Mulheres Históricas: Marie Curie e seus dois prêmios Nobel em física e química

Por Patrícia Gnipper RSS | em 28.07.2016 às 22h47 - atualizado em 28.07.2016 às 23h02

Marie Curie

Quando falamos sobre mulheres pioneiras nas ciências, o nome de Marie Curie é comumente um dos primeiros a serem lembrados. Diplomada em física e também em química, a cientista ficou conhecida por suas importantes contribuições sobre radioatividade, tornando-se a primeira mulher a conquistar um Prêmio Nobel e a primeira pessoa (e única mulher até os dias de hoje) a receber o prêmio duas vezes, em duas áreas diferentes.

A polonesa Marie Skłodowska Curie nasceu na Varsóvia em 1867. Naturalizada francesa, Curie conduziu pesquisas pioneiras sobre a radioatividade, e foi a primeira mulher a ser admitida como professora na Universidade de Paris. Mas antes disso, começou seu treino científico na Universidade Floating, em sua cidade natal, e aos 24 anos (em 1891) acompanhou sua irmã mais velha para estudar em Paris – onde desenvolveu seu aclamado trabalho científico.

Entre suas diversas conquistas, estão a teoria da radioatividade (e esse termo inclusive foi criado por Curie), técnicas para isolar isótopos radioativos, e a descoberta de dois novos elementos (polônio e rádio). Sob sua direção, foram conduzidos os primeiros estudos sobre o tratamento de neoplasmas com o uso de isótopos radioativos, e a cientista foi fundadora do Instituto Curie, em Paris, e de outro instituto homônimo na Varsóvia – que são, até hoje, grandes centros de pesquisa médica.

Vencendo desafios desde muito jovem

Marie foi a quinta e última filha de um casal de professores poloneses, que perdeu todas as suas propriedades e riquezas como consequência de seu ativismo em prol da independência da Polônia. Essa realidade fez com que a jovem futura cientista tivesse uma vida difícil desde cedo, mas as dificuldades não a impediram de investir em seus estudos.

Marie Curie
Marie Curie (à esquerda), ao lado de seu pai e duas irmãs (Reprodução: Divulgação)

Depois de estudar em pequenas escolas locais e obter um nível básico de formação científica graças a seu pai (que era professor de física e matemática), Curie venceu uma depressão quando se mudou de Varsóvia e viveu uma temporada com parentes no interior do país. Ao retornar a viver com seu pai, foi impedida de prosseguir com sua educação superior pelo fato de ser mulher, mas conseguiu uma vaga na Universidade Volante – uma instituição clandestina pró-Polônia que desafiava as autoridades russas e permitia a inscrição de alunas mulheres.

Para se manter, Curie tornou-se governanta e quando trabalhou com uma família acabou se apaixonando por um matemático eminente, mas a família do rapaz a rejeitou por conta de sua condição financeira. Então Marie passou a juntar dinheiro para investir pesado em seus estudos e, consequentemente, em seu futuro profissional. Mas, até lá, seguiu estudando por conta própria comprando livros e trocando cartas com personalidades do meio científico. Aos 22 anos, retornou mais uma vez à Varsóvia e começou a receber um treinamento prático no laboratório de química do Museu da Indústria e Agricultura.

Depois, mudou-se para Paris com sua irmã mais velha e seu cunhado onde seguiu estudando física, matemática e química na Universidade de Paris. Nessa época, Curie sobreviveu com recursos escassos e chegou a desmaiar por estar passando fome. Estudando durante o dia e lecionando à noite, a cientista concluiu sua graduação em física e começou então a trabalhar no laboratório industrial de seu professor Gabriel Lippmann, ao mesmo tempo em que dava continuidade a seus estudos graças a uma bolsa que possibilitou a obtenção de uma segunda graduação.

