Nintendo decide demitir funcionária que vinha sofrendo ataques do GamerGate

Por Patrícia Gnipper RSS | em 31.03.2016 às 07h00

Alison Rapp

Nesta quarta-feira (30), a Nintendo decidiu demitir Alison Rapp, funcionária da unidade norte-americana da companhia, que trabalhava no setor de marketing há pelo menos dois anos e meio. O caso virou notícia porque Alison vinha sofrendo ataques por parte do GamerGate, grupo de gamers que assedia, ofende e ameaça mulheres da indústria dos videogames quando elas tentam criticar o machismo existente no segmento. 

Alison desabafou em seu perfil do Twitter acreditando que a demissão esteja relacionada à proporção que o caso acabou tendo, mas a Nintendo alegou que o motivo da dispensa teria sido um segundo trabalho que Alison realizava em paralelo, indo contra diretrizes da companhia. Mesmo assim, Alison questiona se a empresa a teria demitido caso seu nome não estivesse em evidência no meio por conta dos ataques que vinha sofrendo.

A especialista em marketing disse que o GamerGate já a vinha ofendendo e perseguindo virtualmente há alguns meses. “Precisei conversar sobre medidas protetoras com a minha família, incluindo chamar a polícia para avisá-los de uma possível atividade suspeita”, afirmou Alison na rede social. Segundo ela, o grupo vinha procurando detalhes pessoais de sua vida, relatando as informações descobertas (mesmo sem confirmação de veracidade) para a Nintendo e pedindo sua demissão.

Tudo isso porque Alison, que é bastante ativa nas redes sociais e tem um número consideravelmente relevante de seguidores, se declara feminista e denunciava o machismo e a sexualização da mulher na indústria dos jogos eletrônicos. Por esse motivo, estava acostumada a lidar com assédio e discursos de ódio pela internet, mas não esperava que a situação tomasse uma proporção tão grande que causasse a dispensa de sua função no trabalho.

Apesar do grupo GamerGate ter sido a principal fonte dos ataques, a mulher ficou sabendo que até mesmo um portal neonazista estava apoiando sua demissão depois de um usuário membro desse site ter postado uma extensa lista de contatos de executivos da Nintendo como forma de encorajar os demais leitores a escrever pedindo a demissão de Alison.

Em nota oficial, a companhia declarou que “Alison Rapp foi demitida por violar uma política interna da empresa envolvendo estar em um segundo emprego, o que entra em conflito com a cultura corporativa da Nintendo”, negando que a razão da dispensa tenha relação com os ataques que ela vinha sofrendo. A nota alega que “apesar da demissão da Srta. Rapp ter acontecido logo após ela ter sido vítima de críticas por parte de certos grupos nas redes sociais, as duas situações não estão relacionadas”. Finalizando, o comunicado afirma que “a Nintendo é uma companhia comprometida com o incentivo à inclusão e à diversidade, tanto na nossa empresa quanto na indústria de videogames, e nós rejeitamos firmemente qualquer tipo de assédio baseado em gênero, etnia ou crenças pessoais”.

Contudo, a vítima dos ataques denunciou que, pouco tempo depois de começar a trabalhar na empresa, superiores pediram que ela não "tuitasse" mais opiniões a respeito da cultura de estupro no mundo dos games com medo da repercussão que o assunto poderia gerar - em vez de apoiar a iniciativa da funcionária.

Quem cala consente?

Ok, pode até ser verdade que a Big N tenha demitido a funcionária por ter descoberto seu segundo trabalho, que seria irregular de acordo com o contrato que Alison assinou, mas é inegável que a empresa se manteve em silêncio durante todo esse tempo em que sua contratada sofria assédio e ameaças por conta de seu trabalho lá dentro. Alison não foi alvo do GamerGate só porque combatia o machismo em seu Twitter - Alison foi alvo desse grupo por fazer isso enquanto funcionária da Nintendo.

Mulheres já representam metade do público gamer no Brasil e estão ganhando cada vez mais representatividade na indústria com personagens femininas poderosas e independentes, mas, infelizmente, esse avanço não significa que gamers do gênero feminino estejam no mesmo patamar dos homens quando o assunto é respeito.

O empoderamento que o movimento feminista vem proporcionando a essas mulheres tem dado forças para que elas passem a denunciar e combater comportamentos inaceitáveis por parte de homens nesse meio. O ciberbullying praticado contra mulheres no universo gamer é tão frequente que o assunto foi tema de um debate esclarecedor na última Campus Party, e pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio divulgaram recentemente o número absurdo (porém nada surpreendente) de uma pesquisa que revelou que 100% das mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de assédio enquanto jogavam pela internet. 

Sendo assim, uma vez que a Nintendo afirmou rejeitar firmemente qualquer tipo de assédio baseado em gênero, é no mínimo decepcionante que a companhia não tenha tomado partido a favor de Alison enquanto o GamerGate encabeçava esse ataque coletivo contra sua funcionária.

Não é um caso isolado

O GamerGate ganhou as páginas das notícias em 2014 quando decidiu atacar as desenvolvedoras de jogos Zoë Quinn e Brianna Wu. Na época, um antigo namorado de Zoë teria alegado em suas redes sociais que a moça o havia traído durante o relacionamento e afirmado, sem provas, que ela estaria oferecendo sexo em troca de divulgação e resenhas positivas de seu novo jogo.

O grupo abraçou as tais denúncias e passou a organizar um ciberbullying coletivo contra Zoë em serviços como o IRC, Reddit e 4chan. Usuários dessas ferramentas passaram, então, a coordenar ataques virtuais, bem como ameaças de estupro e de assassinato contra a desenvolvedora. Como a maioria desses usuários participa desses serviços anonimamente, ninguém foi penalizado.

Zoë QuinnZoë Quinn falou sobre o ataque organizado pelo GamerGate em entrevista ao canal BBC em outubro de 2014 (Reprodução: BBC)

Essa cultura de ódio contra mulheres no meio gamer sempre existiu, mas parece estar em maior evidência nos dias atuais não somente por conta do aumento do número de canais de denúncia (como o próprio Twitter e o Facebook, que muitas vezes também fazem papel de veículos de comunicação), como é uma reação à ação dessas mulheres que, cansadas de serem discriminadas e menosprezadas, passaram a “botar a boca no trombone” e não ficam mais caladas quando são ofendias e ameaçadas.

Fonte: Kotaku (1) (2)

Assine nosso canal e saiba mais sobre tecnologia!
Leia a Seguir

Comentários

Newsletter Canaltech

Receba nossas notícias por e-mail e fique
por dentro do mundo da tecnologia!

Baixe já nosso app Fechar

Novidade

Extensão Canaltech

Agora você pode ficar por dentro de todas as notícias, vídeos e podcasts produzidos pelo Canaltech.

Receba notificações e pesquise em nosso site diretamente de sua barra de ferramentas.

Adicionar ao Chrome