Aprendizagem e tecnologia, da pintura rupestre à inversão da sala de aula

Por Luciano Sathler | 21 de Agosto de 2012 às 15h20

Algumas das mais antigas representações artísticas conhecidas são as chamadas gravuras rupestres, imagens gravadas nas paredes e tetos das cavernas ou nas rochas ao ar livre. Já na pré-história encontramos homens e mulheres interessados em se expressar, ao ponto de encontrarem tempo para desenvolver técnicas e materiais que permitissem preservar e transmitir uma mensagem. Era parte de sua herança cultural, que precisava ser partilhada tanto com seus contemporâneos quanto com os descendentes e futuros visitantes que por ali passassem. As cores, os traços, o fogo para aquecer a pedra, tudo fez parte de uma nova tecnologia à época, cujo princípio era o mesmo da Educação em nossos dias: fazer a cultura humana ser preservada, conhecida e aperfeiçoada a cada geração. Aparentemente, funcionou bem na ocasião.

Mais recentemente tivemos a revolução proporcionada pelo livro, popularizado de forma inédita à mesma época da Reforma Protestante e do Renascentismo. Tempos em que a liberdade abriu espaço em meio ao dogmatismo, ao cerceamento da criatividade e à exploração do povo pelas autoridades eclesiásticas e a nobreza feudal de então. As escolas e universidades se estabeleciam, tirando dos mosteiros e abadias a exclusividade de manter boas bibliotecas. O trabalho dos professores passou do deslumbramento contemplativo da transcendência para o despertar do interesse pelo raciocínio científico.

Há algumas décadas estamos diante da aceleração dessa curva da inovação, pela crescente capacidade de produção, armazenamento, difusão, reprodução, reelaboração e publicação de informações em diferentes devices. O uso intuitivo das telas abriu as portas a novas levas de usuários. Novamente as escolas e universidades precisam mudar para dar conta de um novo perfil de alunado, além de passarem a competir com novos atores na arena educativa, tais como redes sociais, agentes inteligentes de busca e categorização (como o Google) e os vídeos disponibilizados em abundância na internet, que permitem a adoção da metodologia designada em inglês como flipped classroom.

Flipped classrom refere-se à mudança de metodologia que implica em inverter a sala de aula, ou seja, o professor organiza o plano de ensino para que os alunos assistam às aulas expositivas por meio dos vídeos na internet, quando e onde quiserem. E nos horários em que os estudantes usualmente se encontram com o docente, num espaço físico compartilhado e ao mesmo tempo, todo esforço é dedicado a tirar dúvidas e a desenvolver atividades individuais ou em grupo, o que permite o acompanhamento mais personalizado e a resolução dos problemas assim que eles surgem.

Fica mais fácil criar situações de aprendizagem em que os estudantes possam aprender fazendo, experimentarem para verificar a validade do que assistiram nos vídeos, interagirem objetivamente com os colegas e professores, o que ajuda a melhorar a compreensão e o desenvolvimento de novos conhecimentos.

O avanço dessa metodologia deve desembocar na televisão educativa sob demanda. Cada escola ou universidade terá seu próprio canal de TV digital ou fará parte de redes televisivas educacionais, onde as aulas ao vivo ou pré-gravadas poderão ser acessadas gratuitamente ou compradas em blocos, mediante o pagamento de mensalidades. O aluno poderá se interessar em receber aulas articuladas ao redor de temas, tais como meio ambiente e sustentabilidade, cidadania ou robótica. Outros participantes podem fazer a opção de acessar as videoaulas (previamente gravadas) ou teleaulas (transmitidas ao vivo e com interação síncrona entre alunos e professores) por nível de ensino, tais como Educação Básica, Educação Superior, Educação Continuada ou Educação Corporativa.

As abordagens pedagógicas mais aceitas e comprovadas hoje em dia apontam que a aprendizagem significativa depende não apenas da adoção de novas tecnologias, mas também da mudança das metodologias, de professores mais valorizados e capacitados, maior envolvimento das famílias e a participação das comunidades na educação das crianças, adolescentes e jovens. Os adultos já têm maior autonomia nos seus percursos de aprendizado, porém, mesmo para os mais experientes a abertura à participação de pessoas de sua confiança ajuda na motivação e engajamento.

Com a TV servindo como ponte entre a escola e os espaços que o aluno vivencia extramuros se expandem as possibilidades de participação dos familiares, colegas de trabalho, amigos e outros que o aluno confia, o suficiente para incluir a todos na rede colaborativa que se formará.

As situações de aprendizagem podem ser formais ou informais, assim como a cognição pode ser distribuída entre pessoas e instrumentos. Usar computadores, tablets, netbook ou aparelho celular para acessar a internet e guardar informações é uma prova dessa afirmação. Consultar os amigos e companheiros do jogo online para descobrir os caminhos da ‘mudança de fase’ no game também demonstra o poder da rede para nos ensinar. A memória de curto prazo é limitada e cada vez mais disputada por inúmeras mensagens, especialmente vindas da propaganda e do marketing. Não dá mais para confiar na memorização individual como sinônimo de que se aprendeu algo.

A massificação dos vídeos produzidos com fins educacionais e distribuídos pela internet permite que professores renomados possam abrir mão das instituições educacionais às quais se filiavam para chegarem diretamente aos seus alunos, sem intermediários. Também deve crescer a oferta de cursos por experts sem credenciais acadêmicas. Um músico que não se formou ou sequer cursou o Ensino Médio poderá abrir as portas virtuais de sua garagem e ensinar outros interessados em lançar-se na carreira artística. Nunca foi tão fácil produzir, categorizar e distribuir vídeos de qualquer tipo. Essa onda até que demorou a chegar às escolas. Vamos descobrir o diretor de cinema que há no interior de cada professor.

Siga o Canaltech no Twitter!

Não perca nenhuma novidade do mundo da tecnologia.