Diretor do Spotify Labs fala sobre desafios de operar no Brasil

Por Rafael Romer | 18 de Julho de 2014 às 15h45

Teve início ontem (17), em São Paulo, o festival de cultura de internet YouPIX, que teve pela primeira vez um dia voltado inteiramente para o setor de negócios. O YouPIX BIZ foi aberto apenas para agências, marcas cadastradas e profissionais de mídia digital.

Um dos principais convidados da edição deste ano, o Diretor do Spotify Labs, Gary Liu, fez uma apresentação especial sobre o mercado da música digital e como empresas e marcas podem utilizar o impacto da música na vida das pessoas em seu favor.

Há pouco mais de dois meses no Brasil, o Spotify tem enfrentado alguns desafios para se estabelecer por aqui devido a características locais dos usuários brasileiros, que têm, segundo ele, tornado a operação mais interessante.

Para o executivo, uma dessas características únicas do nosso mercado é a preferência dos brasileiros por músicas nacionais – segundo o Diretor do Labs, cerca de 60% do total. Isso coloca o Brasil em primeiro lugar na lista dos que mais privilegiam conteúdo nacional frente ao estrangeiro. O mesmo quadro só se repete no Japão e na Índia.

Gary Liu Spotify

O Diretor do Spotify Labs, Gary Liu, fechou a primeira noite no YouPIX nesta quinta-feira (17) (Foto: Rafael Romer/Canaltech)

Isso levou a empresa a focar em uma estratégia forte de playlists com conteúdo nacional e de curadoria feita por artistas e colaboradores locais. Um dos pontos principais da apresentação de Liu, os chamados "tastemakers" também são outra chave para a atração de mais e mais pessoas para a plataforma. Tastemakers são pessoas que criam playlists e mostram músicas interessantes para o público, a fim de fazer com que as pessoas descubram cada vez mais conteúdo na plataforma.

Um dos principais tastemakers atuais da empresa é o co-fundador do Napster e primeiro presidente do Facebook, Sean Parker, dono da playlist "Hipster International". Com mais de 12 horas de duração, a playlist de Parker é atualizada constantemente pelo executivo e tem mais de 800 mil seguidores no Spotify.

A popularidade da lista é tão grande que ela já foi responsável por lançar artistas para o estrelato, caso da cantora neozelandesa Lorde, que teve o hit Royals descoberto por Parker.

Outra característica desafiadora do Brasil para a empresa é que os brasileiros ainda preferem "ter" as próprias músicas, seja através do download pirata de arquivos .mp3 ou através da compra por plataformas como o iTunes.

Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Opinion Box em parceria com o Mobile Time mostrou que 55% dos 1,4 mil internautas brasileiros entrevistados preferem ter suas próprias músicas no computador ou celular para ouvirem quando quiserem. Dos que utilizam o smartphone ou celular (75,8% do total) para ouvir músicas, 84% afirmaram que utilizam mp3s gravados no aparelho contra apenas 30,7% que utilizam apps de streaming.

Questionado sobre a dificuldade de operar em um mercado assim, Liu afirma que isso não chega a ser um "problema" para a operação, mas não esconde que o comportamento está na mira do Spotify como algo a ser mudado. "Nós acreditamos que vocês não precisam possuir a música. Na verdade, é melhor não ter a música, porque isso te limita a um mundo muito pequeno de conteúdo, além de te ocupar espaço no smartphone ou computador. Se você tem acesso a um mundo de conteúdo musical, você entende como isso é melhor", defendeu durante a apresentação.

Segundo Liu, parte da estratégia do Spotify para encarar essa característica do mercado brasileiro é fazer mais parcerias com selos independentes nacionais na tentativa de aumentar a oferta de músicas brasileiras e garantir que mais usuários busquem o serviço.

Além disso, a pesquisa também revelou que metade dos internautas brasileiros pesquisados afirmou não ter conhecimento do que são serviços de streaming de música, o que indica que o mercado nacional ainda tem um longo caminho para percorrer.

Segundo Liu, a estratégia do Spotify por aqui, assim como em outras regiões, deve ser de apostar nos early adopters da plataforma, que devem servir como alavanca de divulgação do serviço para mais e mais usuários.

"[O desconhecimento da marca] é um desafio que nós enfrentamos em quase todo novo mercado", explicou Liu. "Mas nós aprendemos com nossa experiência em países nórdicos, da Europa ocidental e nos Estados Unidos que as pessoas que já conhecem nossa marca adotam o serviço muito rápido. E elas chamam seus amigos, que avisam outros amigos, e esse processo viral e social é o que nos ajuda".

Desde que chegou ao Brasil, o Spotify tem colocado que seu principal adversário no mercado local não são outros serviços de streaming de música como o Deezer ou Rdio, mas sim a pirataria de músicas. Questionado pelo Canaltech, Liu afirmou que a empresa ainda não tem nenhuma estratégia definida para enfrentar o problema por aqui.

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