BRToken expande parcerias comerciais e mira no exterior

Por Rafael Romer | 18.07.2013 às 18:16
photo_camera Rafael Romer/Canaltech

Há pouco mais de cinquenta anos, Santa Rita do Sapucaí era somente mais uma das pequenas cidades produtoras de café e leite da região sul de Minas Gerais, com uma economia focada basicamente nos produtos da agropecuária local. Mas uma mistura de incentivos fiscais, mão-de-obra especializada e proximidade de centros urbanos importantes transformaram o local em uma versão brasileira de um dos maiores centros de inovação tecnológica do mundo, o Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Batizado de Vale da Eletrônica, em homenagem à contra-parte norte-americana, a região mineira se tornou um dos principais pólos de tecnologia do país, com cerca de 150 empresas dedicadas à área da eletrônica, fabricando e montando mais de 13,5 mil produtos diferentes e empregando mais de 9 mil pessoas.

Mas a transformação de Santa Rita em um dos centros da eletrônica brasileira não aconteceu da noite para o dia e nem de maneira gratuita: muitas empresas migraram para lá atrás do desconto no Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), oferecido pelo governo Estadual, sem contar a proximidade de centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte e, principalmente, a mão-de-obra mais barata e especializada, fornecida por dois centros de tecnologia locais: o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e a Faculdade de Administração e Informática (FAI).

Uma pioneiras na aposta do uso de tokens para autenticação de transações no mercado financeiro, e a única a fazê-lo no Brasil, a BRToken foi uma das empresas que apostou no deslocamento de sua produção para o Vale da Eletrônica. Da origem da empresa fundada em 2013, em Cotia, interior de São Paulo, agora só resta o escritório comercial. Além dos incentivos locais, a empresa se mudou para Santa Rita em 2007 após assinar um acordo com a prefeitura local, que rendeu um galpão para o início das operações em regime de comodato.

Em 2011, a empresa se mudou para a atual fábrica, ainda alugada, mas bem maior que o espaço anterior, onde toda a produção dos tokens é realizada – com a exceção dos componentes eletrônicos, que são importados. Da produção do chip do dispositivo ao desenvolvimento do firmware, passando pelas baterias de testes e acabamentos, todos os passos são realizados dentro da empresa e em companhias parceiras da região.

A produção

Desde 2003, quando iniciou suas operações, a BRToken já fabricou mais de 3 milhões de tokens, entre eles, o seu produto mais comercializado, o SafeSignature V1, utilizado para autenticar e assinar digitalmente transações realizadas na internet. Segundo Fernando Lao, diretor de operações da BRToken, hoje a fábrica produz cerca de 2,5 mil tokens por dia, mas tem capacidade para expandir a produção para até 10 mil unidades por turno de oito horas.

Após terem suas placas internas montadas em uma empresa parceira em Santa Rita, os tokens seguem para a linha de produção da BRToken, onde recebem componetes internos, a versão específica do firmware e peças de acabamento.

Faz parte da produção um rigoroso processo de checagem de cada um dos tokens produzidos para evitar problemas do produto final recebido pelo cliente. Atualmente, cada unidade passa por cerca de dez processos de checagem, alguns deles redundantes, que passam por testes de sincronia de servidor e relógio interno, testes de bateria e medições de consumo para garantir o funcionamento do token. “Nós temos um sistema de rastreabilidade completo: operador, data, hora, minuto e os valores que foram registrados em cada token. Isso permite que a gente faça uma análise muito mais profunda, se for necessário, de qualquer token que já foi fabricado pela empresa”, explica Lao. A empresa possui hoje um retorno de unidades defeituosas (RMA) de apenas 0,04%, índice considerado baixo para padrões da indústria.

A BRToken também faz o trabalho de coleta, armazenagem e reciclagem de componentes utilizados na produção das unidades dentro da fábrica. Dependendo do estado de conservação, displays, partes plásticas e até baterias são reaproveitadas pela empresa ou redistribuídas para empresas da região. De acordo com Lao, cerca de 90% do material recoletado pela empresa pode ser reutilizado de alguma forma e cerca de 1% de todos os tokens produzidos já retornaram para a reciclagem.

Próximos passos

O foco agora é mudar a imagem de “empresa de tokens” para uma empresa de segurança, diversificar a produção e expandir os negócios para fora do país. "Neste ano, nós vamos começar a investir em mercados internacionais da América Latina, Caribe e Estados Unidos. A ideia é finalizar [o processo] em 2014", afirmou o diretor comercial da empresa, Cesar Lovisaro. "Se a gente for, nossas chances de andar mais rápido são muito maiores". Entre os potenciais mercados de expansão da empresa estão Estados Unidos, México, Chile e Colômbia.

Mas o mercado interno continua sendo o foco mais importante da companhia, que anunciou nesta semana a expansão de seus canais de venda dentro do país para aumentar a capilaridade em diferentes regiões do Brasil. Entre novos parceiros comerciais estão empresas de São Paulo (NetRunner, IS2B, Criptosec e 3Ativ), Rio de Janeiro (Dinatec), Ceará (Energy Telecom) e Brasília (TecBis e SW TI Tecnologia), com foco em diferentes mercados.

Apesar de ter forte atuação no setor bancário, que representa cerca 70% do faturamento da empresa, os executivos da BRToken afirmam que o foco agora é na diversificação de produtos e soluções de autenticação de segurança. Só no ano passado, a empresa investiu R$ 800 mil no setor de pesquisa de desenvolvimento para novas soluções. Entre elas está um autenticador de transferências mobile multiplataforma para tablets e smartphones, o primeiro produto para pessoa física feito pela empresa. Entre suas novas soluções, também estão autenticadores para assinatura de transação via QR Code, SMS ou até telefonia, voltados para o uso no e-commerce, e soluções acessíveis de autenticação de transação para usuários com deficiências visuais ou auditivas. A empresa deve apresentar seis novos produtos ainda em 2013.

Entretanto, não estão nos planos da BRToken se afastar tão cedo do principal produto da marca, os tokens de autenticação físicos. Para o Diretor de Tecnologia Alexandre Cagnoni, tal tecnologia não deve desaparecer tão cedo e continuará como uma alternativa segura de autenticação externa para transações na internet. "Se você começa a fazer transação no celular, por exemplo, e ele não é mais um ambiente seguro, você compromete o processo. Você ainda precisa de alguma coisa externa", afirmou.

Ainda neste mês, as primeiras 500 mil unidades da segunda geração do token da empresa, o SafeSignature V2, devem começar a ser utilizadas por um dos principais clientes da empresa. Diferente da geração anterior, o V2 possui dois botões: um para geração de OTP (sigla em ingles para "senha única") e outro para leitura de tela para assinatura de transações. Pela assinatura, a empresa pretende evitar um tipo de ataque cada vez mais comum na rede, o chamado Man in The Browser. Usando malwares, hackers conseguem "sequestrar" e modificar pedidos de transações sem que o usuário perceba a mudança nas informações que aparecem na tela do internet banking, como valor, agência e conta. Mas com um agente externo de verificação, é possível realizar a checagem das informações que aparecem na tela por meio de uma sequência binária de flashes na tela do PC, que pode ser utilizada para "assinar" virtualmente a transação.