LG G5 decepciona em vendas. Quem é o culpado?

Por Pedro Cipoli RSS | em 06.07.2016 às 22h31

LG G5

As vendas do G5 não andam bem. A LG culpa "o momentum", "as condições desafiadoras do mercado atualmente", argumentos que são sim verdade, mas estão longe de explicar a história toda, já que a LG tem uma parcela de culpa também tanto pelo produto em si quanto pela estratégia de vendas. Segundo a própria empresa: "O anúncio de sexta-feira aconteceu pois o G5, top de linha mais recente da LG Eletronics, falhou em gerar vendas", algo que dificilmente melhorará. E vamos entender o motivo.

Demanda e comportamento do consumidor

Antes do lançamento dos flagships deste ano da Samsung e da LG, quando tentamos adivinhar qual seria o mais revolucionário, ficamos otimistas com o fato de a LG finalmente anunciar o G5 lado a lado com o Galaxy S7. Pela primeira vez em anos, iria encarar sua arquirrival de frente, já que os lançamentos do G3 e do G4 ocorreram depois de a LG ver o impacto do concorrente do mercado, o que mudou na Mobile World Congress 2016. Esse "bater de frente" durou pouco.

LG G5Em alguns lugares, o G5 (ou o G5 SE) chegou meses depois do Galaxy S7 e o Galaxy S7 Edge, dando tempo para a Samsung se estabelecer e conquistar antes quem buscava um novo top de linha.

O que ocorreu em seguida foi a chegada rápida do Galaxy S7 e do Galaxy S7 Edge em diversos países da forma mais rápida quanto possível, contando com estratégias de venda e campanhas de marketing bastante agressivas. A Samsung foi rápida, aproveitando todo o hype gerado pela anúncio oficial, o que acabou passando a imagem de que aquele era o único top de linha Android que o consumidor poderia ter acesso nos primeiros meses do ano.

A HTC lançou seu flagship meses depois com disponibilidade limitada e a "Sony fez o que a Sony faz" (resumidamente, anunciar um modelo mais caro sem contrapartida em relação aos concorrentes tempos depois). A LG anunciou o G5 atrasado em diversos países, dando tempo (de novo) para que a Samsung estabelecesse a sua supremacia. Essa questão de quem chega primeiro é mais importante do que parece à primeira vista.

Isso nos leva ao "momentum" e às condições desafiadoras de mercado que a LG argumenta. De fato, o mercado de smartphones está desaquecendo. De fato, também, os tops de linha estão enfrentando uma resistência cada vez maior para convencer o consumidor, algo que até mesmo a Apple está tendo dificuldades de reverter. Sabendo disso, por que a LG não teve uma estratégia mais agressiva de vendas logo no início?

Se você chega ao mercado atrasado com um produto similar, passa a contar com uma fidelidade de marca do seu público-alvo. Caso contrário, por que esperar um segundo modelo, se já há um excelente smartphone disponível? A LG tem feito isso há anos, sempre chegando às prateleiras depois de a Samsung fazer o seu estrago. Mas ei: valeria a pena esperar dessa vez, não é mesmo? Afinal, a proposta modular do G5 é interessante demais para deixar passar, certo?

A ideia de modularização

O desaquecimento das vendas urge algo de diferente. Algo que justifique o investimento em um modelo novo, em especial quando o seu modelo atual ainda está funcionando. Esse "algo de diferente" tem sido interpretado, principalmente, como a modularização, a capacidade de customizar o seu smartphone conforme as suas necessidades. O conceito parece excelente no papel, mas, a forma como ele é implementado faz toda a diferença, o que vale para qualquer conceito.

LG G5Ser modular só vale a pena se você comprar os módulos, desembolsando uma boa grana em todos eles. Não que sejam ruins, mas certamente machuca o bolso dos interessados

Não que a solução da LG seja ruim, mas chegou em um momento ruim. Há uma certa norma oculta no mundo da tecnologia que dita o sucesso ou o fracasso de um certo produto: ela é aberta e pode ser implementada em qualquer situação? Em outras palavras: até onde você está disposto a investir em uma ideia excelente dentro de uma plataforma fechada? Hipoteticamente: se eu sou um audiófilo e me interessei pelo módulo Hi-fi da B&O, só posso utilizá-lo no G5? Quer dizer, ficarei preso com o G5, já que se trocar de smartphone, jogo o módulo no lixo?

Querendo ou não, essa é a limitação do Magic Slot. Ele não funciona no G4 e dificilmente seria compatível com o G6: somente o G5. Imagine que você compre um notebook novo que conta com um padrão completamente diferente de Wi-Fi. Exige um plano de internet diferente, assim como um roteador específico que custe uma fortuna. Ah, sim: esse notebook custa mais caro, e esse padrão será utilizado somente neste modelo. Então, se você trocar de notebook, terá que mudar o seu plano e comprar um novo roteador. Você compraria esse notebook?

Esse é o dilema que o G5 apresenta. Ele já é um smartphone caro, já que é um flagship, e o seu principal diferencial, os "Friends", exigem novos investimentos que estão longe de serem baixos. O apelo da modularidade vale a pena somente se você, de fato, comprar os módulos, e adquirir todos eles faz com que o iPhone 6s Plus de 128 GB passe a ser barato em qualquer lugar do mundo (em especial no Brasil, como veremos no próximo item).

LG G5A estratégia de trava não passa uma sensação de segurança que não apresentará defeitos no médio e longo prazo.

