Descaso com bikes compartilhadas expõe a fragilidade dos serviços sustentáveis

Por Natalie Rosa | 17 de Fevereiro de 2020 às 14h46
Reprodução: The Guardian

O transporte no Brasil esteve por muito tempo estagnado. Diferentemente de cidades de países mais avançados, desenvolvidos, a mobilidade urbana ainda se restringe muito a carros e ônibus, com pouco espaço dedicado ao uso das bicicletas. Mesmo que uma cidade comece a visar a inovação como uma forma de reduzir o trânsito e a emissão de gás carbônico na atmosfera, muitas pessoas ainda não estão preparadas para mudar de opção na hora de se transportar, seja para o trabalho ou para universidades, fazendo com que a sustentabilidade seja mal vista por não desejarem sair da zona de conforto.

Não foi por falta de oportunidade que as novas formas de mobilidade urbana ainda não conquistaram o seu espaço no Brasil nos últimos anos, mesmo que isso precisasse acontecer muito antes. É possível contar nos dedos quando foi que fomos apresentados às bicicletas e patinetes elétricos nas grandes cidades, e isso aconteceu devido à iniciativa de empresas como a Grow, que comanda os veículos da Yellow e da Grin, e que está presente em sete países e é considerada a terceira maior empresa de micromobilidade do mundo.

Foto: Reprodução

O que deveria ser uma evolução, no entanto, começou a causar problemas não só com acidentes e atropelamentos, muitos causados pela falta de preparo dos usuários e de quem está na rua, como também depredações.

Não era difícil ver, nas cidades em que o serviço estava instaurado, bicicletas jogadas de qualquer jeito na rua sem pedais, bancos ou até sem guidões e correntes. Isso começou a resultar no descarte contínuo e diário das bikes que, em vez de serem prontamente recolhidas e reformadas, começaram a ser jogadas em depósitos alugados ou comprados pela companhia, formando verdadeiros cemitérios de bicicletas.

Descarte de bicicletas em Curitiba (Foto: Hedeson Alves/Tribuna do Paraná)

Sustentabilidade para quem?

Esse descarte que, além de incomodar a vizinhança com os barulhos dos caminhões e ainda criar uma poluição visual nos bairros, vai contra qualquer iniciativa de sustentabilidade. De que adianta criar um serviço que vai a favor do meio ambiente e da qualidade de vida se não houve um plano B caso nada disso desse certo? Esse foi um dos questionamentos de quem se deparou com a situação. A solução, que parece ter sido emergencial, criou uma quantidade gigantesca de lixo que, à primeira vista, não foi prevista durante a implementação do serviço no Brasil, vistos os grandes depósitos em áreas residenciais.

Pouco tempo depois do início das denúncias, a Grow anunciou que retiraria as bicicletas de circulação de quase todas as cidades do Brasil em que atuava — (Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Campinas (SP), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), Guarapari (ES), Porto Alegre (RS), Santos (SP), São Vicente (SP), São José dos Campos (SP), São José (SC), Torres (RS), Vitória (ES) e Vila Velha (ES) — permanecendo ainda apenas em Curitiba (PR), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ).

No início de fevereiro, nós, do Canaltech, entramos em contato com a Grow sobre o descarte das bicicletas na cidade de Florianópolis, em Santa Catarina, e fomos informados que a companhia "atua de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos", que preza pelo conceito da logística reversa, que faz o reaproveitamento ou descarte apropriado de materiais com foco na preservação ambiental.

Imagem: Reprodução

A empresa disse ainda garantir que os equipamentos descartados serão reciclados por não estarem com condições adequadas de uso, o que poderia trazer algum risco para o usuário, e que o local utilizado neste processo de logística reversa está adequado, assim como o prazo para o cumprimento dessas ações. A Grow garantiu ainda que vem atuando com parceiros certificados, trazendo segurança jurídica e também ambiental para essa operação.

Não é só no Brasil

Na China, a companhia Bluegogo, terceira empresa de compartilhamento de bicicletas do país, declarou falência recentemente, também deixando cemitérios de bikes que podem ser vistos em imagens que são tão incríveis quanto assustadoras.

Laís Barboza, que por alguns anos viajava à China a cada três meses, conseguiu acompanhar a chegada do compartilhamento de bicicletas por lá, principalmente da empresa OFO, entre os anos de 2017 e 2018. Ela contou ao Canaltech que via muitas bicicletas estacionadas na calçada, assim como o que vem acontecendo por aqui. Porém, como a China é um país extremamente populoso, o volume chega a ser inimaginável, como mostra a imagem abaixo:

Descarte de bikes na China (Foto: Reprodução/The Guardian)

"O número era assustador, mas parecia ser algo que os chineses estavam aproveitando e gostando muito, pois facilitou bastante o transporte e muita gente usava", conta Laís, dizendo ainda que mesmo nessa época já era possível observar muitas dessas bikes mal cuidadas em ruas e embaixo de viadutos, e que isso acontecia bastante nas cidades de Guanzhou e Shenzhen, na província de Guangdong.

