Após reestruturação, BlackBerry volta à origem e aposta em segurança empresarial

Por Rafael Romer | 13.08.2014 às 17:40

Após quatro anos seguidos de más notícias, a BlackBerry aos poucos parece estar se recuperando. O clima de otimismo já está dentro da própria empresa: na semana passada circulou entre funcionários um memorando assinado pelo CEO John Chen, que agradecia a todos pela reestruturação da companhia e pedia foco para ajudar a BlackBerry em sua "reviravolta em busca do sucesso".

No documento, Chen também deixou bem claro que a empresa deve começar a retomada do crescimento não com um passo para frente, mas com um recuo para a origem de seu core business: a segurança e produtividade para o setor corporativo.

Em 2009, a empresa chegou a ter cerca de 20% do marketshare global de smartphones. Dentro do setor executivo, o sistema tinha ainda mais destaque contra plataformas ascendentes, mas ainda pouco seguras à época, como o iOS e o Android. Mas após uma série de lançamentos que não entregaram inovações e tecnologias na mesma velocidade que os concorrentes, a empresa acabou perdendo quase todo espaço nesse setor.

De acordo com dados da CIRP divulgados no início de 2014, a empresa foi responsável por menos de 1% das ativações de novos smartphones nos Estados Unidos no primeiro trimestre do ano.

"O mercado dos smartphones cresceu muito", comentou o Diretor de Segurança da BlackBerry para a América Latina, Pablo Kulevicius, em entrevista ao Canaltech. "E nessa época aconteceu uma mudança de plataforma, do BlackBerry OS para o BlackBerry 10, que foi um impacto muito maior. Em alguns meses você viu o mercado mudar o marketshare".

Após a queda livre, o plano de reestruturação, que incluiu a redução da força de trabalho em 60% nos últimos três anos e venda de ativos da empresa, começou a mostrar resultados positivos neste ano. No balanço do primeiro trimestre do ano fiscal de 2015, divulgado em junho, a empresa apresentou um lucro de US$ 23 milhões, com uma redução de 1% na receita, que fechou em US$ 966 milhões. O caixa da companhia também fechou o trimestre com US$ 3,1 bilhões, um aumento de US$ 429 milhões em relação ao trimestre anterior - devido, principalmente, a venda de imóveis e retorno de impostos da empresa.

Pablo Kulevicius

Diretor de Segurança da BlackBerry para a América Latina, Pablo Kulevicius (foto: Divulgação)

Os quatro pilares de negócio

No segundo trimestre de 2014, juntos, os setores de software e serviços da BlackBerry foram responsáveis por 61% das receitas totais, um indicativo do novo foco da empresa. Dos quatro pilares principais de negócios que a corporação opera atualmente, três estão focados em softwares e serviços: software enterprise, o sistema operacional QNX e a plataforma de comunicação BBM. O quarto permanece sendo o de dispositivos móveis da empresa.

"Se você está procurando a maior margem, você tem que olhar para o software. O custo de gerar uma nova licença é zero", explica o executivo. "Parte da estratégia da BlackBerry está aí".

Isso não significa que a empresa deverá se descolar completamente do setor de hardware. No segundo trimestre, a empresa ativou 1,6 milhão de aparelhos – 300 mil a mais do que no anterior. O foco, no entanto, deverá permanecer em dispositivos de segurança corporativa. No final do mês passado, a BlackBerry anunciou a compra da empresa de segurança alemã SecuSmart, responsavel por uma tecnologia anti-espionagem. O governo alemão já utiliza hoje 3 mil aparelhos da empresa e, após confirmado o anúncio, deverá adquirir outros 20 mil.

Mas a estratégia de dispositivos está intimamente ligada à de software, principalmente através do aplicativo de comunicação instantânea BBM, que deverá servir como uma plataforma com serviços agregados monetizados que garantam receitas para a companhia.

Antes disponível apenas para a plataforma da BlackBerry, o app foi disponibilizado para todos os sistemas operacionais e agora deve ser trabalhado como uma solução de comunicação segura pela empresa. Neste ano, a empresa lançou o eBBM suite, produtos para o serviço que terão foco na proteção de dados da empresa.

Em junho foi anunciado o BBM Protected, serviço de criptografia de mensagens que deverá atender empresas e profisisonais que transitam com os dispositivos móveis entre ambientes corporativos e pessoais.

"A ideia é que as empresas possam usar isso para informações confidenciais. A BlackBerry não está envolvida, as chaves estão em poder do cliente, os algoritmos criptografados são elevados", explica o executivo. "A ideia é usar a plataforma não só no lado social, mas também com valor agregado".

Também sustentado sobre uma estratégia de vender segurança, o setor de QNX deve se voltar para a área crescente de comunicação machine to machine (M2M). De acordo com Kulevicius, o setor evoluiu muito nos últimos anos, mas as arquiteturas de segurança não foram "fator de decisão" para instalação de novos terminais de comunicação entre máquinas.

"A BlackBerry tem um sistema operacional que é ótimo em termos de performance, missão crítica e de segurança, ao mesmo tempo que tem a infraestrutura do BlackBerry, que está conectado em mais de 650 operadores em 175 países", afirma Kulevicius. "A ideia é agregar tudo que temos ao mundo de M2M".

Nesse contexto, o Brasil deve desempenhar um papel importante para a empresa na América Latina. Segundo o executivo, o país tem hoje cerca de 90% dos negócios da empresa no setor empresarial. Principalmente em setores como mercado financeiro e de construção civil, a empresa deve focar na oferta das soluções e dispositivos com segurança embarcada, oferecendo principalmente ao cliente a garantia de que os dispositivos deverão se manter sempre atualizados.