As conquistas acadêmicas de Curie

Em 1886, Marie passou a estudar as radiações emitidas pelos sais de urânio e, juntamente de seu marido, começou estudar materiais que produziam radiações. Nessa busca, descobriu novos elementos e sua descoberta foi anunciada à Academia de Ciências de Paris. O primeiro elemento foi o polônio (nome que faz referência à Polônia, país natal da cientista), e o outro doi o rádio (que ganhou esse nome por conta de sua intensa radiação). O casal inventou, então, os termos radioatividade e radioativo para caracterizar a energia liberada espontaneamente por elementos químicos.

Em 1903, Marie recebeu junto de seu marido o prêmio Nobel de Física, “em reconhecimento aos extraordinários resultados obtidos por suas investigações conjuntas sobre os fenômenos da radiação”, sendo a primeira mulher a receber essa condecoração. No mesmo ano, a cientista recebeu seu doutorado em ciências e, após a morte de seu marido três anos depois, Curie ocupou seu lugar como professora de Física Geral na Faculdade de Ciências, sendo também a primeira mulher a realizar essa função. 

A também diretora do Laboratório Curie do Instituto do Radium, da Universidade de Paris, participou das sete primeiras edições da Conferência de Solvay, que reuniram celebridades científicas desde 1911. Essas reuniões proporcionaram avanços fundamentais para diversos segmentos científicos, como, por exemplo, a física quântica. Na primeira edição da conferência, por exemplo, Marie Curie esteve junto a Albert Einstein, bem como ao lado de diversos nomes relevantes na comunidade científica da época.

Marie CurieFoto da primeira edição da Conferência de Solvay, em que Marie Curie aparece ao lado de Albert Einstein (Reprodução: Divulgação)

Uma exímia educadora

Além de estudiosa dedicada, Marie também teve papel significativo como educadora. Quando tinha 18 anos, foi professora particular para filhos de famílias ricas na Polônia, mas nessa época o país ainda era dominado pelo Império Russo e a professora não podia repassar sua cultura e seu idioma aos mais jovens. No entanto, Marie lecionou também em uma universidade ilegal frequentada principalmente por mulheres - correndo todos os riscos que uma atividade ilegal proporcionava.

Anos mais tarde, aos 33 e já na França, tornou-se professora secundária da Universidade de Sarbonne, onde também foi a primeira mulher a participar de seu corpo docente. De acordo com sua filha, a cientista participou de um projeto de ensino chamado de “cooperativa de ensino”, que ensinava ciência aos filhos dos professores na prática, com experimentos em laboratórios reais. 

Lidando com “trolls” muito antes da internet

Além de ter sido impedida de estudar por ser mulher, sofrido muito com dificuldades financeiras por conta do ativismo de seus pais, e ter sido rejeitada pela família de seu grande amor porque era pobre, Marie Curie também precisou lidar com os “trolls”, numa época muito antes do surgimento da internet. E esses “trolls” eram os membros da mídia francesa que publicaram um escândalo recheado de sensacionalismo e uma bela dose de desrespeito sobre a vida privada da cientista. 

Em 1911, após Curie ter se tornado a primeira pesquisadora da história a ganhar um prêmio Nobel em duas áreas distintas, a imprensa francesa conduziu uma campanha difamatória contra a cientista, publicando uma série de cartas de amor que Curie havia trocado com o também físico Paul Langevin - que era casado, enquanto a cientista já era viúva. Na verdade, Langevin vivia separado de sua esposa, mas oficialmente o casamento ainda era mantido. 

O escândalo chegou à mídia pelas mãos da esposa de seu amante, que não aceitava a separação e, ao descobrir as correspondências trocadas entre Curie e seu marido, as entregou para a imprensa local, que pintou a imagem de Marie como sendo uma destruidora de lares. E algo que perdura até os dias atuais é o fato de que a mídia simplesmente ama uma boa história de adultério, especialmente envolvendo figuras aclamadas.