"Era evidente que a manutenção das bicicletas era um problema porque, embora no final e no começo do dia, era possível ver os caminhões de manutenção trazendo ou levando bicicletas em pontos específicos da cidade — assim como é aqui no Brasil, também — muitas eram abandonadas em ruas sem movimento, embaixo de viadutos. E elas ficavam lá por dias, parecia que não havia um destino correto", acrescentou Laís, dizendo ainda acreditar que o problema não está no país e na população, mas sim na forma em que as empresas lidam com o problema.

Descarte de bikes na China (Foto: Reprodução/The Guardian)

No Brasil, Andreza Delgado, uma das pessoas que denunciaram o descaso com as bicicletas no Twitter, trazendo visibilidade do problema a seus seguidores, contou ao Canaltech que sentiu um grave descontentamento ao se deparar com a negligência. "Eu conheço, pelo menos, umas cinco pessoas que estão precisando da bicicleta para trabalhar ou lazer, então me peguei pensando no discurso ecológico sem responsabilidade", conta.

Descarte de bikes em Florianópolis (Foto: Reprodução/Isaac Varzim)
Descarte de bikes em Florianópolis (Foto: Reprodução/Isaac Varzim)

Andreza, que já trabalha com questões sociais, como projetos culturais voltados à periferia, diz ainda que a solução encontrada pela Grow parece preguiçosa, aparentemente. "Em vez de fazer um descarte fácil e, na minha visão, preguiçoso, poderiam procurar por alternativas que não necessariamente poderiam deixar a bike continuar sendo uma bike, mas pensar, quem sabe, em uma produção de cadeira de rodas ou outros materiais a partir dessa bicicleta que iria para descarte", completa.

Posicionamento

Em resposta aos novos questionamentos do Canaltech, a Grow teve mais uma oportunidade de relatar o que está acontecendo e afirmou que as bicicletas estão suspensas temporariamente e que o recolhimento foi feito para que haja um processo de checagem e verificação das condições de uso, garantindo a segurança do usuário. Com a repercurssão nas redes sociais, a empresa se posicionou com mais detalhes, finalmente, sobre o destino adequado pensando na sustentabilidade, tema sobre o qual foi o seu foco desde o início.

Em relação à destinação dessas bikes, a companhia cita três futuros: doação de equipamentos em boas condições, manutenção e reciclagem, citando que está buscando por parcerias públicas ou privadas para ajudar nesse processo.

"Essas medidas fazem parte do processo de reestruturação anunciado pela empresa, presente em 7 países da América Latina e que já realizou mais de 20 milhões de corridas. A decisão foi tomada para que a companhia promova um ajuste operacional e continue prestando serviços de forma estável, eficiente e segura. Esta é uma estratégia da empresa e uma necessidade do mercado", diz a nota oficial enviada ao Canaltech.

A Grow contou ainda que doações de bicicletas já aconteceram em Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo e Vitória, em trabalho conjunto com ONGs, escolas e projetos sociais da região. Bikes também foram enviadas para regiões carentes do interior de vários estados em que a empresa operava, como em Brumadinho (MG) e Linhares (ES).

Veja na íntegra o posicionamento da Grow em relação à conduta de reciclagem tomara pela empresa:

A Grow atua de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A PNRS prevê o conceito da logística reversa, ou seja o reaproveitamento ou descarte apropriado de materiais, com foco na preservação ambiental.

As bicicletas que foram recolhidas serão pesadas, prensadas e posteriormente transformadas em matéria-prima para novos produtos à base de materiais como ferro e borracha. Esses equipamentos estão sendo reciclados por não estarem em condições adequadas de uso, o que poderia oferecer risco para usuários.

Além disso, cabe informar que:

1. Esses equipamentos foram retirados das ruas por não estarem em condições adequadas de uso, o que poderia oferecer risco para os usuários.

2. O processo de logística reversa adotado pela empresa respeita, como ressaltado acima, as normas ambientais que tratam da questão.

3. O local utilizado no processo de logística reversa é adequado, bem como o prazo para concluir essas ações.

4. A Grow atua apenas com parceiros certificados, o que proporciona segurança jurídica e ambiental à operação.

A Grow falhou?

