Educação 3.0 coloca o aluno no centro do processo de aprendizagem

Por Colaborador externo | 13 de Setembro de 2013 às 13h45

*Gonçalo Margall

Para mim, a educação adaptativa é mais um passo em direção a esse mundo tão claramente visto e vivido por Paulo Freire. Se a educação é o espaço de transformação e evolução do homem por excelência, estamos vivendo, agora, um novo limiar de mudanças. A soma dos conceitos da educação adaptativa com a tecnologia disponível na educação 3.0 faz com que pela primeira vez na história da humanidade seja possível reunir dois grandes feitos: focar a educação no perfil individual do aluno, e fazer isso com milhões de alunos ao mesmo tempo.

Na primeira onda da educação – período que conforme o autor que define o que foi a educação 1.0 durou milênios ou séculos – o modelo era totalmente individual. Um tutor iria ensinar diversas disciplinas a um único aluno (normalmente um filho da elite, destinado a preservar as conquistas da geração anterior). Isso era feito num quarto da casa onde vivia este menino, numa biblioteca, na varanda – o lugar era privilegiado e o esquema de aulas particulares também.

Fora deste cenário estavam todas as outras classes sociais, e as mulheres também. O resultado da educação 1.0 foi a formação de alguns sábios e intelectuais mas, também, a persistência do analfabetismo, a impossibilidade de ter acesso ao conhecimento, o fortalecimento dos abismos entre classes e geografias.

Do ponto de vista de tecnologias educacionais, temos, depois de Gutemberg, livros e cadernos impressos em papel e alguns mapas; tablets de argila e lousas fizeram, por eras, parte da dinâmica tutor/aluno.

Educação 2.0

Nos últimos 100 anos assistimos ao império da educação 2.0. Na verdade, à medida que a revolução industrial espalhou-se pelo mundo, o modo de produção tornou-se mais sofisticado, e as empresas passaram a exigir mais conhecimento de sua mão de obra. Políticas nacionais educacionais tornaram-se uma regra; no Brasil, merecem destaque as reformas feitas por Getúlio Vargas, capitaneadas, na verdade, por Gustavo Capanema. O formato da educação oferecida era o que todos conhecemos: a sala de aula é o espaço de ensino e aprendizagem por excelência; o aluno é visto como mais um dentro de um grupo, e deve apresentar a performance e o comportamento que se espera de sua classe, ou grupo.

Por outro lado, a educação 2.0 já tinha uma clara preocupação com a inclusão de toda a população na escola. A competitividade, porém, continuou sendo a regra: a sala de aula era um microcosmo em que os “melhores” avançavam e os “piores” ficavam para trás. Para os professores, cabia o enorme desafio de preparar e entregar aulas que seriam dadas a alunos muito diferentes uns dos outros mas que seriam avaliados, sempre, por meio das mesmas métricas.

Curiosamente, se analisarmos que tecnologias passaram a ser usadas na educação 2.0, identificaremos alguns dos caminhos que nos levaram até a educação 3.0. Sim, por décadas a sala de aula por excelência era ocupada por carteiras colocadas em formato “escolar”, tendo a mesa do professor à frente; atrás do professor, a lousa e, talvez, um mapa. Sobre as mesas dos alunos, cadernos com pauta, cadernos de exercícios e uma “novidade” – os livros escolares que, por muitos anos, todos os alunos tiveram de usar como base dos estudos de Ciências, português, etc.

Últimos 20 anos revolucionaram as tecnologias educacionais

Nos últimos 20 anos, a revolução da tecnologia da informação começou a se infiltrar neste ambiente, provocando mudanças que seguem acontecendo. Sai de cena a lousa negra ou verde, entra em cena a lousa digital interativa. Som, vídeo e imagens processadas localmente ou na Internet passam a dar uma nova densidade (e atratividade) a conteúdos educativos. Diversos dispositivos eletrônicos tornam o aprender, dentro da sala de aula, ainda mais envolvente: tablets, máquinas de votar, microscópios eletrônicos, câmeras fotográficas, etc.

Do lado de fora da escola, os alunos estavam imersos num novo mundo digital, interativo, conectado 24X7X365.

Diante desta realidade, as escolas começaram a caminhar em direção ao aluno, adotando dentro da classe tecnologias que, antes, mostraram seu poder de sedução na vida real. A revolução da tecnologia provocou, também, profundas mudanças no perfil do professor, que passou a ser desafiado a lidar com dispositivos e softwares criativos e atraentes, algo que modificou a maneira de preparar e dar aulas.

Essa fase de transição está sendo vivida ainda por muitas escolas. Eu acredito que, no Brasil, talvez nem sequer 10% das salas de aula de instituições públicas ou privadas já contem com um ambiente interativo multimídia. Ainda assim, o desejo de contar com novas tecnologias educacionais já é algo presente na mente (e talvez no planejamento) da maior parte dos gestores.

Mundo digital é o que torna possível a educação 3.0

Em meio a este momento começamos a vislumbrar, no Brasil, alguns exemplos de escolas que decidiram avançar para a educação 3.0, ou educação personalizada. Antes de falar da parte “humana” desta onda, quero destacar que nada seria possível sem o auxílio da tecnologia. Para ser tornar uma realidade e promover o ensino individualizado, sintonizado com as potencialidades e carências de cada aluno, a educação 3.0 depende pesadamente de sofisticadas infraestruturas e aplicações tecnológicas. É somente num mundo digital, conectado e interativo que a educação 3.0 acontece. Sem a tecnologia, o sonho de dar um tratamento único e sob medida para cada criança, cada aluno, nos faria voltar ao século XVIII, quando havia um tutor para cada aluno.

Muito diferente da educação 1.0, a educação 3.0 é totalmente inclusiva – em número, gênero e classe econômica. O foco é, como na educação 2.0, nas massas; mas, ao contrário do que se viu nesta fase, o maior sonho é enxergar e respeitar as peculiaridades do aluno Luis, do aluno Pedro, da aluna Juliana. Um cuidadoso diagnóstico de cada um é construído por meio de sofisticadas soluções que mapeiam a vida digital deste aluno e, a partir daí, constroem o perfil dinâmico daquele aluno em particular. Esse perfil ajuda o professor a planejar o conteúdo a compartilhar com aquele aluno, além de determinar as métricas com que ele será medido nas avaliações escolares.

As habilidades e competências de Luis não são as mesmas das da Juliana

É importante destacar que as soluções técnicas da educação 3.0 baseiam-se num valor muito claro: as inteligências do ser humano são diferentes umas das outras; as habilidades e competências do Luis não são as mesmas que as da Juliana. O objetivo não é enquadrar, e, sim, identificar, valorizar e ir ao encontro deste aluno como ele é. Dentro dos conceitos da educação adaptativa, a escola, os professores, os gestores, as mesas, as cadeiras, até o tempo do aluno estudar em casa – tudo é organizado de modo a respeitar o ritmo desta criança. O objetivo é propiciar uma experiência inclusiva que aumente a esperança e crie, em cada aluno, o desejo de evoluir para ser, cada vez mais, ele mesmo.

*Gonçalo Margall é diretor da Sapienti, empresa pioneira no segmento de tecnologias educacionais.

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