Durante a primeira Conferência de Solvay, em 1911, o escândalo estava em seu auge e foi nessa ocasião que Curie recebeu o apoio e o ombro amigo de Albert Einstein, que, horrorizado com a conduta da imprensa na difamação coletiva de Curie, escreveu uma carta de apoio à colega cientista.

Marie Curie

Traduzindo, a carta diz:

“Muito estimada Sra. Curie,

Não ria de mim por lhe escrever não tendo nada sensível a dizer. Mas estou tão enraivecido pela forma com a qual o público presentemente tem ousado a se interessar por você que eu absolutamente preciso dar vazão a este sentimento. Contudo, estou convicto de que você despreza consistentemente esta ralé, quer obsequiosamente esbanje respeito por você, quer ela tente saciar seu desejo por sensacionalismo! Eu estou impelido a lhe dizer o quanto vim a admirar seu intelecto, seu ímpeto, e sua honestidade, e que eu me considero sortudo por ter lhe conhecido pessoalmente em Bruxelas. Qualquer um que não se enquadre entre estes répteis está certamente feliz, tanto agora quanto antes, que nós tenhamos entre nós figuras como você, e Langevin também, pessoas reais com quem qualquer um se sente privilegiado por manter contato. Se a ralé continuar a se ocupar com você, então simplesmente não leia esta bobagem, mas sim a deixe para o réptil pelo qual ela foi fabricada.

Com os mais amigáveis cumprimentos a você, Langevin e Perrin, atenciosamente, A. Einstein”

Reconhecimento em vida

Apesar de ter sido alvo desse escândalo midiático, diferentemente de como acontece com diversas personalidades pioneiras em suas áreas de atuação, Marie Curie obteve o reconhecimento devido ainda em vida. Em 1911, recebeu o Nobel de Química pelos seus serviços para o avanço da química, graças ao descobrimento dos elementos radioativos e o estudo da natureza de seus compostos. Generosa e visionária, Marie não patenteou o processo de isolamento do rádio, permitindo que toda a comunidade científica investigasse as propriedades desse elemento e agregasse conhecimentos à sua descoberta. Ironicamente, seu segundo prêmio Nobel foi concedido no mesmo ano em que Curie foi rejeitada pela Academia de Ciências de Paris como sócia.

Durante a primeira Guerra Mundial, Curie propôs o uso da radiografia para o tratamento de soldados feridos, e em 1921 visitou os Estados Unidos, que a recebeu de braços abertos, para arrecadar fundos para suas pesquisas científicas. Nessa época, carregava elementos radioativos em seu bolso, já que os perigos da exposição à radioatividade ainda eram desconhecidos.

Marie Curie morreu em 1934 aos 66 anos de idade, na França, por conta de uma leucemia – consequência da exposição intensa a radiações durante seu trabalho. Seu livro “Radioactivité”, que foi publicado após sua morte, é considerado um dos marcos dos estudos sobre a radioatividade clássica, sendo uma obra relevante até os dias atuais. Por conta da alta radioatividade a que Curie e os ambientes em que vivia e trabalhava eram expostos, seu livro original até hoje só pode ser manipulado por pessoas usando roupas protetoras, já que ainda é altamente radioativo.

Marie Curie
Estátua de Marie Curie localizada em seu túmulo, no Panteão, em Paris (Reprodução; Divulgação)

Conheça também a trajetória de Ada Lovelace, Grace Hopper, Hipácia de Alexandria e Mary Kenneth Keller.

Assine nosso canal e saiba mais sobre tecnologia!
Leia a Seguir

Comentários

Newsletter Canaltech

Receba nossas notícias por e-mail e fique
por dentro do mundo da tecnologia!

Baixe já nosso app Fechar

Novidade

Extensão Canaltech

Agora você pode ficar por dentro de todas as notícias, vídeos e podcasts produzidos pelo Canaltech.

Receba notificações e pesquise em nosso site diretamente de sua barra de ferramentas.

Adicionar ao Chrome