Nos EUA, internet ilimitada. No Brasil, uma dura realidade

Por Felipe Demartini RSS | em 19.08.2016 às 09h58

Smartphones

Em seu site oficial, em meio a um mapa brilhante dos Estados Unidos mostrando a sua cobertura, a T-Mobile afirma ser a maior e mais veloz rede de dados mobile do país. Com cores berrantes e até mesmo a presença de nomes famosos como Game of Thrones e Spotify logo na página inicial, a empresa se posiciona como a principal escolha para os clientes que querem aproveitar o máximo da rede, mesmo quando utilizando a internet mobile.

Se a promessa de ser a melhor e mais veloz é verdadeira, depende muito de onde se está dentro dos EUA. Por outro lado, não dá para negar o posicionamento da T-Mobile como uma empresa focada nos dados. Prova disso é a notícia recente de que a operadora vai, em setembro, acabar de vez com todos os seus pacotes que possuem franquia de acesso, entregando uma internet ilimitada para todos os clientes. Ela proclama o próximo dia 6 de outubro como "o fim dos planos de dados".

T-Mobile

Os planos T-Mobile One, como são chamados, serão obrigatórios para todos os clientes novos da companhia. Os atuais têm a opção de permanecerem com os pacotes que já utilizam ou fazerem a conversão para a nova modalidade, que tem preço único. O plano com dados ilimitados custa US$ 70 mensais, cerca de R$ 225 em uma conversão direta, para a primeira linha, com US$ 20 (aproximadamente R$ 65) para as adicionais, com um limite máximo de oito números para um mesmo cliente.

Enquanto a oferta pode parecer interessante para os heavy users, ela também significa que os interessados em pacotes mais modestos podem ter que pagar mais caro. Observando os novos valores em relação aos atuais, dá para perceber que a T-Mobile está nivelando as coisas pela metade – quem tirava mais dinheiro do bolso por causa dos dados passa a ter contas menores, mas quem tinha faturas pequenas pode ter que investir mais. Atualmente, por exemplo, o plano mais em conta oferecido pela T-Mobile sai por US$ 50, cerca de R$ 160, e traz 2 GB de franquia de dados. Por outro lado, o pacote ilimitado custa US$ 95, pouco mais de R$ 300.

É uma dinâmica de mercado que vai contra a lógica seguida por outras operadoras dos Estados Unidos, que cada vez mais abandonam os pacotes mais caros em prol dos menores. A AT&T e a Verizon, duas grandes players do mercado norte-americano, estão investindo cada vez mais em pacotes mais modestos de dados, além de permitir que seus clientes ultrapassem os limites, continuando a contar com uma internet mais lenta.

Alguns poréns

Enquanto as concorrentes desaceleram, portanto, a T-Mobile aumenta a marcha, mas, claro, sem deixar algumas questões de lado. Apesar do pacote ilimitado de dados, algumas restrições se aplicam à forma como a internet é utilizada pelo cliente. Em serviços de streaming como Netflix ou YouTube, por exemplo, não é possível obter imagens em alta definição sem o pagamento de uma taxa de US$ 25 (cerca de R$ 80), levando o total ao preço que era originalmente cobrado, mas ainda representando uma vantagem, já que essa restrição já existia originalmente.

Assistindo Netflix

No caso dos planos atuais, por exemplo, a T-Mobile usa um sistema chamado Binge On, que não desconta da franquia mensal os dados transmitidos a serviços de streaming parceiros, como é o caso do HBO Go, Netflix e Spotify, por exemplo. Aqui, entretanto, se aplica a impossibilidade de ver imagens em alta definição, a não ser, claro, que o usuário desative o recurso, removendo a limitação, mas ativando os descontos. De acordo com a operadora, a diferença, nas telas dos celulares, chega a ser imperceptível, e menos de 1% dos usuários desligaram a função.

Outra restrição, entretanto, se aplica ao compartilhamento da internet por meio de hotspots móveis, que possuem a velocidade limitada a 128 kbps. Para utilizar o poderio máximo do 4G ofertado pela T-Mobile, os clientes devem pagar uma taxa adicional de US$ 15 (pouco menos de R$ 50) e passam a contar com uma franquia de 5 GB, descontada exclusivamente durante o uso do tethering.

4G

A explicação é que o uso de streaming em alta definição e a possível utilização da internet móvel em computadores são aplicações que demandam muitos dados e, sendo assim, poderiam comprometer a experiência para outros clientes. A T-Mobile, inclusive, cita tais restrições como os motivos pelos quais pode, agora, oferecer planos ilimitados.

Por outro lado, promoções atualmente em vigor não deixam de valer para os clientes que desejarem permanecer nos planos antigos. É o caso, por exemplo, da recém-anunciada liberação de Pokémon GO ou do acesso a redes sociais como o Twitter ou Facebook. Nada disso desconta da franquia.

Enquanto isso, no Brasil...