Ou seja, o investimento é alto, e nada pode ser reaproveitado. O preço alto em si já desencoraja, reservando a experiência completa do G5 e todos os seus Friends a poucos, e o padrão é fechado. Junte isso ao fato de que o Magic Slot não passa a imagem que durará muito tempo com a troca constante de módulos (sério), já que, eventualmente, o conector com certeza apresentará um problema, ou a trava emperrará. Ou mesmo entrará poeira na parte interna do G5 eventualmente. Como você resolveria isso?

A LG encontrou uma solução em relação ao preço, voltada para "mercados emergentes". Só há um problema: ela é péssima.

O G5 SE

Como vender o G5 mais barato para pessoas de menor poder aquisitivo? Simples: fazer um downgrade no chip e instalar menos memória RAM, prometendo, sem uma justificativa técnica válida sequer, que a "experiência será a mesma". Mas pelo menos o preço será mais acessível, correto? Nada: R$ 3.700, isso sem contar os módulos, que fazem o preço subir para mais de R$ 8.000. Tudo isso em um smartphone com chip intermediário... e que chegou bem atrasado.

LG G5 SEEm países como o nosso, mesmo que você esteja disposto a desembolsar mais para pegar o G5 "normal", não terá opção senão comprar o G5 SE.

Se por um lado temos uma certa empatia pelas empresas no Brasil, já que fazer negócios por aqui não é nada fácil, por outro temos que dizer que isso não justifica o G5 SE. Explica, mas não justifica. Considerando todos os fatores envolvidos para o downgrade, como inflação, impostos, custo Brasil e burocracia, o valor sugerido de R$ 3.700 ainda é de um smartphone premium. Nesse ponto, querendo ou não, a Samsung foi bem mais competitiva. O Galaxy S7 e o S7 Edge são caros, mas não há downgrade. Você paga o preço premium por um modelo premium.

No Brasil, em especial, a LG tem problemas extras que provavelmente não considerou. O G5 SE chegar como única opção insulta quem esperava comprar um G5 premium aceitando sua proposta completa, mas não tem essa opção. Faria sentido se tanto G5 quanto G5 SE estivessem disponíveis, então mesmo quem estava disposto a investir alto no G5 completo e em todos os Friends ficou sem opção. Vai investir alto, sim, mas em um modelo declaradamente projetado para ser acessível, não oferecendo a oportunidade de ser apresentado como um modelo premium.

Ainda falando das particularidades da LG no Brasil, ela tem dois fatores negativos para quem já comprou algum modelo dela por aqui. Em primeiro lugar, virou comportamento padrão esperar meses para comprar um top de linha da empresa. O motivo? O preço cai rápida e agressivamente com o passar do tempo. O G3, por exemplo, chegou por R$ 2.500, mas poderia ser encontrado por R$ 1.500 poucos meses depois. O G4 passou por um processo semelhante. Por que pagar o preço cheio, se isso sempre acontece?

Isso virou algo tão corriqueiro que comentários como "R$ 3.700? Alto demais. Vou pensar quando ele ficar abaixo de R$ 2.000", algo que acontece tanto pelo desinteresse do consumidor em investir tão alto por saber a faixa de custo-benefício "ideal" dos produtos quanto por um segundo agravante. Trata-se da demora em atualizar a versão do Android, o que já leva tempo demais em todo o mundo, mas é ainda mais demorado no Brasil, praticamente perdendo somente para a ASUS.

LG G5Mesmo que você compre todos os Friends, ainda assim ficará com um smartphone de chip intermediário. Mais de R$ 8.000 e Snapdragon 652 com 3 GB de memória RAM, isso sem contar com o cartão SD, que soma mais algumas centenas de reais nas maiores capacidades.

Então: chegou atrasado, o chip é inferior, sem opção para a versão internacional, o preço dos módulos é altíssimo, as atualizações demoram mais do que deveriam e sabe-se, considerando o histórico dos topos de linha empresa, que o preço costuma diminuir, e muito, em pouco tempo. Esse último, por sua vez, não somente atrasa as vendas, como também diminui o lucro da LG quando o aparelho é finalmente vendido. Por que será que as vendas estão abaixo do esperado?

Conclusão

O G5 é, de fato, um modelo realmente interessante (pelo menos a versão internacional). A LG fez "algo de diferente", apostando em uma nova estratégia para aquecer o interesse do usuário, enquanto a Samsung manteve a mesma receita de anos: upgrades incrementais. Mesmo se desconsiderarmos os módulos, ele tem uma das melhores telas do mercado, o mesmo válido para a câmera, fora outros diversos pontos positivos. Porém, a forma como ele chegou praticamente sabotou o próprio aparelho, diminuindo o interesse do consumidor.

Poucas empresas conseguem rentabilizar um recurso fechado, em especial em um sistema tão propagado como o Android. O Magic Slot é, de fato, uma das primeiras tentativas de se produzir um modelo modular, mas peca tanto pela forma como é implementado quanto pelo preço. Nesse sentido, ainda que também se trate de uma solução fechada, tendemos muito mais para a modularização do Moto Z, mais intuitiva e à prova de defeitos. Ainda assim, parece que ainda estamos longe de ver a popularização dos smartphones modulares.

De qualquer forma, a LG precisa urgentemente rever a sua estratégia de vendas e marketing, começando a posicionar seus produtos como concorrentes inquestionáveis da linha Galaxy S. Ela deve parar de esperar a Samsung fazer o seu estrago antes de ver o que vai fazer. E, em especial no Brasil, trazendo o melhor produto possível o quanto antes e não deixando nosso país em baixíssima prioridade quando se trata de atualizações. Quem sabe no G6, não?

Com informações do Korea Times

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