A evolução da Telemedicina e as novas ferramentas de colaboração clínica

Por Marco Barcellos

Ao longo dos últimos anos, a crescente globalização e a consumerização da tecnologia da informação exigem um aumento de produtividade no mundo dos negócios, incluindo as áreas de saúde e bem-estar. Dessa forma, enquanto as organizações são desafiadas com a demanda por tecnologia como um serviço dentro da empresa, no setor de saúde não é diferente. A real possibilidade de acessar qualquer aplicativo, a qualquer hora, em qualquer lugar – a partir do dispositivo de sua escolha –, também traz avanços para o setor. Isso significa que as pessoas exigirão o uso dessas mesmas tecnologias em clínicas, hospitais, academias, na rua e em suas casas. Hoje já existem vários exemplos e casos de sucesso no Brasil.

Uma prova real de como a tecnologia pode melhorar a qualidade da vida das pessoas é exatamente a prevenção e controle de doenças. A adoção de tecnologia está encurtando as distâncias e acelerando o acesso à saúde de pacientes em regiões mais afastadas dos centros urbanos. Na realidade, a principal meta de um projeto de telemedicina e colaboração clínica avançada é melhorar a qualidade da assistência médica pelo acesso ao atendimento remoto especializado.

Por exemplo, o nosso sistema de cobertura universal em saúde – Sistema Único de Saúde (SUS) inclui cerca de 6.500 hospitais, a maior parte deles na zona urbana com pouca ou nenhuma infraestrutura para abrigar um departamento de tecnologia da informação e comunicação (TIC). As clínicas de saúde da família nem sempre estão integradas à rede de hospitais públicos ou centros médicos de excelência. Além disso, 36% da população vive nas regiões norte ou nordeste, com menor disponibilidade de especialistas em pediatria, que se concentram principalmente em grandes centros e em cidades do sul do país, onde há, em média, quatro vezes mais médicos por habitante.

Com esse cenário, muitas pessoas com problemas de saúde necessitam de atendimento especializado, mas vivem longe dos grandes centros urbanos, possuidores também das melhores e bem equipadas estruturas públicas de saúde. Em geral, os pacientes precisam viajar, constantemente, longas distâncias para obter o atendimento adequado. Isso pode significar gastos relevantes em famílias de baixa renda e, muitas vezes, aumento na contribuição do Estado para o pagamento dos custos oriundos do setor de saúde.

Com qualidade de som e imagem em alta definição, dispositivos móveis de vídeo para telemedicina foram desenvolvidos especialmente para uma variedade de usos médicos, incluindo a consulta remota de pacientes, o cuidado virtual e a educação médica. Este tipo de solução também possibilita o compartilhamento de conteúdos, gravação, firewall e capacidade de gestão. E no caso das consultas que exigem também os resultados de exames dos pacientes, são feitas pelo equipamento de telediagnósticos.

Um exemplo é o projeto piloto do programa de Telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), que utiliza tecnologia de vídeo para telemedicina da Cisco. Esta tecnologia de ponta viabiliza a comunicação constante entre as equipes da UTI e Pronto-Socorro do Hospital Municipal Moysés Deutsch, no bairro M'Boi Mirim, e da Central de Telemedicina do Hospital Albert Einstein, ambos em São Paulo. O objetivo é prestar assistência a pacientes graves, no caso de ausência de especialistas na unidade pública ou da necessidade de uma segunda opinião para uma avaliação mais completa.

Já o Estado de Sergipe iniciou em fevereiro deste ano um programa de atendimento pediátrico por telemedicina, no qual a Universidade Federal de Sergipe (UFS) oferece atendimento médico a distância para crianças das cidades de Lagarto e Tobias Barreto. As Clínicas de Saúde da Família das duas cidades são conectadas a hospitais e especialistas de Aracaju, capital do Estado, e de São Cristóvão, onde está o campus da UFS. Assim, é possível melhorar o acesso ao atendimento especializado e a qualidade no serviço e na vida das crianças e de suas famílias.

Além disso, as tecnologias de colaboração, telepresença e nuvem também são utilizadas em um programa inovador de educação continuada para profissionais de saúde e treinamento dos médicos. Por meio de ferramentas como Show and Share, WebEx e Jabber, é possível criar e gerenciar comunidades de vídeo altamente seguras, agendar sessões de aula virtual e acessar serviços remotamente por dispositivos móveis. E o recurso de telepresença também será utilizado para apresentação de projetos de alunos de cursos de medicina da Universidade.

A colaboração pode aumentar, portanto, o conhecimento e o treinamento de equipes de assistência locais e facilitar o acesso ao conteúdo científico disponível em centros de excelência. Já para as equipes médicas locais, a atuação de forma colaborativa com especialistas poderá aumentar a capacidade de intervenção e melhorar o processo de tomada de decisões. O projeto em Sergipe faz parte do programa global de responsabilidade social da Cisco “Connected Healthy Children” e combina os esforços da UFS, instituição reconhecida pela excelência em Ciências Médicas, e dos prestadores de assistência médica nos municípios envolvidos.

Outro exemplo real é a transmissão de um parto ao vivo pela internet, por meio de arquiteturas tecnológicas que permitem a segurança, flexibilidade e alta velocidade. Este tipo de serviço já está disponível em diversos hospitais no Estado de São Paulo. A unidade do Itaim Bibi do Hospital São Luiz, na capital paulista, oferece este serviço sem custo para seus clientes, e conta com 12 salas equipadas com câmeras para a transmissão de partos pela internet. O sistema já conta inclusive com procedimentos específicos no caso de imprevistos durante a transmissão, evitando exposição e preocupações desnecessárias.

A combinação da tecnologia da Telemedicina com algoritmos de processamento de sinal também está sendo utilizada na detecção e tratamento de vários sintomas patológicos, como a gagueira, o discurso disártrico e a afasia. Com o desenvolvimento destes recursos e o aperfeiçoamento da qualidade da internet, hoje tem-se possibilidade de consulta a um profissional especializado de maneira remota – mesmo em situações críticas de tempo, como o tratamento de AVC agudo, por exemplo.

Enfim, estamos vivendo uma rápida evolução nas respostas tecnológicas implementadas para atender essas novas demandas, como transmissão por vídeo em alta qualidade, a computação em nuvem, as ferramentas de colaboração em rede, o processamento do Big Data e, é claro, o crescimento exponencial da Internet das Coisas.

A realidade é que essa evolução é apenas indicativo de que a tecnologia da informação e comunicação já é fundamental no setor de saúde. A característica fundamental desta experiência em rede e do valor que os consumidores e as empresas colocam sobre ela representa uma combinação perfeita entre pessoas, dados, processos e objetos conectados, ou seja, o caminho natural para o desenvolvimento da Internet of Everything – a Internet de Todas as Coisas.

Marco Barcellos é diretor de Marketing da Cisco Brasil. Possui mais de 20 anos no mercado de Telecomunicações e Tecnologia da Informação, tendo atuado em diversas empresas do setor como Avaya, Grupo AES, Grupo Algar, entre outros. Engenheiro de formação, é Mestre em Administração pela FGV, com MBA em Marketing pela ESPM.