Para entender melhor o que aconteceu com a Grow e qual é o futuro dessa nova forma de transporte sustentável, co Canaltech conversou com Guillermo Petzhold, especialista de mobilidade urbana do WRI Brasil, instituto de pesquisa em prol do meio ambiente.

Mesmo com todos esses problemas, Guillermo conta que a Grow alcançou pontos positivos em determinados aspectos, pois "a economia compartilhada prioriza o uso frente à posse, facilitando às pessoas o acesso a determinados bens sem que a pessoa tenha que investir em um recurso maior na sua aquisição". Para o especialista, a empresa ter disponibilizado uma nova possibilidade de o usuário se locomover por valores mais em conta ajudou na criação de novos hábitos entre os brasileiros, e que isso é mais importante do que tornar-se referência no mercado ou acabar retraindo operações.

Guillermo conta também que o que pode ter acontecido com a Grow no Brasil é o mesmo que aconteceu com as empresas da China e dos Estados Unidos: a saturação do mercado, operações sobrepostas e falta de integração. Por isso, as companhias de micromobilidade agora tendem a se reestruturar para voltar a crescer com taxas mais razoáveis e sustentáveis. Esses ocorridos também podem ser uma oportunidade para que as cidades passem a entender melhor a demanda por esse mercado, criando regulamentos inteligentes que funcionem em harmonia com o transporte convencional e atinjam novas metas de mobilidade sustentável, de acordo com o especialista.

Questionamos a WRI Brasil também sobre a questão do vandalismo no Brasil, e Guillermo contou que tanto os sistemas de patinetes quanto de bicicletas sem estações já consideraram um percentual de depredação em seus modelos de negócio, assim como os veículos eram projetados para evitar que suas peças pudessem ser usadas em outros modelos, e que isso também aconteceu em outros países, não sendo exclusividade daqui.

Imagem: Reprodução/WRI Brasil

Guillermo relata que os governos municipais de todo o mundo estão lutando contra as consequências do abandono de bicicletas e, que em alguns casos, planos foram criados para consertar essas bikes destruídas e distribuir a cidades vizinhas ou instituições, mas que grande parte é destinada à reciclagem, com os veículos sendo esmagados em cubos para o reaproveitamento.

De acordo com informações obtidas pela WRI Brasil, de pesquisa realizada no estado norte-americano da Carolina do Norte, metade das emissões ocorrem dos componentes de fabricação dos veículos, sendo essencial providenciar o descarte correto. "Um ponto que se deve atentar é que a sustentabilidade ambiental dos patinetes e bicicletas também está intimamente atrelada a sua vida, sua fabricação e coleta/distribuição", explica.

Por fim, Guillermo Petzhold diz que o uso de aplicativos de mobilidade urbana podem influenciar nas decisões de infraestrutura com base em seus dados, pois diariamente milhares de viagens foram realizadas e essas informações armazenadas.

"Seu compartilhamento (dos dados) pode auxiliar a justificar a implementação de infraestruturas como ciclovias, faixas de ônibus, áreas de embarque e desembarque e até mesmo mudanças de itinerários do transporte coletivo. Dados que revelem as rotas utilizadas por ciclistas em muito apoiariam a tomada de decisão e esse pode ser um ponto a ser explorado. Uma cidade com uma maior infraestrutura cicloviária representa uma cidade onde potencialmente haverá mais deslocamentos em bicicleta ou patinete quando as empresas chegarem (ou voltarem)", finaliza.

Mais transparência aos usuários

Por mais que a Grow tenha mostrado, após as críticas, a intenção de fazer algo útil com as bicicletas que estão sendo descartadas, não só nas cidades em que o serviço deixou de existir, como nas que ainda ficará ativo, faltou uma comunicação com o público geral para o entendimento do problema.

A falta de transparência inicial com os usuários sobre o que acontece dentro da empresa, seja na China ou no Brasil, causa a revolta de pessoas que acreditaram e confiaram em um projeto tão interessante em prol do meio ambiente e sustentabildiade, e também aqueles que tinham a oportunidade de um meio de locomoção mais barato e acessível.

Como disse Andreza, o discurso da companhia chegou à população como contraditório, reforçando "a falha coletiva da empresa junto à prefeitura (de São Paulo), que não permitiu que esse tipo de transporte funcionasse na cidade". Além disso, a entrevistada disse que assim que a expansão começou a acontecer na periferia, o serviço foi impedido pelas autoridades.

Cabe agora à Grow ser mais transparente aos usuários que foram deixados na mão, trazendo esperança ou não de que as soluções propostas sejam de fato aplicadas e que voltem a ser uma nova opção.

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