Opinião: cuidado com o xeque-mate do Google, Apple!

Por Luciana Zaramela

Que o Google está tentando dominar o mundo, todo mundo sabe. Mas enquanto o sol brilhar para as empresas mais valiosas do mercado tecnológico, quem está à frente do ranking vai precisar ter muito jogo de cintura para segurar a posição durante os próximos anos. E a Apple que se cuide, pois está perdendo, de maneira quase imperceptível, sua hegemonia em termos de hardware e software para o gigante das buscas.

Não é possível datar com precisão quando tudo começou, mas vamos escolher um marco que certamente todo mundo lembra: quando a Maçã resolveu caminhar com suas próprias pernas no terreno de mapas e eliminou o Google Maps de seu catálogo nativo de apps para iOS. Sem a ajuda do Google, até a Apple ficou perdida em seus caminhos tortuosos e confusos, e acabou dando de cara em um beco sem saída em sua própria rota de programação. Daí então vieram as desculpas públicas envolvendo o CEO Tim Cook, a demissão de Richard Williamson, responsável pelo aplicativo de mapas nativo da Maçã, e de Scott Forstall, vice-presidente sênior do iOS que se recusou a assinar a carta de desculpas da empresa pelas falhas do Apple Maps. Sem citar a bola de neve e os problemas subsequentes às saídas dos executivos. Ao atualizarem seus iPads e iPhones para a versão 6 do iOS, os usuários iniciaram uma onda de reclamações a respeito do aplicativo na web e uma enxurrada de trollagens logo começou a surgir nos sites, blogs e redes sociais.

Ponte do Brooklyn Apple Maps

A catastrófica experiência de rotas e imagens desde o lançamento do Apple Maps: vista da Ponte do Brooklyin - NY, antes das melhorias do app (Imagem: NY Daily News)

Enquanto a Apple dava um show de trapalhadas e quebrava a cabeça para contornar a situação e resolver o problema, o Google mantinha-se firme com seu Maps e demais aplicativos, até que, finalmente, foi integrado à iTunes App Store o saudoso app funcional que todo usuário de iPhone adorava: o Google Maps. E ontem (8), uma atualização discreta, porém bastante poderosa, foi implementada no aplicativo do Gmail para iOS. Olha o Google agindo na surdina e alfinetando a concorrência outra vez!

A grande sacada foi o update do Gmail para iOS com links diretos para os aplicativos do YouTube, do Google Maps e do Chrome dentro do sistema operacional móvel da própria Apple. Com isso, se o usuário tem instalados no gadget os apps dos serviços do Google, acaba usando o smartphone ou tablet apenas como uma interface para abrir, quase que exclusivamente, os serviços gratuitos e de excelente qualidade do concorrente. De forma sorrateira, o Google está jogando farinha no ventilador de todo mundo. É Google Glass daqui, Chrome OS dali, Chromebook acolá, serviços de nuvem por toda a parte e uma montanha de motivos que deixaria qualquer empresa concorrente com o rabo entre as pernas.

Mas como o foco agora é a Apple, vamos estudar um pouco mais a situação atual que deixou a toda-poderosa Maçã em xeque: aos poucos, o Google cria maneiras de atrair os usuários de iPhones e iPads para cativá-los com seus aplicativos. Convenhamos... os apps desenvolvidos pela equipe do Google são funcionais, rápidos, eficientes e gratuitos. Quem usa iOS tem pelo menos um app do gigante instalado no smartphone. Devagar, o Google está transformando iGadgets em um meio puramente físico de acessar seus serviços. Ou, em outras palavras, deseja que iPhones e iPads sejam meros dispositivos de acesso ao Gmail, ao Chrome, ao Google Drive, ao YouTube e a tantos outros de seus tantos serviços disponíveis (que ainda são melhor executados pela plataforma Android).

Xadrez Google Apple

É claro que a Apple já percebeu a situação e a essa hora deve estar bolando um plano para garantir sua zona de conforto. Se Steve Jobs ainda estivesse vivo, talvez o cenário tecnológico atual seria um pouco diferente. Mas agora o problema está nas mãos de Tim Cook, e o que ele deve fazer, afinal? Não tem muita saída. Com poucas peças no tabuleiro e vendo seu rei em xeque, a Maçã deve mover uma estratégia para o mesmo cenário do Google, e concorrer não só com ele, mas com todos os demais concorrentes. É preciso introduzir um amplo espectro de serviços web e aplicativos de grande impacto e grande valor enquanto ainda há tempo e enquanto a reputação de empresa inovadora ainda brilha no mercado. E não, o negócio não é manter o egoísmo e criar aplicativos high level só para dispositivos iOS: está na hora de ampliar os horizontes e funcionar como ameaça para os concorrentes, disponibilizando apps de qualidade para todas as plataformas móveis.

Tempo é dinheiro, e essa máxima pode ser levada em consideração pela Maçã neste momento em que se encontra entre a cruz e a espada. Dinheiro não é o problema, mas a Apple não dispõe de tempo para contratar várias equipes desenvolvedoras e criar aplicativos robustos, prontos para bater de frente com a concorrência. A solução é simples: continuar procurando desenvolvedores que já criaram bons aplicativos, startups de potencial criativo e iniciar o contra-ataque, vendendo soluções como as do Google no mercado mobile, a baxíssimo custo ou gratuitamente.

Talvez esse, em um primeiro momento, seria o melhor caminho a seguir enquanto a Apple se vê, aos poucos, encurralada em seus próprios dispositivos. E fazer como fez o Google: implementar soluções cujo foco seja fácil acessibilidade e qualidade. Soluções úteis que sejam acessíveis de qualquer lugar, a qualquer momento, em qualquer plataforma, dispositivo ou sistema operacional. Se isso acontecer, a partida entre as duas gigantes ainda terá um longo caminho pela frente. Caso contrário, é xeque-mate para o Google.

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