Aplicativos em sala de aula: evolução ou modismo?

Por Colaborador externo | 01 de Dezembro de 2014 às 08h38

por Marcos Abellón*

Lousa, giz, caderno e caneta. Alunos sentados e professores de pé conduzindo a aula. Já parou para pensar de onde surgiu esse método de ensino que utilizamos até hoje desde as mais tradicionais até as mais inovadoras escolas? Pelo que se sabe, o modelo educacional que conhecemos surgiu na Europa, em meados do século XII. Antes disso, sabe se que existiram outros métodos de estudo, alguns mais informais, como na Grécia antiga, onde os alunos eram educados sem divisão em séries e salas de aula, e outros mais ligados a divisões sociais, como acontecia na Europa medieval, onde só estudava quem era ligado à igreja.

Fato é que não podemos negar que o ensino hoje é um dos modelos mais democráticos já conhecidos, pois permite ao aluno expor suas dúvidas e participar de discussões sobre os mais variados assuntos. Essa “liberdade” que permeia a sala de aula também é relativamente nova, e pelo menos no Brasil, não era vista até há algumas décadas. Ou seja, já passamos por muitas mudanças para chegar até o método de ensino que conhecemos hoje.

Considerando todo o trajeto histórico que percorremos para popularizar o sistema educacional que é vigente na maioria dos países, podemos concluir que a educação, assim como todas as outras esferas sociais, também é passível de mudanças. E isso se deve principalmente às transformações sociais, ou seja, ela precisa atender às expectativas das novas gerações que obviamente têm necessidades de aprendizado diferentes das antigas. É claro que certas coisas dificilmente mudarão. É bem provável que os nossos bisnetos ainda estudarão a Língua Portuguesa e frações matemáticas, mas a metodologia adotada até lá com certeza será mais tecnológica do que a praticada hoje. E não estou falando apenas do uso de lousas digitais e tablets em sala de aula.

Um exemplo de novos recursos que estão sendo adotados por algumas escolas são os aplicativos voltados ao ensino de matérias ou temas específicos. Infelizmente as escolas que as utilizam ainda são minoria, já que é preciso ter certa infraestrutura para que todos os alunos possam interagir com essas novidades. Mas elas estão ampliando, e acredito que em um futuro não muito distante elas serão maioria. Como era de se esperar, o surgimento dessas tecnologias também refletiu em discussões sobre o tema, que abordam basicamente os benefícios e malefícios do seu uso pelos alunos.

Alguns especialistas acreditam que as tecnologias em geral podem mascarar a reflexão sobre os conteúdos transmitidos nas aulas, já que distraem os alunos que ainda não estão prontos para lidar de forma didática com dispositivos móveis e aplicativos, pois os associam a entretenimento. Em contrapartida, outros especialistas afirmam que a tecnologia pode até mesmo contribuir para o aumento da atenção dos estudantes. Inseridos nesse fogo cruzado, muitos profissionais do ensino, como diretores, acadêmicos, professores e pedagogos ficam em dúvida sobre o que é melhor para seus alunos.

Se pararmos para pensar em todas as mudanças que o sistema pedagógico já sofreu nos últimos anos, vamos ver que a maioria delas foi em benefício dos alunos. O ensino de idiomas é um bom exemplo. Se há alguns (muitos!) anos o latim era a prioridade nas salas de aula, hoje com certeza é o inglês. Isso se deve a mudança de prioridades, já que este idioma tem sido muito mais exigido pelo mercado que o outro. Seguindo essa linha de raciocínio, como o aprendizado através de tecnologias seria prejudicial quando a tendência é exigir cada vez mais que os jovens sejam heavy users delas? Não seria contraditório manter os recursos digitais afastados da educação quando os alunos estão totalmente adaptados ao seu uso?

Certa vez o ex-presidente norte americano John Kennedy disse que “a mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro”. Acredito que não podemos subestimar o papel do professor em sala de aula e tornar a tecnologia o centro de tudo. Mas no atual contexto do crescimento da mobilidade no mundo todo, não podemos ignorar os benefícios que alguns recursos podem trazer para o âmbito escolar. Tapar os olhos para isso pode significar uma grande perda em termos de capacitação para o mercado de trabalho.

Venho acompanhando algumas escolas que usam aplicativos em dispositivos móveis para estimular o interesse dos alunos por conteúdos e matérias que antes eram vistas como “chatas” pela maioria, como o inglês por exemplo. Os resultados têm sido majoritariamente positivos, não só para os estudantes como para o corpo docente, que têm nas mãos ferramentas que não só os ajudam a fixar o conteúdo durante as aulas, como também apresentam um feedback quanto ao aprendizado da turma.

Em suma, acredito que ainda teremos um longo caminho pela frente até que todos tenham acesso e bom aproveitamento de recursos como esses. Entretanto, não podemos desistir de oferecer às crianças e aos jovens de hoje, que serão nada mais, nada menos que o futuro de amanhã, uma educação de qualidade que respeite as suas mudanças de comportamento.

Quem tem filho em casa sabe que o tempo que ele passa em frente ao celular é muito maior do que o tempo na frente da TV. Estamos assistindo a uma transformação e o sistema pedagógico precisa saber se comunicar com esse novo perfil de estudante. Isso não implica a quebra das relações humanas que há entre professor, aluno, pais e comunidade. Mas sim em adaptá-los, em torná-los hábeis para saber lidar com os desafios que lhe serão colocados lá na frente, quando se tornarem profissionais aptos a protagonizarem as próximas mudanças sociais.

*Marcos Abellón, diretor geral da Q2L - ferramenta multiplataforma de aprendizado, que utiliza conceitos de gamification para apresentar seu conteúdo ao jogador.

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