Aplicativos de saúde: será que podemos confiar neles?

Por Rafael Romer | 25 de Março de 2013 às 14h40

Cada vez mais os smartphones migram das funções originais de telefonia para se tornarem ferramentas usadas em nossas tarefas do dia-a-dia pessoal e profissional. Entre os serviços oferecidos por esses aparelhos, uma das ondas mais recentes são as aplicações médicas, voltadas tanto para a informação do usuário sobre saúde como para a realização de exames por conta própria, como promentem alguns desses apps.

A tendência pôde ser observada durante a edição deste ano do Mobile World Congress, o maior congresso do mercado mobile do mundo. Longe dos lançamentos de dispositivos móveis, empresas como a Withings e Aerotel apresentaram uma série de inovações na área, como monitoramento de pressão arterial conectados a dispositivos via Bluetooth e relatórios virtuais para informar as condições do paciente ao médico.

Um levantamento recente do centro de pesquisa Pew sobre a "saúde mobile" afirma que cerca de 31% dos norte-americanos já utilizaram seus aparelhos para buscarem informações sobre saúde. Há dois anos, o índice era de 17%. Um em cada cinco habitantes do país com smartphones também possui ao menos um aplicativo de saúde instalado nos celulares, sendo os apps de dieta e perda de peso os mais populares.

A oferta de aplicativos de saúde é grande. O usuário pode utilizá-los para monitorar, por exemplo, seus níveis de glicose, o ciclo menstrual, controlar horário para tomar remédios, ou até medir o seu humor. De acordo com especialistas da área, padrões de uso do smartphone, como frequência de envio de mensagens e de ligações, que costumam variar quando a pessoa adoece, podem até ajudar a detectar quando alguém está enfermo. As iniciativas nesta área também já chegaram às grandes empresas, como a Samsung. No ano passado a sul-coreana lançou o aplicativo S Health, que permite conectar o smartphone a dispositivos de cuidado médico, como medidores de pressão e glicose, para o armazenamento de dados do usuário.

De acordo com o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), Mauro Aranha, o problema fica na generalidade deste tipo de serviço, que traz informações e realiza tarefas que costumam não levar em conta informações como o histórico do indivíduo, genética e exames físicos. “[O usuário] cometeria um engano se a partir dessa generalidade aplicasse integralmente para si aquilo que aprendeu na generalidade. Porque ainda na medicina, e isso sempre será, cada caso é um caso”, diz Aranha.

Outra questão delicada é a garantia da veracidade desses serviços, que no Brasil ainda não possuem nenhum tipo de regulamentação. Uma pesquisa realizada pela JAMA Dermatology mostrou que a eficácia de aplicativos que prometem detectar casos de câncer de pele, por exemplo, pode variar de 6,8% a 98,1%, sendo os mais imprecisos aqueles que utilizam algoritimos para analisar as imagens. Países como Estados Unidos e Reino Unido já começaram os processos de discussão sobre o assunto, na tentativa de criar regras que garantam a qualidade dos serviço. Questionadas pelo Canaltech, a Anvisa e o ministério da Saúde não informaram sobre a existência de ações em relação a esse tipo de aplicativo no Brasil.

As informações incorretas apresentam um grande risco para a população e podem prejudicar o usuário ainda mais no caso de auto-medicação - uma prática não recomendada pela comunidade médica. “O paciente tem que apreciar o que ele lê em consulta com seu médico”, recomenda Aranha.

Mas quando bem utilizado, o avanço desse tipo de tecnologia pode ser benéfico para a população, auxiliando na instrução dos indivíduos sobre seus problemas de saúde. “Deve se incentivar que as pessoas sejam protagonistas diante do seu próprio adoecer. Porque isso, muitas vezes, faz com que a pessoa se esclareça, pergunte para seu médico a respeito do tratamento que está fazendo e seja mais pró-ativa no próprio tratamento”, explica. Segundo Aranha, os aplicativos e gadgets podem ser importantes no pós-diagnóstico, auxiliando na terapia do paciente e ajudando-o, por exemplo, a controlar e entender o tratamento pelo qual passa.

Atualmente, o Cremesp atua para tentar incentivar o avanço da chamada "telemedicina", considerada um avanço tecnológico fundamental para a comunidade médica. A tendência consiste na implantação do atendimento remoto de pacientes por médicos e especialistas que estejam longe do local físico do doente. A telemedicina pode ser especialmente útil nos casos do "retorno", quando, com os exames realizados em mãos, os médicos podem orientar o tratamento sem estar no mesmo local que o paciente. Aranha lamenta, entretanto, que a realidade ainda está longe se ser um padrão no Brasil, e ainda depende de um investimento pesado do governo para avançar no país. "Só recentemente alguns hospitais informatizaram seus prontuários, e isso é o mínimo da área médica", afirma.

Enquanto o setor permanece sem regulamentações, é recomendado que o usuário tome cuidado na hora de instalar e utilizar serviços deste tipo em seus dispositivos. É importante sempre checar a origem das informações fornecidas e lembrar que nenhum gadget pode apontar com 100% de certeza o que você tem e como deve ser o tratamento. E, na dúvida, sempre consulte um especialista. "O computador ainda não substituiu o médico", brinca Aranha.

E você? Já utilizou algum destes serviços? Conte sua experiência para a gente nos comentários!

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