As lições da Palm para a Apple

Por Osni Oliveira | 13 de Novembro de 2013 às 12h40

Era uma vez uma empresa de TI muito inovadora. Sempre olhando à frente, fazendo produtos de qualidade.

Ela não inventou um certo dispositivo, alguém já tinha feito antes – ou, pelo menos, tentado. A questão é que não tinha dado muito certo. Essa empresa, no entanto, pegou um conceito e dele fez um produto realmente útil, tendo sucesso onde as outras empresas haviam falhado. Praticamente criou um novo mercado e seus clientes eram felizes. Parecia não haver limites para o sucesso.

Porém, logo os competidores começaram a fazer produtos similares. No início, todos riam desses produtos, praticamente cópias mal-feitas. Depois, os competidores evoluíram e seus produtos também. Até que o jogo ficou empatado e a concorrência começou a ter um trunfo ou dois. A inovadora empresa foi passada para trás.

Durante um bom tempo, ela não acreditou estar ameaçada, postura que se refletia no discurso dos seus clientes, quase "seguidores" ou "fanboys". Frases como "não tem como comparar a elegância" ou "a facilidade de uso é muito maior" começaram a soar como desdém de quem percebe que o outro é superior. Alguns clientes começaram até mesmo a migrar para produtos concorrentes, chateados com a falta de inovação da sua até então invencível e inovadora empresa.

Estou falando da Apple? Não, mas poderia. Na verdade, a empresa em questão é a Palm, que sobre o conceito de PDA (Personal Digital Assistant), algo tentado diversas vezes por várias empresas (inclusive a própria Apple, com o Newton), criou um produto excepcional e definiu uma era. Seu mérito foi perceber que as inovações tecnológicas eram importantes para o produto, mas a única coisa essencial era que ele funcionasse bem. Por que tentar algo que parecia impossível para a tecnologia da época, como reconhecimento de escrita, se padronizando o desenho de cada letra não só era possível como muito produtivo? A linguagem Grafitti, que foi criada essencialmente com esse propósito, operou esse milagre na época e é apenas um dentre vários exemplos de como a empresa sabia exatamente até onde ir no compromisso entre o ideal e o possível.

Porém, com o surgimento do Pocket PC, da Microsoft, não era mais tão fácil. Os usuários da Palm riam dos usuários de Pocket PC – era um produto realmente inferior, parecia uma cópia ruim. Interface difícil de usar, configurações e configurações em que o pobre usuário acabava perdido, falta de aplicativos. Após algum tempo, porém, a Microsoft foi corrigindo os problemas e, eventualmente, acabou passando a Palm em qualidade e número de usuários.

No início da era dos Smartphones, a Palm tinha seu produto (Palm Treo), mas a Microsoft já era um monstro e dominava o mercado com seus Windows Mobile. Os usuários da Palm passaram a ser motivo de piada e acabaram, um a um, migrando para outras plataformas. O fim da Palm foi muito triste: dividida entre uma empresa que cuidava do hardware, outra que fazia o software (curiosamente, como a Apple, a Palm também verticalizava sua produção). Acabou vendida para a HP, que nunca teve interesse real nos produtos e acabou "enterrando" o promissor WebOS.

Palm e Apple têm mais em comum do que se possa imaginar. A Apple também criou mercados, simplesmente pegando produtos que já existiam, mas nunca haviam decolado – tocadores mp3, tablets e smartphones (como PDA + telefone totalmente integrados, não o remendo que dominou o mercado por tanto tempo) e fez produtos realmente surpreendentes, como o iPod, iPad e iPhone. Assim como a Palm, a Apple tem usuários fiéis e entusiastas. A Apple também acredita que ter sido pioneira é tão relevante que a concorrência não será capaz de a ultrapassar. Continua insistindo na sua qualidade, elegância e facilidade de uso, quando a concorrência já tem dispositivos mais avançados e está tomando a liderança.

Não que a Apple não tenha ciência do problema. Não que ela não tente. Particularmente, gostei muito das mudanças no design do iOS 7 e, apesar de achar que está longe da perfeição – na verdade, tem vários problemas – acho que a Apple está no caminho certo. Mas, vários usuários torceram o nariz para as mudanças. O problema é que há algum tempo a Apple não é capaz de surpreender com seus produtos, apenas entrega mudanças incrementais. E seus usuários esperam ser surpreendidos, todos esperam que a Apple continue sendo a empresa que está à frente.

Não acho que a Apple vá acabar como a Palm, tendo o mesmo triste fim. A companhia é muito grande, sólida demais e tem recursos e tempo para virar o jogo. Mas, não faria mal olhar a história da Palm e tentar evitar os mesmos erros. Deixando a soberba de lado, tentando algo realmente novo, voltando a causar surpresa e inveja, a Apple jamais se tornará a nova Palm – mas bom tomar cuidado porque, como sabemos, a história vive se repetindo.

Osni Oliveira
Osni Oliveira, instrutor e desenvolvedor na Caelum - Ensino e Inovação, possui mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento. É Técnico em Processamento de Dados pelo Colégio Técnico de Campinas - Unicamp, Bacharel em Análise de Sistemas pela PUC Campinas e possui extensão em Gestão de Projetos PMI pela UniAnchieta. Conta com passagens por empresas como Softway e experiência como consultor e gestor em projetos, com foco em ERPs e sistemas para Comércio Exterior. Hoje, é instrutor dos cursos de iOS, sua especialidade, além dos cursos de C#/.NET e Java.

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