeiros passos. Como conta, ele demorou um "bom tempo" para aprender como desenvolveria o modelo de negócio de seu projeto na área da saúde, e chegou a circular panfletos entre amigos e possíveis parceiros para explicar a ideia.

Para ambos investidores, o crescimento de um empreendimento social também é algo particularmente delicado, e exige um cuidado especial de quem faz essa aposta. É importante, por exemplo, que a empresa procure manter o DNA original entre seus funcionários, para que a escalabilidade não comprometa o lado social da iniciativa. "O empreendedorismo social é quando o valor social suplanta o valor comercial", explica Roberto. "Mas é preciso ter os dois, senão não há sustentabilidade".

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