Traçar um comparativo da situação norte-americana com a brasileira, mesmo quando não estamos falando de T-Mobile, é comparar cenários bastante distintos em termos de qualidade de internet, gastos e, principalmente, respeito ao cliente. Sempre que uma mudança em planos ou serviços é anunciada por aqui, a sensação que as notícias passam é de que operadoras sempre trabalham para garantir o próprio lucro e evitarem maiores gastos, mesmo que isso tudo venha em detrimento do cliente.

Basta lembrar que, há poucos anos, a internet móvel ilimitada, por aqui, era norma. Em uma época em que não existiam serviços de streaming, aplicações que exigiam muita carga da rede, Internet das Coisas, cloud computing e outros, enquanto smartphones eram básicos e tinham poucos recursos, o acesso à rede era irrestrito.

Com a maior utilização, então, vieram as franquias com redução de velocidade, mas que permaneciam ilimitadas. A velocidade caía drasticamente uma vez que se atingia um certo nível de consumo, a níveis abaixo das mais precárias conexões discadas. Podia ser pouco, mas pelo menos, mensageiros e outras aplicações de baixa demanda funcionavam, o que impedia o usuário de ficar completamente à mão enquanto o mês não chegava ao fim.

smartphones

Depois, chegaram os cortes definitivos, um padrão que se mantém até hoje. Chegou ao limite de seu plano? Compre pacotes adicionais, ou então dependa do Wi-Fi até que o mês vença e seu pacote seja renovado. No resto do tempo, fique incomunicável e lembre-se dos velhos e não tão gloriosos tempos em que as melhores maneiras de se comunicar com o celular eram SMSs e telefonemas.

Hoje, no Brasil, não existem operadoras que ofereçam planos de internet móvel ilimitada. O pacote mais robusto é fornecido pela Vivo, com minutos ilimitados em ligações e 30 GB de franquia por módicos R$ 999,99 por mês. Depois, vem a Claro, com 20 GB e 3.200 minutos, por R$ 419,99; empatada com a TIM, que oferece a mesma quantidade de dados, mas 1.000 minutos, por R$ 449.

A melhor opção para os usuários nacionais, entretanto, acaba sendo a Oi, que oferece um pacote com 10 GB de internet móvel e 3.000 minutos de ligações por R$ 179,90. A diferença vem na adição de franquia, com cada 10 GB adicionais custando R$ 30 por mês, uma alternativa que vale até mesmo para pacotes mais básicos, que saem a partir de R$ 100 mensais, com 5 GB de dados iniciais.

Algumas operadoras, como a Claro, também oferecem acesso gratuito a redes sociais, sendo a operadora que tem mais opções nesse sentido, não descontando do plano a utilização de Facebook, Twitter e WhatsApp – nas outras, a plataforma do passarinho fica de volta. Pokémon GO e Netflix de graça? Nem pensar.

O buraco é sempre mais embaixo

Banda Larga

Os cortes são lugar-comum quando se fala no mercado mobile e, por pouco, não se tornaram realidade também na internet doméstica. Quem acompanha o noticiário de tecnologia deve ter, ainda, a memória recente da ideia das operadoras de criarem franquias de utilização também para as redes fixas. Dá para dizer com quase certeza que, não fosse a grande mobilização popular, estaríamos convivendo hoje com essa realidade.

A explicação dada pelas operadoras nacionais que apoiavam o corte – NET, Oi e Vivo, apenas para citar as maiores – é parecida com a da T-Mobile, mas pior. Enquanto a americana limita a reprodução de vídeos em HD ou os hotspots móveis, a ideia por aqui seria realizar uma suspensão completa da conectividade para que os usuários aprendessem a regular o uso de aplicações que demandem muitos dados, já que estes estariam interferindo no serviço prestado a outros clientes.

Investir em redes para garantir uma infraestrutura mais adequada às demandas da internet atual e dos serviços de streaming, entretanto, não é uma alternativa citada. Não ajudava, também, o fato de que praticamente todos os limites impostos pelas operadoras eram simplesmente impraticáveis para essa realidade, o que só piorava as coisas.

Marco civil

Nem mesmo a proibição desse tipo de prática pelo Marco Civil parecia capaz de impedir sua aplicação vindoura. O conjunto de regras, sancionado em 2014, prevê que a internet de um cliente só pode ser cortada por falta de pagamento. A lei, entretanto, não diz nada sobre uma redução de velocidade. Vale a pena lembrar que as normas não impedem a interrupção nas redes móveis, e a visão das operadoras era de que o mesmo se aplicaria às redes domésticas.

A pressão popular e ações como as movidas por organizações de defesa dos consumidores e também pelo Ministério Público, entretanto, serviram para tornar a imposição dos limites mais difícil, enquanto a própria Anatel chegava a dizer que as restrições poderiam ser benéficas para os consumidores. Todo o clamor, então, acabou por fazer com que a questão dormisse, apesar de sempre existir a possibilidade de que ela acorde em um futuro próximo.

Aos clientes e usuários, como sempre, resta esperar que isso não aconteça. Mas, mais do que isso, quem sabe, torcer para que propostas como as da T-Mobile existam também por aqui, criando uma internet mais aberta, útil e, acima de tudo, livre para todos.

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